Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de setembro de 2010
NEUZA MACHADO - LETRAS  
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6.1- O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA

 

6.1- O NARRADOR DE A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA

 

NEUZA MACHADO

 

 

O narrador de A hora e vez de Augusto Matraga (Guimarães Rosa, Sagarana) é um ser social na dialética da comunhão e do conflito com seu espaço substancial. De acordo com uma destas duas formas de vivenciar o momento histórico, ou equilibrando-se, tem início o método literário-ficcional de apropriação da realidade efetiva e a consequente transposição desta para a realidade ficcional. O narrador se situa em um plano dialético de agenciamento entre a História e o Ficcional, ao mesmo tempo em que se situa unilateralmente também na dimensão histórica, graças a sua condição de alter ego do Ficcionista. Assim, enquanto personagem-narrador, torna-se participante ativo de um determinado núcleo sócio-substancial, envolvido — por sua vez — na movimentação das sequências evolutivas desse mundo imaginado.

 

Se os personagens roseanos desta narrativa se revestem de uma aura relacionada com a matéria épica, se estão adaptados ao mundo que os cerca, se não há interioridade nas primeiras sequências, há, em contrapartida, o olhar controvertido do narrador do século XX. Este referido narrador, nesta e em várias outras narrativas roseanas, se percebe ansioso por não transgredir a perfeição (que observa), mas se encontra impotente em relação a si mesmo, sofrendo por sentir-se fragmentado, espectador que é de um mundo em decadência. Por seu conhecimento das duas realidades paralelas, se coloca como testemunha da degradação da sociedade burguesa, ainda que sertaneja. Eis aqui, portanto, a minha argumentação central: O verdadeiro personagem moderno (problemático), nesta narrativa de Guimarães Rosa, é o narrador? Este seria o “herói problemático” dos tempos modernos, do qual fala Georg Lukács?

 

O personagem Nhô Augusto encarna a pureza dos heróis arcaicos, e o sertão roseano recolhe os valores de uso de um mundo recuperável apenas através do olhar nostálgico do narrador. Este narrador, como personagem intermediário, é aquele que conhece e faz a mediação das duas realidades e busca recuperar, sem êxito (não há como recuperar o passado), a essência dos valores antigos. O herói da narrativa moderna termina tragicamente, como diz Lukács. Se, nestas linhas teóricas, afirmo que Nhô Augusto encarna a pureza dos heróis antigos e, ao mesmo tempo, penso no narrador como o verdadeiro personagem (pós?)moderno (quando sei que quem termina tragicamente, dentro do universo desta narrativa roseana, é Nhô Augusto), estou sendo paradoxal.

 

Neste paradoxo estrutura-se a obra de Guimarães Rosa: apreender a matéria mítica contida no processo histórico e no sertão e converter esse conteúdo em narrativa ficcional, entretanto, sem descaracterizar sua intenção de exaltar um espaço que lhe foi caro na infância e adolescência. O conflito se instaura a partir do fato desse espaço sertanejo fechado, perfeito, se achar ameaçado (circundado) por uma realidade degradada: a produção da moderna sociedade individualista, nascida do modo de produção capitalista. Se há um mundo perfeito, de pura maravilha (sentido etimológico), para ser resgatado por intermédio da literatura, o problema deste mundo não pertence mais às civilizações fechadas do passado (cf. Lukács). A perfeição, em grupos sociais modernos, é um conceito inexistente dentro de um ponto de vista histórico. Mas esta é recuperada pelo olhar nostálgico do narrador (pós?)moderno, um Quixote a lutar contra as engrenagens de uma sociedade de aparências. Enquanto o personagem Nhô Augusto se encontra coerente em suas fase/faces de vida, o narrador roseano se percebe dilacerado porque, em seu interior reflexivo, já não há a espontaneidade e o distanciamento dos antigos narradores. Assim, se exige a morte do personagem sob os ditames das leis da modernidade.

 

A morte de Nhô Augusto é significante da própria “morte” do narrador de narrativas exemplares (tradicionais), personagem que traz em si os conteúdos de vida do Artista Ficcional. Existe a morte simbólica do narrador quando este deixa para trás valores que em determinados momentos lhe foram caros. Falo deste narrador de Guimarães Rosa, em particular, aproximando-o conscientemente do Artista Ficcional. Roland Barthes (atenção: o da primeira fase estruturalista), evidentemente, pregou que não se deve confundir o narrador com o escritor, afirmando que aquele é um personagem como outro qualquer. Entretanto, consciente que estou de que há “segredos” nas entrelinhas de um texto literário, vou descobrindo, gradativamente, que este narrador do século XX, que tanto me “in-comoda”, atua como intermediário entre o Histórico e o Ficcional submetido ao acionamento de seu Criador. Porta-voz de uma entidade demiúrgica há forçosamente de transmitir pensamentos, questionamentos, dúvidas, todo um elenco de emoções que fazem substancialmente parte de seu universo interiorizado e imediato. Ou estes sentimentos não são imediatos e provêm de raízes metafísicas.

 

O narrador, como personagem do sertão, não pode ser confundido com o Artista, no que diga respeito a uma narrativa que tente registrar a vida do Homem, como personagem histórico. O Artista ficcional, cidadão do mundo, mas nativo do sertão, pode se projetar em seus personagens, fazendo emergir suas raízes sertanejas. Assim, Nhô Augusto, Joãozinho Bem-Bem e o narrador, todos os personagens do universo ficcional de Guimarães Rosa representaram/representam as várias faces/fases de seu próprio país (do século XX), portanto, poderão representar também os sentimentos de sertanejo e brasileiro de quem os criou, dando-lhes vida ficcional.

 

Neste caso, o narrador roseano, aqui nestas minhas elucubrações teórico-interpretativas, poderá ser refletido como o autêntico herói degradado de Georg Luckács. Este narrador (de A Hora e Vez de Augusto Matraga), em particular, se descobre como indivíduo que faz parte da sociedade moderna, uma sociedade conformista e convencional, na qual o valor maior é o valor do modo de produção e da apropriação capitalista de um capitalismo agrário. Este narrador, paradoxalmente, se descobre também como personagem inerente de uma outra realidade, repleta de pureza mítica, que se manifesta sempre renovada em suas indeléveis lembranças.

 

Mas este narrador “toma a vez” do personagem Augusto Matraga e passa a centralizar a atenção do leitor. Seria um Narrador Pós-Moderno?

 

MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6

 

 

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