Dilson Lages Monteiro Sábado, 11 de fevereiro de 2012
NEUZA MACHADO - LETRAS
Neuza Machado
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5.1 - A TRANSFORMAÇÃO DISCURSIVA DO NARRADOR

 

 

 5.1 - A TRANSFORMAÇÃO DISCURSIVA DO NARRADOR

 

NEUZA MACHADO

 

 

Urge quebrar esta monotonia, esta repetição de modelos. Faz-se necessário tomar a vez do herói, sair das comunidades fechadas, abandonar a narrativa sintagmática e assumir a narração de uma estória, na qual a desintegração discursiva reflita o mundo caótico que circunda o espaço fechado do sertão e que não se encontra significado pelo narrador. Já não há lugar para a unidade narrativa. Quem narra já não se identifica com a matéria narrada. Encontra-se agora fragmentado, envolto por inúmeras recordações que se embaralham no mais fundo do eu. Aproxima-se o momento da verdadeira “queda” do herói — a morte ideológica — e o nascimento do personagem ficcional. Aproxima-se o momento da permutação de papéis. Agora, o herói é o narrador, semideus com poderes de vida e de morte. O poder de Nhô Augusto é transferido para o narrador moderno, e o poder do Artista ficcional também. Agora, o narrador é o autêntico representante do mundo burguês, retendo em suas mãos a condução da narrativa. Todo poder é poder de vida e de morte. A propalada “hora e vez” de Nhô Augusto depende do narrador, porque este reflete o poder do Artista ficcional do século XX. O narrador submete o personagem a seus desígnios. Diz Foucault: Como quando um general manda seus soldados para a guerra. O narrador, a partir de agora, será o único dono de um discurso narrativo que reflete as condições de seu momento histórico. Doravante, apenas o personagem Nhô Augusto continuará aparentemente o mesmo.  (A Hora e Vez de Augusto Matraga)

 

Esta transformação discursiva impõe-me raciocinar sobre a morte simbólica do narrador memorialista e o nascimento do narrador moderno. Este “sepulta” a lembrança (matéria memorialista) e faz surgir a recordação (matéria lírica) de um mundo que foi seu leitmotiv de vida — leitmotiv de vida do Artista —, mas que, agora, encontra-se desintegrado, embaralhado, em suas recordações. Simbolicamente, repito, morre o narrador memorialista e nasce o narrador-personagem, narrador do século XX, o que sabe dos mais íntimos pensamentos daquele que narra.

 

MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6

 

 

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