Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 03 de maio de 2016
NÃO TROPECE NA LÍNGUA - M. T. PIACENTINI
M. T. Piacentini
Tamanho da letra A +A

Norma culta e língua padrão II

 [M. T. Piacentini]

Para os linguistas, a língua-padrão se estriba nas normas e convenções agregadas num corpo chamado de gramática tradicional e que tem a veleidade de servir de modelo de correção para toda e qualquer forma de expressão linguística.


Querer que todos falem e escrevam da mesma forma e de acordo com padrões gramaticais rígidos é esquecer-se que não pode haver homogeneidade quando o mundo real apresenta uma heterogeneidade de comportamentos linguísticos, todos igualmente corretos (não se pode associar “correto” somente a culto).


Em suma: há uma realidade heterogênea que, por abrigar diferenças de uso que refletem a dinâmica social, exclui a possibilidade de imposição ou adoção como única de uma língua-modelo baseada na gramática tradicional, a qual, por sua vez, está ancorada nos grandes escritores da língua, sobretudo os clássicos, sendo pois conservadora. E justamente por se valer de escritores é que as prescrições gramaticais se impõem mais na escrita do que na fala.


A cultura escrita, associada ao poder social, desencadeou também, ao longo da história, um processo fortemente unificador (que vai alcançar basicamente as atividades verbais escritas), que visou e visa uma relativa estabilização linguística, buscando neutralizar a variação e controlar a mudança. Ao resultado desse processo, a esta norma estabilizada, costumamos dar o nome de norma-padrão ou língua-padrão (Faraco, Carlos Alberto, “Norma-padrão brasileira”. In Bagno, M. (org.). Linguística da norma. SP: Loyola, 2002, p.40).


Aryon Rodrigues (in Bagno 2002, p.13) entra na discussão: “Frequentemente o padrão ideal é uma regra de comportamento para a qual tendem os membros da sociedade, mas que nem todos cumprem, ou não cumprem integralmente”. Mais adiante, ao se referir à escola, ele professa que nem mesmo os professores de Língua Portuguesa escapam a esse destino: “Comumente, entretanto, o mesmo professor que ensina essa gramática não consegue observá-la em sua própria fala nem mesmo na comunicação dentro de seu grupo profissional” (p. 18).


Vamos ilustrar os argumentos acima expostos. Não há brasileiro – nem mesmo professores de português – que não fale assim:
               – Me conta como foi o fim de semana...
               – Te enganaram, com certeza!
               – Nos diz uma coisa: você largou o emprego mesmo?


Ou mesmo assim:
               – Tive que levar os gatos, pois encontrei eles machucados.
               – Conheço ela há muito tempo, é ótima menina.
               – Acho que já tinha lhe visto antes.


Então, se os falantes cultos, aquelas pessoas que têm acesso às regras padronizadas, incutidas no processo de escolarização, se exprimem desse modo, essa é a norma culta.  Já as formas propugnadas pela gramática tradicional e que provavelmente só se encontrariam na escrita [conta-me como foi / enganaram-te / diz-nos uma coisa / pois os encontrei / conheço-a há tempos / já o/a tinha visto] configuram a norma-padrão ou língua-padrão.


Se para os cientistas da língua, portanto, existe uma polarização entre a norma-padrão (também denominada “norma canônica” por alguns linguistas) e o conjunto das variedades existentes no Brasil, aí incluída a norma culta, no senso comum não se faz distinção entre padrão e culta.  Para os leigos, a população em geral, toda forma elevada de linguagem, que se aproxime dos padrões de prestígio social, configura a norma culta.


Fica evidente em todas as consultas recebidas no sítio Língua Brasil que as pessoas transitam pela norma culta e norma-padrão sem fazer distinção entre as duas, pois é realmente tênue a linha demarcatória entre elas.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

30.04.2016 - Concordância: um substantivo e dois adjetivos

23.04.2016 - Concordância nominal: é proibido, é preciso.

05.04.2016 - Concordância nominal: é proibido... é preciso...

17.03.2016 - Profa., antes de mais nada, na verdade é correto

12.02.2016 - Lítero-musical, infanto-juvenil e espaço-temporal

01.01.2016 - Mais-que-perfeito e o pronome relativo quem

14.12.2015 - O ano recém-findo

02.12.2015 - Por um lado e por outro

10.11.2015 - Onde usar onde (1)

27.09.2015 - Um dos que sofre ou sofrem?

02.09.2015 - Onde usar onde (1)

18.07.2015 - Uso da vírgula em caso de verbo subentendido

09.06.2015 - Isso a gente já sabe - concordância

01.05.2015 - Socorro! Pontuação em excesso

01.05.2015 - Socorro! Pontuação em excesso

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

01.05.2016 - À BAHIA: POEMA DE GREGÓRIO DE MATOS

poesia

01.05.2016 - O lírico e telúrico em Elmar Carvalho

No caso de Elmar Carvalho, temos uma poesia lírica, elaborada com rara sensibilidade, sem esquecer o drama social.

30.04.2016 - Viagem de Graciliano

Um livro póstumo de Graciliano Ramos, contando sua visita à Checoslováquia e à União Soviética em 1952.

30.04.2016 - Concordância: um substantivo e dois adjetivos

-- Está certa a concordância do substantivo com os adjetivos na frase:...âmbito de competência dos recursos especial e extraordinário...? Desde já agradeço. N.R. Brasília/DF

30.04.2016 - Amadeo e não só

Um dos maiores pintores portugueses

30.04.2016 - Tudo o que você falar, escrever, agir, publicar, volta para sua vida, para sua casa, para seu trabalho

STK - Supremo Tribunal Kármico, não aceita recurso, nem barganha, muito menos negociação. É Matemático.

29.04.2016 - AS AVENTURAS PROSOPOPAICAS DE DIANNA VALENTE - 6

Ao monte distante

29.04.2016 - O TEMPLO DO TEMPO

O TEMPLO DO TEMPO

28.04.2016 - SOMOS TODOS ANÔNIMOS

No decorrer do tempo

28.04.2016 - HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo III

Desse modo, os jovens se iniciavam no sexo com as raparigas, como eram designadas as prostitutas. Algumas tinham foro de professoras, e várias gerações de “alunos” passaram pelo seu tirocínio pedagógico.

27.04.2016 - Relendo Bráulio Tavares

Resenha do ensaio

26.04.2016 - O RIO DE JANEIRO NÃO VAI BEM

A cidade maravilhosa, se não tivere

24.04.2016 - A verdade sobre a Guerra do Vietnam

A sociedade tem memória curta, por isso tantos equívocos...

24.04.2016 - Dois novos comentários sobre Histórias de Évora

Com o avanço dos estudos teórico-críticos, cada vez mais se compreende o quanto o leitor é relevante na interpretação de uma obra literária.

23.04.2016 - A ida e a volta em "O burrinho pedrês"

Comemorar, às vezes, implica reler.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br