Dilson Lages Monteiro Quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
NÃO TROPECE NA LÍNGUA - M. T. PIACENTINI
M. T. Piacentini
Tamanho da letra A +A

Pontuar e acentuar

Refiro-me, no título, ao verbo pontuar , que entendo estar sendo mal e excessivamente usado como simples sinônimo de “enfatizar, destacar, realçar, frisar, salientar, ressaltar”. Fica muito mais elegante e correto usar um desses verbos do que “pontuar”, em frases assim:

- Bonavides [...verbo...] que a concepção política da Idade Média e da Reforma girava em torno do Poder Constituinte de Deus ( omni potestas a Deo ) .

O verbo pontuar significa originalmente “usar/colocar/marcar com sinais de pontuação”. Com sentido figurado, também assume o significado de “assinalar, caracterizar, acompanhar, marcar, pontilhar ou separar” – mas dentro de certa seqüência de tempo ou espaço, como se fossem pontos que aparecem de quando em quando. Neste último caso é comum o uso do particípio/adjetivo. Exemplos:

- Ela pontuou com bela vinheta os dez quadros da apresentação em “power point”.

- Em discurso pontuado por ataques ao P T, o presidente nacional licenciado do PFL afirmou que a incompetência vence o medo.

- A trajetória de Filipe é pontuada por uma série de coincidências.

Levemente diferente – e raro – é o verbo pontualizar , que pode ser usado como “delimitar, demarcar, indicar, distinguir, pôr em destaque”: Sua história é boa porque pontualiza com clareza o nascedouro, raízes, abrangência e ocaso do partido.



Qual é o certo: que se apazigúe ou que se apazígüe? Existe regra fácil para aguar, enxaguar e verbos do gênero?

“Enxáguam” e “mínguam” obedecem a qual regra de acentuação?

Podemos exemplificar o caso com seis verbos terminados em ‘uar': aguar, desaguar, enxaguar, minguar, apaziguar e averiguar. Dividem-se as opiniões quanto ao “correto” na flexão do tempo presente – indicativo e subjuntivo. O dicionário Houaiss alerta para uma “controvérsia preceptiva”, mas há concordância entre ele e o Aurélio ao apresentar a conjugação completa desses verbos (no dicionário eletrônico), exceto por ‘minguar'. Eis um resumo dos três primeiros:

eu águo – ele água – eles águam – que eu ágüe – que eles ágüem
deságuo – deságua – deságuam – deságüe – deságüem
enxáguo – enxágua – enxáguam – enxágüe – enxágüem

O acento agudo nessas formas está a indicar que a pronúncia de UO, UA, ÜE é de ditongo crescente. Todavia, alguns gramáticos aceitam padrões como aguo , agua , aguam ; agúe , agúe , agúem. Então – deve pensar o falante brasileiro – por que seriam diferentes os verbos apaziguar e averiguar? Por que eles teriam um hiato? Isso pode explicar a duplicidade de pronúncia, e conseqüentemente de grafia, das formas verbais seguintes:

Forma erudita, culta
apazi guo – apazigua – apaziguam – apazigúe
averiguo – averigua – averiguam – averigúe

Forma popular
apazíguo – apazígua – apazíguam – apazígüe
averíguo – averíguas – averíguam – averígüe

Convém relembrar que o U nas seqüências UE e UI, depois de G ou Q, leva acento agudo quando forte, tônico, e trema quando fraco, átono.

Já no caso de minguar, o Houaiss se rend e às evidências da fala corrente, tanto culta quanto popular, e traz a grafia que representa a pronúncia de ditongo (item 1). O segundo registro abaixo é do dicionário Aurélio:

1) mínguo – míngua – mínguam – míngüe – míngüem
2) minguo – mingua – minguam – mingúe – mingúem

Por fim, para que não reste nenhuma dúvida ao consulente: o acento gráfico do plural “mínguam/enxáguam” se deve ao fato de ser uma paroxítona terminada em ditongo nasal (neste caso o ‘m' é apenas um sinal nasalizador).

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

12.01.2015 - Superavit, Sub examine e Habeas Corpus

02.01.2015 - Crase com nomes próprios geográficos

15.12.2014 - A/em tempo, balé, carnê, carpete, tíquete

02.12.2014 - Crase com pronomes demonstrativos e com o que

17.11.2014 - Crase com nome de mulheres

01.11.2014 - Crase com nome próprios geográficos

11.10.2014 - Sempre os porquês

26.09.2014 - Sempre os porquês

11.09.2014 - Citação & citações

25.07.2014 - Maiúsculas: logradouros, cargos, documentos

05.07.2014 - E com vírgula - sim ou não (2)

25.06.2014 - E com vírgula - sim ou não (1)

06.06.2014 - Aconteceu nos anos 80

29.05.2014 - Vide, barato, por si sós, sic

07.05.2014 - Hexa e pentacampeão

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


São Bernardo no olhar de Ricardo Ramos Filho


Listar todos
Últimas matérias

27.01.2015 - 28 ANOS DE FALECIMENTO DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

28 ANOS DE FALECIMENTO DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

27.01.2015 - 28 ANOS DE FALECIMENTO DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

28 ANOS DE FALECIMENTO DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

27.01.2015 - As injusticas, seus males e algumas soluções

Só quem já sofreu

27.01.2015 - As injusticas, seus males e algumas soluções

Só quem já sofreu

27.01.2015 - A ARVORE DA MORTE

A ARVORE DA MORTE

27.01.2015 - A CASA DA INFÂNCIA

A CASA DA INFÂNCIA

27.01.2015 - A violência contra mulheres

A maré crescente de violência é a própria autodestruição da sociedade. Vejamos um de seus aspectos.

26.01.2015 - Números do youtube, música Stand by me, em 26.1.2015

71.579.359 acessos, 42.782 comentários, um fenômeno mundial

25.01.2015 - Magia de Praga

A Magia de Praga está incrementada com a Magia Transcedental de uma Espiritualidade na Musica, na Arquitetura e no Segredo dos Magos

25.01.2015 - NEUZA MACHADO - DO PENSAMENTO CONTÍNUO À TRANSCENDÊNCIA FORMAL

Este estudo realçará a atuação do narrador de A hora e vez de Augusto Matraga, mas enfatizará com maior vigor a influência social do Artista como cidadão moderno.

25.01.2015 - Sem Photoshop na alma (nem no corpo da foto!)

Poema de Luiz Filho de Oliveira

24.01.2015 - FALECE ÁUREO MELLO

AUREO MELLO

24.01.2015 - Em desuso

Claramente roubada às telenovelas brasileiras para nunca mais lhes ser devolvida.

24.01.2015 - "No sertão onde eu vivia"

No Sertão Onde Eu Vivia de Zelito Nunes (Recife, editora do autor, 2014) é um bom exemplo da crônica que, ao invés de descrever os mil e um aspectos da rica e multiforme vida urbana descreve os mil e um aspectos da rica e multiforme vida rural.

23.01.2015 - Dois notáveis educadores piauienses

Muito aprendi com o professor Mello e com o professor Domício

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br