Dilson Lages Monteiro Sábado, 11 de fevereiro de 2012
NEUZA MACHADO - LETRAS
Neuza Machado
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5.8 - A TRANSFORMAÇÃO DISCURSIVA DO NARRADOR

 

5.8 - A TRANSFORMAÇÃO DISCURSIVA DO NARRADOR

 

NEUZA MACHADO

 

 

O detonador da luta foi um capanga de seu Joãozinho, o Teófilo Sussuarana, homem bronco, que partiu para cima de Nhô Augusto. Este percebeu que a sua vez chegara: “— Epa! Nomopadrofilhospritossantamém! Avança cambada de filhos-da-mãe, que chegou minha vez!” (Guimarães Rosa, A Hora e Vez de Augusto Matraga).

 

Seu Joãozinho reivindicou o direito de luta com Nhô Augusto sem interferência. E na epifania, na manifestação final: “— Sai, Cangussu! Foge, daí, Epifânio! Deixa nós dois brigar sozinhos!” (Op. cit.).

 

Foi uma glória. Os dois sozinhos em luta. O povo observava à distância, enquanto as balas se entrecortavam, e as facas se entrechocavam. Nhô Augusto chamando o outro de “meu parente”. Equivalem-se, pois se ambos morrem.

 

No decisivo da narrativa, vê-se a força do poético:

 

“— Se entrega, mano velho, que eu não quero lhe matar...

 

— Joga a faca fora, dá viva a Deus, e corre, seu Joãozinho Bem-Bem...

 

— Mano velho! Agora é que tu vai me dizer “quantos palmos é que tem do calcanhar ao cotovelo!...

 

— Se arrepende dos pecados, que senão vai sem contrição, e vai direitinho pra o inferno, meu parente seu Joãozinho Bem-Bem!

 

— Ui, estou morto...”

 

Nhô Augusto esfaqueara mortalmente seu Joãozinho, mas também se vê ferido de morte.

 

Dois personagens poderosos se enfrentaram; dois personagens possuidores de idênticos dons. Não seria justo que um fosse o vencedor. Ambos perderam; ambos venceram. Como na matéria trágica, os dois têm igualmente razão — por isso se aniquilam. O ato da morte simboliza o renascimento, o “sentido de vida” perene só acessível por meio do imaginário.

 

Pelo ponto de vista sociológico, os dois não podiam fracassar, pois ambos eram forças do Poder. Nas teorias de Weber encontro algo que me reconduz a este momento.

 

“Os fundadores das religiões mundiais e os profetas, bem como os heróis militares e políticos, são os arquétipos do líder carismático. Milagres e revelações, feitos heróicos de valor e êxitos surpreendentes são marcas características de sua estatura. O fracasso é a sua ruína” (Weber).

 

Se ambos não podiam fracassar, a solução ficcional perfeita foi a morte. A morte como uma espécie de redenção, de compensação. Os dois personagens seriam lembrados; aquela briga seria sempre lembrada.

 

O povo começava a idolatrar Nhô Augusto:

 

“Foi Deus quem mandou esse homem do jumento, por mor de salvar as famílias da gente!...

 

E o velho choroso exclamava:

 

— Traz meus filhos, para agradecerem a ele, para beijarem os pés dele!... Não deixem este santo morrer assim... P’ra que foi que foram inventar arma de fogo, meu Deus?!...” (Op. cit.).

 

Morrendo, o personagem do sertão roseano tinha o rosto radiante. Estava santificado e glorificado (nas esferas superiores do pensamento puro). Experimentara o Poder do Ontem Eterno, submetera-se à Força de Deus, e soubera com muita grandeza desenvolver seu carisma. Somado a tudo isto, um outro deus-que-garante-tudo, desconhecido e onírico, estivera ali, até o fim, dando sentido à sua vida ficcional. “Sua hora havia chegado”, ou por outra, já chegara há muito tempo, quando o narrador sertanejo do século XX abandonou o tom memorialista e “tomou a vez” do herói.

 

MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6

 

 

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