NEUZA MACHADO - LETRAS
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6.7 - O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA: CARISMÁTICO-GUERREIRO x CARISMÁTICO RELIGIOSO
NEUZA MACHADO
No primeiro segmento da narrativa ficcional A Hora e Vez de Augusto Matraga (Guimarães Rosa), o personagem principal foi o contendor à moda antiga; transformou-se posteriormente em carismático-religioso, e, em seguida, instaurou-se o conflito que o eliminaria como herói. O conflito representa a morte simbólica do personagem-herói das narrativas experientes. Por consequência, representa, também, a morte simbólica do narrador memorialista (aquele que conta ficcionalmente uma história do passado; não confundir com narrativa de memória), porque quem emerge do conflito não é Nhô Augusto, mas o plenipotenciário do ato de narrar, conhecedor das transformações coletivas de seu momento histórico, testemunha das ocorrências de sua própria realidade social.
Pelo ponto de vista da crítica sociológica, o narrador do século XX “toma a vez” do personagem (o seu próprio presente histórico exige-lhe tal deliberação). Agora, a importante figura do desenrolar da história ficcional é o narrador. Em consequência do conflito, nesta narrativa aqui realçada, Nhô Augusto reaparece (da segunda sequência em diante) como anti-herói e se instaura o distanciamento entre o protagonista e a realidade; assim, no decorrer narrativo, inaugura-se a presença permanente do narrador in-comodado da burguesia brasileira, personagem poderoso que tem em suas mãos a vida e a morte de suas criaturas. Com a assunção do narrador, nada mais resta a Nhô Augusto senão esperar o dia da libertação, escravo que é das objetivações do Artista Ficcional do século XX.
MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6
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