| NEUZA MACHADO - LETRAS |

5.4 - A TRANSFORMAÇÃO DISCURSIVA DO NARRADOR
NEUZA MACHADO
“O bando desfilou em formação espaçada, o chefe no meio. E o chefe — o mais forte e o mais alto de todos, com um lenço azul enrolado no chapéu de couro, com dentes brancos limados em acume, de olhar dominador e tosse rosnada, mas sorriso bonito e mansinho de moça — era o homem mais afamado dos dois sertões do rio: célebre do Jequitinhonha à Serra das Araras, da beira do Jequitaí à Barra do Verde-Grande, do Rio Gavião até aos Montes-Claros, de Carinhanha até Paracatu, maior do que Antônio Dó ou Indalécio; o arranca-toco, o treme-treme, o come brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arranca: Seu Joãozinho Bem-Bem” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).
O poder de seu Joãozinho Bem-Bem é especial: como já foi observado em sua descrição, irradiava também uma luz carismática (lenço azul, dentes brancos). Mas não carisma religioso. Seu carisma provinha de sua força, destemor, coragem e desapego a bens materiais (carisma guerreiro). Brigava e matava, mas só se houvesse motivos. Apadrinhava as brigas dos amigos ou, então, brigava e matava por motivo de política. Seus homens o obedeciam cegamente e, se fosse preciso, morreriam por ele. Costumava dizer: “Gente minha só mata as mortes que eu mando, e morte que eu mando é só morte legal!” (Op. cit).
Como personagem carismático guerreiro, vivia desvencilhado dos laços familiares, uma vez que não ligava para as mulheres. “E as moças... Para mim não quero nenhuma, que mulher não me enfraquece: as mocinhas são para meus homens!” (Op. cit)
O narrador se vale deste novo personagem para, no plano do discurso, operar as modificações necessárias. Agora, Nhô Augusto se encontra envolvido por atitudes de vida conflitantes, incertezas quanto ao futuro. O aspecto moral da narrativa memorialista desaparece e o narrador se esforça por ordenar o desarticulado. Os conflitos e incertezas refletem a desorientação (W. Benjamin) do discurso do narrador. Se antes as etapas de vida eram previsíveis, agora nem mesmo o narrador saberá como se dará o desfecho. Ninguém, inclusive o leitor, saberá prever o que virá a seguir. A partir da chegada de seu Joãozinho Bem-Bem e seu bando, o plenipotenciário do narrar vai esforçar-se ao máximo para dar sentido às sensações que o incomodam e que acontecem em seu mundo ficcional.
Com a chegada de seu Joãozinho, a tentação voltou a perseguir Nhô Augusto. Seu Joãozinho percebeu que o dono da casa não era tão pacífico como demonstrava, e começou a tentá-lo, para que retornasse às brigas. Este provou novamente as delícias do poder: pegou em arma, atirou em um pássaro para experimentar a pontaria (para exercitar o seu poder). Logo depois se arrependeu e retomou a rezaria. Ficou triste novamente, acabrunhado. Na hora da partida do bando, seu Joãozinho ainda tenta convencer Nhô Augusto.
“Mano Velho, o senhor gosta de brigar, e entende. Está-se vendo que não viveu sempre aqui, nesta grota, capinando roça e cortando lenha. (...) Quer se amadrinhar com o meu povo? Quer vir junto?
— Ah, não me tenta, que eu não posso, seu Joãozinho Bem-Bem” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).
À interferência do jagunço, está conflituado. Seria o antigo poder lhe corroendo a alma? “Era só falar, era só bulir com a boca que seu Joãozinho Bem-Bem e seu bando acabavam com o major Consilva. Mas — qual! — aí era que se perdia mesmo, que Deus o castigava com mão mais dura...”
Nhô Augusto se percebe atado à sua antiga penitência. “— Agora que eu principiei e já andei um caminho tão grande, ninguém me faz virar e nem andar de-fasto!”
Lukács fala do indivíduo problemático do romance moderno e do mundo que o cerca. Como imaginar Nhô Augusto um personagem conflituado, se se conhece a pureza de seu espaço existencial? Ora, personagem e espaço, no sertão roseano, são puros. O narrador, no momento personagem atuante, é quem reflete o impuro mundo moderno. Ele perde contato com a pureza primitiva do sertão, perde contato com as idéias disseminadas pela experiência de um povo ímpar. A aspiração do personagem, de ter a sua hora e vez, está problematizada, porque o problemático, e solitário, é o narrador. Este é o indivíduo ilhado em um mundo de conformismo e convenção. Quem busca valores humanos autênticos e não os encontra? O narrador. Ele conheceu um imaculado sertão e era também um imaculado ser. Posteriormente, conheceu o mundo e seus valores inautênticos, e degradou-se. Buscou novamente a autenticidade do sertão, por meio das lembranças, da memória, mas não conseguiu encontrá-la. Na primeira etapa da narrativa memorialista (não confundir com narrativa de memórias), deixa entrever momentos de degradação nos personagens. Suas lembranças se encontram maculadas pela degradação do mundo moderno. Afastando-se do sertão, rompe com o primitivo.
MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6
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