NEUZA MACHADO - LETRAS
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6.6 - O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA: O AGENCIADOR DO CONFLITO FICCIONAL
NEUZA MACHADO
“Mas, como tudo é mesmo pequeno, e o sertão ainda é menor, houve que passou por lá um conhecido velho de Nhô Augusto — o Tião da Thereza — à procura de trezentas reses de uma boiada brava, que se desmanchara nos gerais do alto Urucuia, estourando pelos cem caminhos sem fim do chapadão” (Guimarães Rosa, A Hora e Vez de Augusto Matraga).
Neste trecho, a criatividade ficcional do narrador apresenta uma nítida modificação. A partir deste parágrafo (da página vinte e seis até ao sexto parágrafo da página trinta), o discurso é mediador, produtor do conflito entre as etapas sintagmática e paradigmática do desenrolar narrativo. O narrador abandona o tom oral normativo, instaurando o conflito ― medos e questionamentos da autocrítica burguesa ― a partir da chegada de Tião da Thereza, aparente agenciador do conflito.
Até a um determinado momento, o narrador conta a história de uma “pessoa” que ele conhece (ou “pessoas”). A partir do conflito, passa a criar a trajetória do personagem.
Esta terceira fase do personagem Nhô Augusto emerge do desequilíbrio existencial e discursivo do narrador roseano, e este, enquanto narrador do século XX, já não tem “controle” sobre o desenrolar dos acontecimentos.
“Em meio a plenitude da vida, e através da representação dessa plenitude, o romance dá notícia da própria desorientação de quem vive” (Walter Benjamim).
Este nomeado “desnorteamento” se caracteriza no texto ficcional de Guimarães Rosa por intermédio da referida “desorientação verbal”, se repenso aqui o pensamento acima de Walter Benjamim. O narrador de Rosa saiu do plano diegético da narrativa ordenada para o plano mimético da narração conflituada. Agora, ele é o único deus dentro da matéria enfocada. Assim como Nhô Augusto se deixa levar pelo instinto do burrico, ao retornar ao arraial, ele se deixa comandar pelo fluxo da narrativa.
MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6
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