Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 26 de junho de 2017
NÃO TROPECE NA LÍNGUA - M. T. PIACENTINI
M. T. Piacentini
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Aspas simples por ironia vale?

[M. T. Piacentini]

--- Tenho notado em vários textos o uso da ' (aspa simples), mesmo fora das "(aspas duplas). Como explicar, então? É caso de facultatividade do uso? A. F. Araújo, Goiânia/GO

O uso de aspas, travessão, parênteses e outras marcações da escrita foi convencionado. Na língua portuguesa existe uma convenção apenas para o emprego das aspas duplas (chamadas ASPAS simplesmente). Mas essa convenção pode estar mudando. O fato de o consulente ter notado o seu uso “em vários textos” é uma evidência disso.  Vejamos então, em primeiro lugar, em que circunstâncias se usam as aspas (duplas):

1) Para assinalar transcrições textuais.  

No caso das transcrições, as aspas valem também para destacar, no texto que você está escrevendo, uma palavra ou expressão que foi usada pelo autor citado ou que costuma ser associada a ele:   

Estaria aqui se materializando a “exclusão includente e inclusão excludente” nas relações entre educação e trabalho a que faz referência Kuenzer?

Não concordamos com análises que apontam para “ondas” (Toffler 1985), fases lineares, sucessivas de passagens por diferentes “sociedades” (Drucker 1993).

Quando no trecho citado entre aspas existem palavras aspeadas, você deve destacá-las com aspas simples. Em resumo, usam-se aspas simples dentro de aspas duplas:

Osvaldo Ferreira de Melo aponta para “a necessidade de os indivíduos contarem com a certeza de que seus direitos ‘garantidos’ pela ordem jurídica sejam efetivos”. 

2) Para marcar apelidos, nomes e títulos (de livros, revistas, obras de arte, escolas etc.).

 

Atualmente há recursos melhores para esses nomes: o uso de grifo, caixa-alta, itálico, negrito ou outros é preferível, pois individualiza mais e ocupa menos espaço. 

 

3) Para ressaltar gírias, neologismos, estrangeirismos ou quaisquer palavras estranhas ao contexto vernáculo. 

 

As palavras estrangeiras devem ser obrigatoriamente destacadas, mas não necessariamente por aspas; hoje é comum o uso do itálico, sendo aceito também o sublinhado. 

 

4) Para realçar palavras e expressões a que se quer dar um sentido particular ou figurado.

 

É neste último caso que tenho visto as aspas simples, especificamente quando o redator quer pessoalizar o tom, o sentido especial dado por ele a certos termos. Note-se o tom irônico das expressões colocadas entre aspas simples no texto abaixo, de um professor doutor da UFSC, que bem exemplifica a utilização das aspas de modo geral:

 

A escola ‘abre-se’ para os filhos dos trabalhadores

As iniciativas da burguesia relativamente à igualdade de acesso à escola apontam para a instauração da prática de uma ‘igualdade que diferencia’. A criação de escolas específicas ou a adaptação de construções existentes para abrigar e ‘educar’ os filhos dos trabalhadores veio acompanhada de elementos diferenciadores em termos de métodos, espaços, agentes responsáveis pela educação e, principalmente, objetivos. Como diria Cunha, ao realizar uma análise marxista desse ‘acesso’: “Todos têm liberdade para se educar, mas não têm igualmente as mesmas condições, porque a realidade sócio-econômica das diversas classes dentro da sociedade burguesa não lhes permite uma mesma instrução”. 

[...]

Seria essa ‘igualdade’ uma conquista frente à necessidade de produtores mais qualificados e consumidores mais sofisticados? 

 

Enfim, as pessoas estão começando a usar aspas simples também por comodidade, ao digitar textos informais, para não ter de usar a tecla shift no computador. E talvez porque, em comparação com as duplas, as aspas simples resultem em economia. 

 

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