MEIAS VERDADES
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Histórias da Barra
Julieta Belline é italiana, jornalista, fotógrafa, solteira, não tem filho. Escolheu a realização profissional, viajou o mundo e conheceu pessoas das mais variadas. Numa dessas viagens, veio parar no Brasil e se encantou. Mudou-se para cá e aqui vive desde a década de 90. Quando alguém pergunta sua nacionalidade, diz: “Io sono mezza italiana e mezza brasiliana”. Enfim, Julieta é uma mulher em paz consigo mesma.
Ronicley Batista da Silva veio ao mundo sem conhecer seu pai. Sua mãe lutou para lhe dar uma educação decente, mas o garoto gostava mais de jogar bola, pescar e andar de canoa no Rio doce. Ronicley logo cedo se apaixonou por Suzana, que trabalhava no caixa de um grande supermercado da cidade. Suzana gostava de Ronicley, mas não o suficiente para casar e ir morar lá na Barra do Manhuaçu. Foi embora para Vitória e nunca mais voltou. Ronicley teve um monte de namoradas, mas nunca se acertou com nenhuma. Ronicley, embora tenha poucos anos de vida, é um homem com bastante experiência, já viveu de tudo um pouco.
A Barra do Manhuaçu é o bairro mais antigo da cidade de Aimorés. Dizem os historiadores de plantão que foi lá que tudo começou. Foi lá que a cidade de Aimorés nasceu, portanto, é um lugar que tem muitas histórias e pessoas interessantes. Quando chega alguém novo na cidade, vai lá na Barra conhecer o restaurante da Tia Laura. Se tiver campeonato então e o jogo for contra o time da Barra, pode saber que o domingo vai ser animado. Mas a Barra do Manhuaçu apresenta também histórias menos alegres, nem por isso deixam de ser interessantes. Por exemplo, se chovesse na cidade, a Barra ficava submersa. O tímido Rio Manhuaçu encontrava o Rio Doce e a soma de suas forças fazia um estrago só, obrigando muitas famílias a deixarem suas casas e se alojarem na Escola Américo Martins ou nas casas dos amigos. Assim, a Barra sobreviveu até um passado recente: com dificuldades, com algumas tristezas e com a solidariedade dos amigos verdadeiros. Hoje, sem o rio para incomodar, sem o rio para admirar, a Barra luta para dar outro rumo a sua história. Já tem associação de moradores, posto de saúde, calçamento nas ruas e o time vai disputar novamente o campeonato da cidade.
Julieta Belline veio à cidade de Aimorés conhecer o Instituto Terra, visitou cada canto da cidade. Encantou-se com a terra de Sebastião Salgado, resolveu ficar mais dois ou três dias. E numa dessas saídas para conhecer e fotografar, ficou sabendo sobre a enchente na Barra. Foi até lá e se deparou com uma cena que a fez lembrar da histórica Veneza, sua cidade natal. Um homem de pouca idade conduzia uma velha canoa pelas ruas alagadas do bairro. De forma instintiva, levava a pequena canoa até onde outras pessoas não podiam chegar e resgatava quem precisasse de ajuda. Mulher com criança e cachorro mais trouxa de roupa. Televisão, gato, cachorro, menino e bola. Velha, velho e netinha. Quem precisasse, era só pedir. O amigo das horas difíceis chegava e ajudava. Julieta focou sua lente nesse moço e resolveu registrar o ato solidário. Num momento em que ele, o canoeiro solidário estava próximo, ela lhe pediu para deixá-la ir junto para fotografar. A timidez inicial deu lugar ao gosto da aventura, Ronicley estendeu a mão para Julieta e a trouxe para dentro de sua canoa, de sua vida. Cada clic fazia o coração de Julieta acelerar. Ronicley sentia-se muito importante, era fotografado a cada movimento, enrijecia os músculos e pensava na inveja que a Suzana ia sentir se soubesse que agora ele era importante. Fotos, fotos, fotos, poucas palavras entrecortadas e alguns olhares insinuantes... começava ali uma outra história interessante na Barra do Manhuaçu. Julieta ficou mais tempo que o previsto, aliás, nada do que acontecera estava previsto. E ela, que também já vivera muitas coisas nessa vida, nem quis saber da lógica torta dessa vida. Nos braços de Ronicley, encontrou o amor. Logo ela, que rodou o mundo veio parar ali na Barra do Manhuaçu e se apaixonar pelo homem que conduzia uma velha canoa. Tudo bem, em sua juventude sonhara com uma cena de amor à moda veneziana. Um lindo homem vestido de branco, bom vinho, os canais da romântica Veneza, um gondoleiro a cantar em italiano. O destino quis que ela se apaixonasse por um canoeiro, bermuda surrada, sem camisa, que mal havia saído de Aimorés. Hoje, 15 anos depois, descubro que Julieta e Ronicley ainda estão juntos. Moram em Vitória e têm um filho: Ronicley Belline da Silva Jr. Ronicley agora tem um pesqueiro e toda tarde traz um belo peixe para Julieta preparar. Aprendeu a tomar vinho, mas prefere mesmo a cachaçinha que vem lá da Rosca Seca. Ronicley Jr. estuda numa boa escola e já fala italiano, vive tentando ensinar o pai a falar algumas palavras no idioma de sua mãe. Julieta viaja menos, fica em casa e não quer outra vida. Já fez planos para visitar sua mãe e levar os dois homens de sua vida para conhecer Veneza. Quando estiverem navegando pelos canais de Veneza, lembrará mais uma vez de seu sonho de juventude, talvez compre uma camisa branca e leve um bom vinho e encoste no peito de Ronicley enquanto o gondoleiro canta algo familiar aos seus ouvidos... ou talvez, talvez, simplesmente feche os olhos e se lembre do momento em que tudo começou... na Barra do Manhuaçu.
cláudio rogério gonçalves
Òtima crônica, parabéns!
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