Dilson Lages Monteiro Sábado, 11 de fevereiro de 2012
NEUZA MACHADO - LETRAS
Neuza Machado
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6.2 - O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA

 

6.2 - O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA

 

NEUZA MACHADO

 

 

O narrador de Guimarães Rosa (A Hora e Vez de Augusto Matraga) procura valores humanos autênticos em seu momento histórico e não os encontra. Originário de uma realidade social que preserva valores tradicionais, possui o conhecimento de um mundo perfeito, de acordo com os ditames antigos (pelo menos nas recordações de seu criador ficcional), o qual se encontra distanciado da realidade moderna. Por esta via, procura literariamente significar esse mundo, e consegue — até um determinado trecho da narrativa —, mas sua própria fragmentação interior o desvia para um remate inesperado. Assim, concluo na trajetória de vida do personagem Nhô Augusto como a própria trajetória experiente do narrador ficcional do século XX, inconteste alter ego do renovado plenipotenciário do ato de narrar.

 

“Não me interessa o dinheiro: venho de um mundo onde ele não adianta muito; lá se necessita de pão, armas, cavalos, e ainda se pratica o comércio da troca” (Guimarães Rosa, ENTREVISTA).

 

No sertão mineiro (ainda hoje, início do século XXI) estão latentes os valores arcaicos. O dinheiro, mediador do modo de produção capitalista, é algo que não se entende pela camada mais pobre, isto é, quase não tem valor, ou não é ainda o valor dos valores. Encontra-se o valor de uso, “o comércio da troca”, no entender de Guimarães Rosa. Por este aspecto, nada mais natural do que “uma linguagem simbólico-alegórica para verticalizar o jogo tenso” (op. cit.) entre o homem e o seu universo mítico-substancial, cujas origens se perdem (ou se encontram) no princípio do mundo.

 

A trajetória de vida do personagem repete a trajetória existencial do narrador. Este é proveniente de um espaço sócio-substancial incrustado na Era Moderna (o sertão brasileiro do século XX), mas que conserva um elevadíssimo grau de primitivismo. O poder de Nhô Augusto é plurissignificativo, pois é possível observar nele as diversas fases/faces do poder do Homem e do Mundo. O narrador analisa esse poder, que é seu próprio poder, enquanto refletor de uma sociedade indefinida e contraditória, ao mesmo tempo agrícola e moderna. O sertão é um espaço conflituado onde, em princípio, o narrador busca apreender unicamente o universo comunitário de sua matéria de análise. Nos primeiros momentos, percebe-se a sua intenção. Este apresenta o sertão que se insere em seu momento histórico, mas, ao mesmo tempo, apresenta a matéria mítica existente nesse mundo, remanescente de um lendário mundo primitivo, já distanciado no tempo. A realidade ficcional roseana de A hora e vez de Augusto Matraga apresenta-se inicialmente (primeiras sequências) como um núcleo perfeito, segundo às leis dos antigos, e os personagens também. Mas, observando o momento histórico de quem narra, percebe-se que a ótica do narrador se encontra fragmentada (conflito entre o narrador experiente, linear, e o narrador reflexivo do século XX), o que impõe ao personagem Nhô Augusto, no último segmento, as insólitas variações dessa fragmentação.

 

MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6

 

 

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