Dilson Lages Monteiro Sábado, 11 de fevereiro de 2012
NEUZA MACHADO - LETRAS
Neuza Machado
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6.3 - O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6.3 - O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA

 

NEUZA MACHADO

 

 

No início da narrativa, Nhô Augusto recupera a figura do herói, tanto dentro da perspectiva mítica quanto histórica. É o “Todo Poderoso” que submete o povo do arraial do Murici aos seus desmandos. O narrador, nesse momento, se encontra distanciado da matéria narrada, submetendo-se a narrar sem interferências: é um “eu” não nomeado. O herói se movimenta em seu espaço social e mítico, possuindo poderes próprios. Ali se sobressai quem é forte. O sertão representa, em princípio, a dimensão mítico-substancial, a confluência do mítico-pagão com o místico-cristão — novena, leilão, procissão, igreja iluminada, superstições, Deus, diabo —, porque o sertão roseano compõe-se de matéria épica em estado bruto. O sertão do escritor de origem sertaneja, enquanto poder mítico, encontra-se imaculado; enquanto poder político, começa a sofrer as consequências de uma sociedade mal edificada.

 

O poder político de Nhô Augusto ameaçava ruir, e isto se observa logo no início. Seria a queda do poder do novo Brasil, que a partir de Vargas se desenvolve industrialmente? Talvez. O leilão em honra da Santa padroeira do arraial é o elemento que irá desencadear a queda. A narrativa começa a partir da desestruturação do personagem, refletor da desestruturação do narrador, refletor da desestruturação da burguesia rural brasileira, ou, ainda, refletor do Brasil, confluência de diversas etapas econômicas.

 

O poder, neste sertão ficcional especialmente, representa as diversas fases/faces do Poder (em sentido lato). E é um poder fragmentado, pois, como o poder sócio-substancial do personagem, não foi bem edificado (ver as contribuições para esta mal-edificação do poder de Nhô Augusto: mulheres, jogo, violência e outros pecados). O poder de Nhô Augusto se desestrutura a partir do leilão, e é sem surpresas que o leitor espera a sua queda.

 

O narrador de experiências ainda se encontra distanciado da matéria narrada. Ainda há como intuir a matéria mítico-substancial introjetada no espaço sócio-político do sertão. Um exemplo é o próprio Quim Recadeiro, amigo de Nhô Augusto e mensageiro dos dois espaços. O Quim Recadeiro como mensageiro político: a notícia da ruína social/pessoal. E como mensageiro do espaço mítico. É por intermédio dele, também, que o Destino envia seus avisos ao Todo-Poderoso do arraial do Murici (avisos não percebidos).

 

“Assim, quase qualquer um capiau outro, sem ser Augusto Esteves, naqueles dois contratempos teria percebido a chegada do azar, da unhaca, e passaria umas rodadas sem jogar, fazendo umas férias na vida: viagem, mudança, ou qualquer coisa ensossa, para esperar o cumprimento do ditado: “Cada um tem seus seis meses...” (Guimarães Rosa, A Hora e Vez de Augusto Matraga).

 

Talvez a “queda” do personagem seja morte ideológica enquanto representação do espaço sócio-político da burguesia rural; mas poderá ser avaliada como representação do castigo imposto pelo Destino. Ou pelo narrador?

 

Uma comprovação do distanciamento do narrador, na primeira sequência, é que este não se comove com o sofrimento do personagem, e coloca a figura de Deus também distanciada. Depois da surra sofrida, Nhô Augusto “chama por Deus, na hora da dor mais forte, e Deus não atende, nem para um fôlego” (op. cit.).

 

Enquanto Nhô Augusto perde seus poderes dentro das dimensões sócio-substancial e mítico-substancial, o major Consilva, representante do contra-poder que aspira ao poder de fato, instala-se como seu sucessor.

 

MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6

 

 

 

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