NEUZA MACHADO - LETRAS
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5.7 - A TRANSFORMAÇÃO DISCURSIVA DO NARRADOR
NEUZA MACHADO
“Mas, somadas as léguas e deduzidos os desvios, vinham eles sempre para o sul, na direção das maitacas viajoras. Agora, amiudava-se o aparecimento de pessoas – mais ranchos, mais casas, povoados, fazendas, depois, arraiais brotando do chão. E então, de repente, estiveram a muito pouca distância do arraial do Murici.
— Não me importo! Aonde o jegue quiser me levar, nós vamos, porque estamos indo é com Deus!...
E assim entraram no arraial do Rala-Coco, onde havia, no momento, uma agitação assustada no povo” (Guimarães Rosa, A Hora e Vez de Augusto Matraga).
Se antes o arraial do Tombador se caracterizou como espaço intermediário para a permutação de papéis dos personagens, ou seja, Nhô Augusto saindo do Histórico para o Ficcional, e seu Joãozinho saindo do ficcional para adquirir existência histórica, agora, se dá o contrário, no arraial do Rala-Coco: Nhô Augusto quer reconquistar seus poderes históricos, retornando ao arraial do Murici, seu espaço de origem. Seu Joãozinho procura retornar ao Ficcional, de onde “aparentemente” havia saído. Ao mesmo tempo, também, o narrador e o personagem permutam seus papéis na estória narrada. Seu Joãozinho jamais saiu do ficcional. O ficcional como um espelho refletindo o real-substancial. Na opacidade do espelho, ao contrário do vidro e sua natureza translúcida. Caminhando em direção ao Sul, Nhô Augusto, em verdade, caminha sempre em direção ao “Norte”, ou seja, torna-se personagem ficcional. Ele não volta, não retoma o Histórico. A respeito de seu Joãozinho, e suas proezas históricas, o narrador abstém-se de falar. Percebe-se que ele está retornando para o Norte (“descendo para a Bahia...”), depois de ter ajudado a um amigo, e sua condição de personagem ficcional continua inalterada. O arraial do Rala-Coco (plano intermediário) é o lugar onde acontece o reencontro. O arraial em questão, ligado às três dimensões: social, mítica e ficcional, está a pouca distância do arraial do Murici, porque no mundo ficcional não existem fronteiras geográficas.
Os imprevistos se sucedem: a morte do Juruminho, novo convite de seu Joãozinho, para que Nhô Augusto faça parte do bando, oferecimento das armas de Juruminho, “essa estava sendo a maior de suas tentações”, recusa de Nhô Augusto, e, finalmente, o imprevisto central que desencadeará o desfecho da narrativa: a chegada do velho desvalido, que pede clemência para sua família, ameaçada por seu Joãozinho, por ter sido um de seus filhos o matador do Juruminho. Seu Joãozinho queria vingar-se da morte de seu capanga, matando um irmão do assassino e “presenteando” as irmãs a seu bando.
O velho pedia e implorava, e foi aos poucos despertando a consciência de Nhô Augusto (do narrador?). Em determinado momento, depois de implorar e não ser atendido, o velho tomou-se de fúria e enfrentou o jagunço: “— Pois então, satanás, eu chamo a força de Deus pra ajudar minha fraqueza no ferro da tua força maldita!” (Op. cit.).
E a força de deus aparece. O que vem a ser esta “força de Deus”?
A “força de deus” e o carisma recém-rejeitados continuavam incólumes no personagem. Nhô Augusto interfere:
— Não faz isso, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, que o desgraçado do velho está pedindo em nome de Nosso Senhor e da Virgem Maria! E o que vocês estão querendo fazer em casa dele é coisa que nem Deus não manda e nem o diabo faz!
Nhô Augusto havia falado; e a sua mão esquerda acariciava a lâmina da lapiana, enquanto a direita pousava, despreocupada, no pescoço da carabina” (Op. cit.).
Nhô Augusto havia falado! Esta assertiva prova o retorno do poder, um poder que já não se encontra sob as ordens da História. Nhô Augusto falou e acariciou a lâmina da lapiana e a carabina, dados irrefutáveis de poder: voz de comando, força física escorada por armas, transformação facial, ocasionada pelo esforço de se fazer obedecer. Poder da força de Deus; poder excepcional e carisma sustentado por um deus-que-garante-tudo.
“Dera tom calmo às palavras, mas puxava forte respiração soprosa, que quase o levantava do selim e o punha no assento outra vez. Os olhos cresciam, todo ele crescia, como um touro que acha os vaqueiros excessivamente abundantes e cisma de ficar sozinho no meio do curral” (Op. cit.).
O discurso não é ideológico, continua ficcional.
Seu Joãozinho percebe o sério. No mundo das essências conflitantes, o enfrentar-se também não é sinal de estima?
MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6
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