NEUZA MACHADO - LETRAS
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4.3 - A AUTORIDADE DO DOM DA GRAÇA
NEUZA MACHADO
O personagem (em A Hora e Vez de Augusto Matraga) começa a pensar em uma nova forma de reestruturar-se. A seguir, faz-se necessário defender-se contra o espaço (o mundo com suas fortes ideologias) e os acontecimentos (imprevisíveis), mas o espaço social, nesta etapa da narrativa, escamoteia tal pretensão, impondo-lhe a substância religiosa que sobrevive sob diversos matizes no sertão.
Cavada pelo pensamento, veio à tona a perdida religiosidade que se escondia no passado, plantada na infância pela avó que o criara, agora estimulada pela preta velha Quitéria que lhe salvara a vida. Dogmas religiosos, atitudes de vida, apelos morais, imposições normativas: cercas conceituais, limitadoras e frustrantes.
O narrador memorialista recomeça.
No princípio da narrativa, a representação do poder hierárquico em decadência. O personagem ― Augusto Matraga ― está prestes a perder a “aura” guerreira. A autoridade do “ontem eterno”, agora, já em vias de extinção em um mundo que procurou se conservar comunitário. Com mais justiça, já houve essa ruptura. O espaço comunitário do sertão resistiu às investidas do progresso moderno (Era Moderna) durante vários séculos, mas se encontra agora nos últimos estágios de decomposição. Faz-se urgente reerguer-se. A “queda” simboliza os momentos críticos da Vida. É lícito observar que, depois das grandes desgraças, surgem os líderes carismáticos, procurando reordenar a desordem.
Nhô Augusto pensa em uma nova forma de preservar o poder. Não o antigo, mas um poder que o eleve acima do comum dos mortais, pois o narrador agora se submete à religiosidade e ao comando da narrativa de espaço (ou seja, aos dogmas ideológicos do momento histórico do personagem sertanejo)
Um dia o personagem resolveu confessar-se. O padre veio, trazido pelos pretos, às escondidas. O novo homem, que emergia da carcaça amassada do antigo e sanguinário Senhor-de-terra poderoso, necessitava da absolvição de seus pecados, do perdão daquele Deus do qual estivera tão distanciado. O padre o absolveu e garantiu-lhe que Deus não desampara os que se arrependem. Por intermédio do padre, a voz do pensamento religioso impôs seus preceitos.
“Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina de sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria... cada um tem a sua hora e vez: você há de ter a sua” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).
Ora, o carisma significa o “dom da graça”. Somente os privilegiados, os líderes poderosamente dotados de milagres e revelações, feitos heróicos e êxitos no que se propõem a fazer, o possuem. Assim, o personagem sertanejo, de ficção do século XX, que acabara de sofrer uma “morte” sócio-substancial, percebe, por intermédio das palavras do padre, a sua chance de reestruturar-se.
Para este recomeço, se necessita de um “novo” revestimento para o denominado personagem ficcional de meados do século XX, e de um “novo” cenário. Por tal motivo, o narrador transporta o cenário para um sítio que Nhô Augusto possuía, e nem sequer conhecia, perdido no sertão. Nhô Augusto levou consigo os pretos samaritanos, que a ele se apegaram e não o quiseram largar.
“Ao sair, Nhô Augusto se ajoelhou, no meio da estrada, abriu os braços em cruz, e jurou: — Eu vou para o Céu, e vou mesmo, por bem ou por mal!... E a minha vez há de chegar... Pra o Céu eu vou, nem que seja a porrete!...” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).
Seria o aparecimento do líder carismático? À imitação de Jesus Cristo, Nhô Augusto sai em peregrinação, levando consigo os primeiros apóstolos.
Procuremos entender, segundo Weber, o que é carisma:
1o) Os líderes naturais nas dificuldades foram os portadores de dons específicos do corpo e do espírito, dons esses considerados como sobrenaturais, não acessíveis a todos.
2o) O carisma só conhece a determinação interna e a contenção interna. O seu portador toma a tarefa que lhe é adequada e exige obediência a um séquito em virtude de sua missão.
3o) O carisma vive neste mundo, embora não seja deste mundo.
4o) O carisma, e isto é decisivo, sempre rejeita como indigno qualquer lucro pecuniário que seja metódico e racional. Em geral, o carisma rejeita todo comportamento econômico racional.
