Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 22 de maio de 2012
MEIAS VERDADES
Cláudio Rogério Gonçalves
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Ô tio, pra que serve...?

Ô tio, pra que serve...?

Saber o porquê das coisas sempre moveu o homem aos grandes descobrimentos que facilitaram sua vida e, infelizmente, também causaram danos irreparáveis. A sensação da descoberta, do reconhecimento, do respeito e, em alguns casos, da fama é a mola propulsora desse processo evolutivo. E assim, o homem tem feito seu caminho, ora confirmando seu status quo de ser superior, racional, social, ora dando mostras de intolerância, insanidade e desrespeito a si e tudo a sua volta. Sem dúvida, o homem é um ser paradoxal, contraditório e, por isso mesmo, extraordinário, complexo, fascinante. Meu sobrinho, que adentra a fase dos porquês, sempre me surpreende com algumas perguntas que poderiam ilustrar de forma simples essa condição paradoxal do homem.

- Ô tio, por que a gente precisa ir à escola?

Meu discurso já estava pronto. Ora, a gente precisa ir à escola para se educar, conhecer as regras da sociedade, saber o que pode e o que não pode fazer, enfim, estar preparado para um bom emprego. Emanuel, com toda a sua curiosidade desconcertante, fez-me outras perguntas.

- Mas, se eu estudar vou ter um bom emprego e ganhar muito dinheiro e poder ter qualquer coisa?

- Bom, não é bem assim Emanuel, nem todo mundo que estuda consegue um bom emprego, nem todo mundo que tem um emprego consegue as coisas que deseja. Ele, pensativo, finalizou.

- Ô tio, pra ser político precisa estudar?

- Não!

- Hum... então eu quero ser político quando crescer!

 Achei que não conseguiria explicar que alguns poucos políticos são honestos e até têm boas intenções, mas o sistema, a ganância, o poder...

Alguns dias se passaram e lá estava meu sobrinho Emanuel novamente na minha casa, e pelo jeito, me elegeu como o responsável por responder a todos os seus porquês.

- Ô tio, por que o senhor fica o dia inteiro nesse computador?

- Ah Emanuel, meu trabalho está todo aqui dentro desse computador. Por esse aparelhinho, eu estou ligado com o resto do mundo. Aí, num momento de empolgação, listei todas as vantagens do mundo globalizado, da eficiência e da rapidez das comunicações que nos chegam. Disse também que as pessoas nem precisam mais sair de casa para fazer compras, pagar contas nos bancos, alugar filmes na locadora. Tudo agora é pelo computador. Finalizei meu discurso pró-mundo cibernético soltando a pérola: “Agora, Emanuel, posso dizer que sou livre”. Emanuel ouvia quieto e essa quietude me assustava ainda mais.

- Ô tio...,

Ai, ai,ai,ai, ai, ai, lá vem mais perguntas, pensei. Diga Emanuel!

- Ô tio, se o senhor tá falando que é livre, por que o senhor só fica aqui nessa casa? Sempre que faço aniversário o senhor não pode ir porque está trabalhando, a mãe falou que a tia foi embora porque o senhor só pensava no trabalho, e nem namorada o senhor tem. Isso que é liberdade, tio???

- Ah, Emanuel me deixa trabalhar um pouco, vai. Sua mãe tá chamando lá na sala, vai lá vai...

- Ô tio, só mais uma perguntinha.

- Tá bom... mas, vê se não complica heim.  Você está ficando muito esperto pra sua idade. Diz aí o que quer saber.

- Ô tio, por que tiraram o rio daqui da cidade?

- Hum... sei! Sabe Emanuel, como o mundo está cada vez mais moderno, as pessoas estão consumindo mais, quase tudo que se vai fazer necessita de energia elétrica, é preciso descobrir outras fontes de energia. Aí o homem, que é um bicho muito inteligente, inventou a usina hidrelétrica, ou seja, um lugar que gera energia através de turbinas que são movidas pelas águas do rio. Assim, as pessoas têm a energia que precisam para viver confortavelmente, entendeu?

- Ah, quer dizer então que a usina é uma coisa boa? Legal! Mas ô tio, se é bom assim, por que eles estragam a cidade então?

- Não Emanuel, para que a usina fique pronta é preciso fazer algumas modificações no curso do rio, mas geralmente a empresa responsável traz benefícios para a cidade. Constrói escolas, hospitais, estradas, pontes, dá cursos para as pessoas que sofreram com as mudanças. Você está entendendo Emanuel?

- Hum... tá bom, mas ô tio, e se as pessoas da cidade não quiserem, se elas quiserem o rio de volta, a empresa que fez aquilo tudo tem de desfazer?

- Ah, Emanuel, aí não tem jeito mais né... as construções ficam para cidade, para o povo usufruir. É uma forma de compensar as perdas que elas tiveram. Você está compreendendo? Depois vai perguntar a mesma coisa pra sua mãe e ela não tem tanta paciência, né verdade?

- Tô sim tio, mas me responde só mais uma coisinha, depois eu vou embora.

- E tem outro jeito Emanuel?! Vai, desembucha logo.

- Ah tá, ô tio se a empresa tira o rio do lugar pra fazer energia e coloca um monte de coisas no lugar só pra compensar as perdas, o senhor pode me explicar pra que serve aquele lugar lá no cais, aonde a gente vai de vez em quando?

- Que lugar menino?

- Aquele grandão de ferro pintado de vermelho?

- Aquilo é o píer! É um observatório... é um ...

Antes que eu concluísse aquela que parecia ser a mais inocente de todas as perguntas, fui interrompido abruptamente.

- Ô tio, quer dizer então que eles construíram um píer pra gente ver o rio, mas antes eles foram lá e tiraram o rio do lugar? Uai... não entendi isso não tio! Me explica direito!!!

Fui salvo por minha irmã que invadiu o meu escritório e com um tom ameaçador, fez com que Emanuel se retirasse para a sala. Felizmente, pude voltar ao meu trabalho, ao meu mundo, onde muitas vezes fingimos não ver algumas coisas, aceitamos outras tantas em nome de valores questionáveis, e, ao final da noite, evitamos o espelho. Quem sabe, quando Emanuel estiver pronto para viver nesse mundinho, as respostas que encontrar sejam mais simples e não o transformem em alguém triste, como aqueles que vão ao píer à tarde e ainda não se acostumaram com a ausência do rio.

 

                                                      cláudio rogério gonçalves

 

  

 

 

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