Dilson Lages Monteiro Sábado, 11 de fevereiro de 2012
NEUZA MACHADO - LETRAS
Neuza Machado
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6.9 - O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA: ESPERANDO A LIBERTAÇÃO

 




6.9 - O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA: ESPERANDO A LIBERTAÇÃO

 

NEUZA MACHADO

 

 

“Até que, pouco a pouco, devagarinho, imperceptível, alguma cousa pegou a querer voltar para ele, a crescer-lhe do fundo para fora, sorrateira como a chegada do tempo das águas, que vinha vindo paralela” (Guimarães Rosa, A Hora e Vez de Augusto Matraga).

 

Eis o início da nova fase do personagem e do discurso literário ficcional do (pós?)moderno narrador roseano. Neste estágio de minha conclusão, Nhô Augusto se encontra à espera da libertação, e o narrador ainda não tem consciência de como esta libertação se dará. O narrador apela para um discurso ficcional diferente, tentando compreender e decifrar a “desordem mental” em que se acha envolvido. Nesse novo plano de criação literária, age como experimentalista, buscando novos métodos e formas para apresentar a sua narrativa. Agora, é a lógica do acontecimento que emerge, impondo a trajetória de vida dos personagens. Nessa última fase, o discurso ficcional está centralizado no pólo da conotação, delegando a quem narra a solução do conflito.

 

O desenrolar ultrapassa os limites da oralidade, por meio de um discurso complexo, observado em nível de estrutura narrativa. Assim, penso neste narrador como o agenciador do insólito, perceptível a partir do terceiro segmento até o final da narrativa, por desenvolver um discurso pautado por estranhamentos linguísticos distantes dos padrões normais.

 

Não me submeto à tirania da gramática, diz Rosa. O narrador também não se submete.

 

Não se trata mais de desenvolver o ato metódico de contar uma estória acontecida, mas preencher os “vazios” de uma narrativa insólita, na qual os inesperados ocorrem sem que o narrador os conheça, repentes que são criados pelo plenipotenciário do ato de narrar.

 

E é por meio de um desses imprevistos que surge a figura ficcional de seu Joãozinho Bem-Bem, autêntico herói romanesco, vindo do Norte, “da fronteira velha-de-guerra”.

 

Esta fronteira assinalada pelo próprio narrador me parece a fronteira que separa os planos histórico-substancial e mítico-substancial do Mundo do Imaginário (criação literária). Nessa fronteira se encontra o narrador. Apenas ele pode mediatizar e transitar livremente entre o real e o imaginário sob o comando do Artista ficcional. É aqui que repenso a assertiva de Roland Barthes, quando este diz que o narrador é um personagem como outro qualquer e que não se deve confundir o escritor com o narrador. O fato é que Roland Barthes se transformou enquanto crítico literário e aceitou as modificações teóricas de seu tempo. No entanto, alguns intelectuais brasileiros, ainda hoje, início de século XXI, se prendem às primeiras considerações de Roland Barthes sobre o narrador, passando informações já desvitalizadas aos alunos, esquecidos que os próprios estudiosos da literatura têm a obrigação de reavaliarem seus pensamentos, uma vez que as narrativas de ficção sofrem modificações temporais.

 

MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6

 

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