Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
NEUZA MACHADO - LETRAS
Neuza Machado
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AS MENINAS DE LYGIA FAGUNDES TELLES - REALIDADE x FICÇÃO: AS MULHERES BRASILEIRAS VIVENCIANDO UM MOMENTO POLÍTICO DESCONCERTANTE - 3







 

 

AS MENINAS DE LYGIA FAGUNDES TELLES - REALIDADE x FICÇÃO: AS MULHERES BRASILEIRAS VIVENCIANDO UM MOMENTO POLÍTICO DESCONCERTANTE - 3


NEUZA MACHADO



Esta inquirição sobre a mulher como escritora de uma determinada fase de nossa história política permitiu-me raciocinar sobre a realidade sócio-vivencial das mulheres da época e raciocinar também sobre a importante atuação das mesmas à época da ditadura militar (em contra-ponto com a atual realidade, uma vez que, neste ano de 2010 o Povo Brasileiro elegeu uma representante feminina como Chefe da Nação). Lygia Fagundes Telles, como autora de muitos textos ficcionais que se enquadram naquele período, realça aqui, singularmente, um desconcertante momento político de nossa História.
 

Esta minha apreciação da narrativa As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, no que pese a intromissão de algumas observações pessoais, requer a qualificação de texto teórico-crítico. Assim explicado, a Crítica Sociológica, pelo ponto de vista de Georg Lukács, permitiu-me identificar o escritor das Eras Moderna e Pós-Moderna, principalmente o ficcionista do século XX, como um ser social em comunhão ou conflito com seu espaço substancial. Já distanciado dos valores hierárquicos das eras anteriores — valores que exaltavam as experiências de vida e que submetiam o narrador do passado às exigências de sua época —, o criador literário — do século XX até o final — se viu obrigado a adaptar-se a novas formas ficcionais que pudessem refletir o desequilíbrio do homem de sua época (envolto por preocupações cotidianas e sem perspectivas existenciais). Os personagens-narradores pós-modernos se situavam, no âmbito da narrativa literária (em sentido global), num plano intermediário entre o histórico e o ficcional, ao mesmo tempo em que se situavam também no plano da História, propriamente dito, como singularidades ativas do seu próprio núcleo social, portanto, inseparáveis da ação do mundo que os cercava.

 

Por intermédio dos postulados sociológicos, percebo o narrador em terceira pessoa e as narradoras que representam, em primeira pessoa, os pensamentos das três jovens, que pontificam o universo ficcional de As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, como representantes de um momento histórico-social que marcou a juventude das décadas de 1960/70. A narrativa de Lygia indica — sob o encobrimento/desvelamento do texto literário — como era a realidade pessoal-social daquelas jovens que vivenciaram a ditadura instalada no Brasil naqueles anos bélicos. É certo que a autora não fala claramente sobre o assunto, e, condicionada ao momento, certamente não poderia falar, já que a narrativa veio à luz nos idos de 1970, antes do término histórico do regime militar. Entretanto, fica visível a sombra desse período histórico do Brasil, graças aos monólogos das personagens e, principalmente, da atuação da personagem Lião, escritora frustrada, que dedicou seu último romance, O último véu, a Guevara (além de ser subversiva, sequestradora, e com o terrível agravante de ser também aluna de Ciências Sociais). 

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