Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
NÃO TROPECE NA LÍNGUA
M. T. Piacentini
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O que dirão de nós brasileiros?

 [M. t. Piacentini]

--- Na frase “nós professores temos um papel a cumprir na sociedade”, talvez por influência da oralidade, tende-se a escrever o aposto sem vírgula, e mesmo essas vírgulas [nós, professores, temos] tendem a deixar a frase truncada ou até ambígua: professores – aposto ou vocativo? É aceitável a ausência das vírgulas? João Reguffe, Rio Grande/RS


Não é questão de erro a colocação ou não de vírgulas nesse caso, mas de diferença de sentido: com vírgulas, é aposto explicativo; semvírgulas, aposto especificativo. É basicamente semelhante ao emprego da oração adjetiva, que apresento em mais detalhes no livro Só Vírgulas – método fácil em vinte lições (2009).


O aposto especificativo qualifica o termo anterior limitando seu sentido. Muitas vezes ele se refere a uma espécie entre várias espécies, ou seja, a menção se restringe a apenas um elemento ou um grupo entre outros da mesma categoria ou espécie. Assim, se se pensa no grupo “brasileiros” em relação a outras nacionalidades do planeta, está se usando um aposto especificativo. Em “nós brasileiros somos festeiros”, faz-se referência a brasileiros apenas, e não a argentinos, franceses, italianos, russos, chineses etc.


Outro exemplo é uma frase dita por Hebe Camargo à revista Istoé e que foi corretamente grafada: “É hora de resolver os problemas, de amenizar essa fome que está assolando o País e é horrível para nós brasileiros”. Sim, é horrível para os brasileiros, e não para o resto do mundo.


E na revista Época, uma carta de leitor registrava: “Até que enfim um texto sensato, pois para nós, brasileiros patriotas, o cancelamento do visto foi justo”. Dessa forma, com as duas vírgulas, a pessoa está dizendo que todos os brasileiros são patriotas. Até pode haver brasileiro despatriota, mas não seria ele nem eu a afirmar isso!


Uma consulente de Porto Alegre, Bianca Casagrande, nos manda duas frases em que ela crê não haver aposto separado por vírgulas:


1. Entendo que é a mais alta traição a nós torcedores do futebol brasileiro.
Certo. Nem todas as pessoas do mundo torcem pelo futebol do Brasil. De igual modo, escreve-se, por exemplo, “nós torcedores do Flamengo”, pois há outros torcedores: do Santos, do Grêmio, do Corinthians...
 

2. Mas nós, principalmente nós parlamentares éticos nas nossas posições, conscientes nas nossas declarações, não podíamos externar o nosso pensamento.
Certo. O próprio falante, ao usar o termo “principalmente”, já declara que nem todos os parlamentares são éticos.


Em suma, é preciso considerar sempre a ideia de restrição em oposição a totalidade. Essa restrição, para exemplificar mais um pouco, fica bem clara em frases como:


Nós professores temos um papel a cumprir.

Se nós latino-americanos não temos a tecnologia que os soviéticos tinham há 40 anos, é sinal de que estamos muito mal.

Nós da classe média temos vivido no sufoco. 

Campanha feita por nós portadores de Aids...


Já na frase Nós, seres humanos, somos um mistério, o aposto seres humanos é explicativo porque todos somos seres humanos.


A propósito, Maria Laís Pestana nos traz uma dúvida gerada pelo uso da preposição com: “Tal como aconteceu com nós, seres humanos, ou tal como acontece conosco, seres humanos?” A primeira forma (com nós, seres humanos) é a correta, porque se usa “com nós”, e não conosco, quando o pronome nós vem seguido de um aposto, seja ele explicativo ou especificativo: com nós três, com nós todos, com nós mesmos, com nós próprios, com nós da família Tal.


No caso do título deste artigo – voltando à primeira consulta – a vírgula até poderia criar a mencionada ambiguidade. Em “O que pensarão de nós, brasileiros?” seria possível o último termo se passar por um vocativo: “O que pensarão de nós, (ó) brasileiros?”

 

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