Dilson Lages Monteiro Sábado, 20 de dezembro de 2014
NÃO TROPECE NA LÍNGUA - M. T. PIACENTINI
M. T. Piacentini
Tamanho da letra A +A

Norma culta e língua padrão II

 [M. T. Piacentini]

Para os linguistas, a língua-padrão se estriba nas normas e convenções agregadas num corpo chamado de gramática tradicional e que tem a veleidade de servir de modelo de correção para toda e qualquer forma de expressão linguística.


Querer que todos falem e escrevam da mesma forma e de acordo com padrões gramaticais rígidos é esquecer-se que não pode haver homogeneidade quando o mundo real apresenta uma heterogeneidade de comportamentos linguísticos, todos igualmente corretos (não se pode associar “correto” somente a culto).


Em suma: há uma realidade heterogênea que, por abrigar diferenças de uso que refletem a dinâmica social, exclui a possibilidade de imposição ou adoção como única de uma língua-modelo baseada na gramática tradicional, a qual, por sua vez, está ancorada nos grandes escritores da língua, sobretudo os clássicos, sendo pois conservadora. E justamente por se valer de escritores é que as prescrições gramaticais se impõem mais na escrita do que na fala.


A cultura escrita, associada ao poder social, desencadeou também, ao longo da história, um processo fortemente unificador (que vai alcançar basicamente as atividades verbais escritas), que visou e visa uma relativa estabilização linguística, buscando neutralizar a variação e controlar a mudança. Ao resultado desse processo, a esta norma estabilizada, costumamos dar o nome de norma-padrão ou língua-padrão (Faraco, Carlos Alberto, “Norma-padrão brasileira”. In Bagno, M. (org.). Linguística da norma. SP: Loyola, 2002, p.40).


Aryon Rodrigues (in Bagno 2002, p.13) entra na discussão: “Frequentemente o padrão ideal é uma regra de comportamento para a qual tendem os membros da sociedade, mas que nem todos cumprem, ou não cumprem integralmente”. Mais adiante, ao se referir à escola, ele professa que nem mesmo os professores de Língua Portuguesa escapam a esse destino: “Comumente, entretanto, o mesmo professor que ensina essa gramática não consegue observá-la em sua própria fala nem mesmo na comunicação dentro de seu grupo profissional” (p. 18).


Vamos ilustrar os argumentos acima expostos. Não há brasileiro – nem mesmo professores de português – que não fale assim:
               – Me conta como foi o fim de semana...
               – Te enganaram, com certeza!
               – Nos diz uma coisa: você largou o emprego mesmo?


Ou mesmo assim:
               – Tive que levar os gatos, pois encontrei eles machucados.
               – Conheço ela há muito tempo, é ótima menina.
               – Acho que já tinha lhe visto antes.


Então, se os falantes cultos, aquelas pessoas que têm acesso às regras padronizadas, incutidas no processo de escolarização, se exprimem desse modo, essa é a norma culta.  Já as formas propugnadas pela gramática tradicional e que provavelmente só se encontrariam na escrita [conta-me como foi / enganaram-te / diz-nos uma coisa / pois os encontrei / conheço-a há tempos / já o/a tinha visto] configuram a norma-padrão ou língua-padrão.


Se para os cientistas da língua, portanto, existe uma polarização entre a norma-padrão (também denominada “norma canônica” por alguns linguistas) e o conjunto das variedades existentes no Brasil, aí incluída a norma culta, no senso comum não se faz distinção entre padrão e culta.  Para os leigos, a população em geral, toda forma elevada de linguagem, que se aproxime dos padrões de prestígio social, configura a norma culta.


Fica evidente em todas as consultas recebidas no sítio Língua Brasil que as pessoas transitam pela norma culta e norma-padrão sem fazer distinção entre as duas, pois é realmente tênue a linha demarcatória entre elas.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

15.12.2014 - A/em tempo, balé, carnê, carpete, tíquete

02.12.2014 - Crase com pronomes demonstrativos e com o que

17.11.2014 - Crase com nome de mulheres

01.11.2014 - Crase com nome próprios geográficos

11.10.2014 - Sempre os porquês

26.09.2014 - Sempre os porquês

11.09.2014 - Citação & citações

25.07.2014 - Maiúsculas: logradouros, cargos, documentos

05.07.2014 - E com vírgula - sim ou não (2)

25.06.2014 - E com vírgula - sim ou não (1)

06.06.2014 - Aconteceu nos anos 80

29.05.2014 - Vide, barato, por si sós, sic

07.05.2014 - Hexa e pentacampeão

21.04.2014 - Vírgula e adjuntos no início de frase

08.04.2014 - Gerundismo e gerúndio

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


São Bernardo no olhar de Ricardo Ramos Filho


Listar todos
Últimas matérias

19.12.2014 - Brasília: a farra dos salários e o Natal dos neo-marajás

Quem me disser

18.12.2014 - BAQUAQUA

Que aqueles ‘indivíduos humanitários’ que são a favor da escravidão se coloquem no lugar do escravo no porão barulhento de um navio negreiro

18.12.2014 - NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

18.12.2014 - CONFISSÕES DE UM JUIZ E OUTRAS (IN)CONFIDÊNCIAS

"Pois não é que, em poucos minutos, devorei mais de 20 páginas?"

18.12.2014 - A CATEDRAL

A CATEDRAL

16.12.2014 - Storytelling sugere Storyliving

A vida de cada um é uma estória sendo encenada

16.12.2014 - NOVA REIMPRESSÃO

NOVA REIMPRESSÃO

16.12.2014 - Rita Pavone: homenagem

Ela ainda está em atividade, com a mesma grandiosidade artística e humanista.

16.12.2014 - O DESERTO DA SOLIDÃO

O DESERTO DA SOLIDÃO

16.12.2014 - Tradução do poema

Beside the ungathered

15.12.2014 - Há um Davidson entre Rorty e Habermas.

Quatro perguntas, quatro afirmações e quatro histórias, mas um único Habermas.

15.12.2014 - Casos raros

A nossa literatura foi, ao longo de décadas, contida e envergonhada em matéria de sexo e corpo.

15.12.2014 - Um prefeito nunca erra

nem mesmo quando está errado...

15.12.2014 - O pai caçula

Quem escreveu a Compadecida, no entanto, foi um rapaz de 28 anos

15.12.2014 - A/em tempo, balé, carnê, carpete, tíquete

A palavra brasileira para o francês ballet é escrita balé, com acento agudo.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br