5o) Para fazer justiça à sua missão, os portadores do carisma, o mestre bem como seus discípulos e seguidores, devem manter-se distantes das ocupações rotineiras, bem como distantes das obrigações rotineiras de família. (Weber)
Nhô Augusto, se não possuía todos estes pré-requisitos carismáticos, estava no caminho de os adquirir.
“E assim se deu que, lá no povoado do Tombador (...) apareceu, um dia, um homem esquisito, que ninguém podia entender.
Mas todos gostaram dele, porque era meio doido e meio santo; e compreender deixaram para depois” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).
Este trecho remete à primeira afirmativa de Weber, pois se Nhô Augusto era meio doido e meio santo, possuía dons específicos do corpo e do espírito, dons que, na maioria das vezes, são considerados sobrenaturais.
Na segunda afirmativa, o autor diz que o carisma só conhece a determinação e a contenção interna.
Quando o Tião da Thereza, personagem providencial, passou lá pelo Tombador, à procura de trezentas reses, e o encontrou, logo foi dando as notícias que ninguém tinha pedido. Nhô Augusto sentiu a ferida se reabrindo, mas se conteve, e pediu ao Tião que esquecesse o encontro e continuasse vendo-o como um homem que já morrera: “Não é mentira muita, porque é a mesma coisa em como se eu tivesse morrido mesmo... Não tem mais nenhum Augusto Esteves das Pindaíbas, Tião...” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).
Verdade. Este carismático não é Nhô Augusto das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Este poder carismático representa uma outra face do Brasil incrustado no sertão, representa uma camada do povo sertanejo, repleno de experiências e normas religiosas. Representa as oscilações ideológicas do narrador. Representa o oposto do homem-mau ― Augusto Esteves ―, ou seja, o homem-bom, o carismático.
Se há desprezo no olhar do Tião ― personagem da anterior sequência ―, há, por outro lado, a determinação na atitude de Nhô Augusto. “Sim, era melhor rezar mais, trabalhar mais e escorar firme, para alcançar o reino-do-céu” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).
O carisma só conhece a determinação interna e a contenção interna (segunda afirmativa). O carisma vive neste mundo, embora não seja deste mundo (terceira afirmativa).
Na quarta assertiva, Weber informa que o carisma rejeita lucros pecuniários. Não restam dúvidas: Nhô Augusto já desenvolvera seu lado carismático.
“Trabalhava que nem um afadigado por dinheiro, mas, no feito, não tinha nenhuma ganância e nem se importava com acrescentes; o que vivia era querendo ajudar os outros. Capinava para si e para os vizinhos do seu fogo, no querer de repartir, dando de amor o que possuísse” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).
Quanto à última afirmação, que os carismáticos devem manter-se distantes dos laços deste mundo:
“Quem quisesse, porém, durante esse tempo, ter dó de Nhô Augusto, faria grossa bobagem, porque ele não tinha tentações, nada desejava, cansava o corpo no pesado e dava rezas a sua alma”.
“Também não fumava mais, não bebia, não olhava para o bom parecer das mulheres, não falava junto em discussão” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).
Os dogmas religiosos impuseram, até aqui, atitudes de vida. Encontra-se o narrador preso à exterioridade da narrativa, ao desejo de retratar os fatos retirados da matéria histórica.
Em breve, o contador de estórias despertará e caminhará sob o domínio do narrador moderno (aquele que faz parte do mundo desordenado do final da Era Moderna, já se distanciando historicamente dos valores da medieva ordem do sertão mineiro). Em breve, o Artista ficcional dará uma nova vida aos personagens. Em breve, Nhô Augusto se transformará em personagem ficcional (¹ personagem exemplar) e o narrador passará a centralizar a narrativa.
MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6
Eu li essa novela maravilhosa de Guimarães Rosa, duas vezes! Aliás, falando em carisma, podemos extrapolar este adjetivo, do personagem para o autor. "A hora e a vez de Augusto Matraga" chegou ao cinema; não pude assistir ao filme. Entretanto, a história é seminal na literatura brasileira, ao desenvolver o drama do homem que, uma vez, teve poder e causava medo, e depois, caído e humilhado, encontra o consolo no serviço aos semelhantes. Sei que a análise dessa obra é muito mais do que isso. Achei importante a sua matéria, pois Guimarães Rosa é um autor que nunca deverá ser esquecido pelos brasileiros.
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