NEUZA MACHADO - LETRAS
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6.13 - O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA: NARRADOR MEMORIALISTA x NARRADOR DO SÉCULO XX
NEUZA MACHADO
Os narradores modernos foram jogados à pressão do progresso, um processo histórico que eliminou, dentro da história literária, os narradores memorialistas. Os narradores modernos, espelhos de uma sociedade de aparências, foram obrigados a criar novas atitudes discursivas que representassem as faces desencontradas do mundo burguês. Descobriram o poder da palavra multifacetada e, com isto, descobriram o poder do discurso ficcional como alicerce de um mundo diferente do cotidiano (mesmo reproduzindo-o); mundo diferente porque verdadeiro em seus questionamentos.
Por esta ótica, encontro o narrador de A hora e vez de Augusto Matraga (“narrador problemático”) possibilitando as transmutações existenciais e sociais, interagindo com as transmutações de seu espaço substancial. O poder político de Nhô Augusto é o poder político do narrador moderno (Era Moderna).
Como alter ego do Artista ficcional do século XX, Nhô Augusto significa a face política de homens que herdaram nomes ilustres, que herdaram o poder do “ontem eterno”. Esse poder herdado constitui a base do controle político do personagem ficcional dominando o povo do arraial do Murici. O narrador roseano não recebeu o poder do ontem eterno, que foi de outros. Um provável Augusto, representando as anteriores várias famílias sertanejas influentes, perdeu a chance de perpetuar o poder da aristocracia rural.
Colocando o problema na narrativa ficcional, este narrador roseano interativo resgata a continuação desse poder, por meio do discurso já modificado. É um voto de confiança no futuro. A certeza de que a reprodução da sociedade sertaneja, com todos os seus valores arcaicos ou modernos, ou de modelos sócio-políticos futuristas, estará para sempre garantida dentro da cultura brasileira e da própria nacionalidade.
O major Consilva, por exemplo, aponta para a modernidade desse renovado poder, pois os bate-paus alugados são os que farão a revolução do futuro. O major é a garantia, é a matéria para que outros narradores possam prosseguir narrando; o major é a ameaça de continuidade da ordem que preexiste no sertão (mundo ainda ordenado). O major derruba Nhô Augusto porque não pode existir complacência para com os que administram mal os impérios políticos herdados. O major é o instrumento de vingança do incomodado narrador do século XX, impedido historicamente de assumir a sua condição de herdeiro do “ontem eterno”. Dando vida a um personagem contra-substancial, o narrador do século XX se redime de seu rancor.
O major representa também um outro aspecto de sua face contraditória. O major manda surrar Nhô Augusto, porque se encontra sob as ordens do incomodado narrador moderno. O major como criação ficcional representa o próprio narrador em sua vingança. Vingança de quem nasceu aristocrata sertanejo e se tornou burguês sob a imposição do momento social. Poucas famílias sertanejas escaparam dessa armadilha armada pelas engrenagens de um mundo exterior ao sertão, mundo onde o poder do dinheiro anula o poder do sobrenome, do nome. Nhô Augusto administrou mal o seu nome e foi castigado. O narrador, utilizando-se do discurso ficcional, castigou-o.
Estas reflexões sobre o narrador não têm, aparentemente, nenhum referencial empírico dentro do espaço narrativo. Onde está a prova da verdade destas minhas idéias? São hipóteses teóricas, reflexões sobre o narrador do século XX. São reflexões também sobre o próprio Futuro do Brasil. O discurso opaco e criativo do narrador roseano permite extrapassar os limites do texto. Há de existir um motivo que fundamente a “surra” que o narrador cria para seu personagem. Há de existir um motivo que o faça restituir os poderes do personagem, isto é, do povo, sob uma nova substância democrática; há de existir, enfim, um motivo que o obrigue a adquirir, em uma determinada fase do fio narrativo, isto é, do Futuro, nova posição discursiva, revolucionando o personagem e a narrativa.
Os problemas ficcionais, que são a marca das narrativas do século XX, nesta autêntica narrativa brasileira, prendem-se ao narrador. Este é o único que tem consciência questionadora e que “pagou um alto preço” por estar ligado direta ou indiretamente ao sertão, ao mesmo tempo em que se caracterizou como personagem moderno-citadino dentro de uma narrativa moderna (Era Moderna). O narrador quis expressar o sertão e seus valores essenciais e, intuitivamente, ou instintivamente, expressou os paradoxos sociais e íntimos do Artista Ficcional de seu tempo, aquele que aparece na Entrevista ao crítico alemão Günter Lorenz. Fantasiou-se de sertão magnificamente e criativamente, desejou-o um mundo de heróis, mas o que se sobressai são os desmoronamentos históricos e públicos do homem brasileiro e seu espaço imediato (metade do século XX).
As péssimas condições da sociedade daquela época levaram o incomodado narrador de Guimarães Rosa a mudar os rumos da narrativa. A futura colaboração do leitor brasileiro pós-moderno o impeliu a mudar os rumos narrativos, porque o brasileiro do século XX se viu obrigado a ser herói de sua própria história pessoal, necessitou criar sua própria trajetória de vida. As imagens substanciais, os discursos substanciais não satisfizeram os anseios de quem se encontrava a um passo de uma hecatombe. Foi necessário descobrir novas imagens ficcionais, novos caminhos, novos discursos. Houve a necessidade de sustentar novas atitudes discursivas e estabelecer novos compromissos com o leitor brasileiro. O narrador do século XX precisou ganhar novos espaços dentro do mundo social e ficcional e viu-se obrigado a seduzir o leitor exigente, pois aquele já não se contentava com reproduções ultrapassadas (e o escritor Guimarães Rosa tinha consciência da necessidade de transformação ficcional; bastará ao leitor esclarecido interagir com os textos de Ave, palavra, por exemplo).
Por consequência, minhas reflexões me levaram em direção ao problema do narrador do século XXI; induziram-me a compactuar com este próximo narrador de um discurso ficcional diferenciado, já que teorizo o texto sob o comando do próprio texto. Compactuando com este seguinte narrador (e seus textos ficcionais), penso imprimir, nesta página final de minhas teorizações sobre o narrador de A Hora e Vez de Augusto Matraga, incomum narrador do século XX, a “cor local” de minha particular teoria — que se quer brasileira —, pois que tem como objeto de análise o próprio Brasil.
MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6
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