MEIAS VERDADES
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E agora José?
E agora José? Foi assim que José ouviu de sua companheira a desconcertante pergunta. E agora o que fazer? E, cabisbaixo, José se pôs a pensar como sairia de mais essa armadilha que o destino lhe apresentava. E José, que jamais se entrega, rezou a Deus e a todos os santos com os quais tinha uma relação amistosa. Pediu amparo, uma idéia, uma boa idéia que lhe fizesse levantar novamente. E assim, entre as palavras cortantes de sua companheira e as orações desordenadas que endereçava aos seres celestiais, sentiu o coração bater mais forte. Então tivera uma idéia, arriscada e por demais perigosa, mas já era alguma coisa. José saiu à procura dos bons amigos e estes não lhe faltaram. José agora tinha um sonho, dentre tantos que tivera desde a juventude lá no interior de Minas Gerais. Esse era o mais difícil e talvez o mais improvável. Mas José é cabeça dura, ouve somente o coração. E esse pobre órgão que tanto “apanha” no peito de José o mandava ir para os Estados Unidos. Sim, José agora só vê uma saída: chegar à América, ganhar muito dinheiro e voltar para casa menos pobre. Não adiantou a mulher esbravejar e erguer as mãos para os céus pedindo amparo divino, os filhos o chamarem de louco, os amigos o aconselharem a tentar outra saída. Nada disso abalava o corajoso José, era a América que ele queria, era lá que venceria. E um mês depois dessa decisão um tanto quanto tresloucada, José partiu para o México. Pelo México não... pelo México não, disse seu amigo João. Mas, brasileiro que não tem dinheiro e quer chegar aos EUA vai pelo México. E lá foi ele, agora entregue à sorte, aos coiotes, à polícia da fronteira. José dormiu no mato, passou fome durante uma semana, atravessou um rio, viajou numa caminhonete com fundo falso e ainda teve que atravessar um canal de esgoto até pisar em solo americano. José chegou à América literalmente pela e na merda. E, com os contatos que conseguira através de seus amigos aqui no Brasil, ele pode arrumar um emprego de lavador de pratos. José agora lavava pratos durante o dia, fazia limpeza em um supermercado à noite e sonhava por alguns instantes durante a madrugada. José sentia muita falta da mulher e dos três filhos que deixara no Brasil. E havia dia em que tudo ficava cinza sem que cinza o céu estivesse. José acordava com a alma cinza, nada tinha cor para ele naquele dia ou semana. José estava doente da alma. O amigo mexicano disse que aquilo era saudade de casa, mas que ele iria acostumar. Juanito há 10 anos não vê a família... “usted hay de acostunbrarse José” dizia o novo amigo. Não, José não aguentaria tanto tempo assim sem ver/sentir sua dona e os filhos. Mas ainda faltava muito dinheiro, as dívidas aumentaram quando José partiu. Agora José era refém em seu próprio sonho, mas ele rezava mais e mais, trabalhava em três horários, lavava pratos, limpava um supermercado e, por último, lavava defunto também. José via a morte todos os dias e de todas as formas, mas a que mais lhe doía era a que há muito habitava em sua alma. Há muito tempo José não sorria, só pensava em arrumar dinheiro suficiente para pagar as dívidas e voltar para casa. Três anos se passaram desde que José saiu do Brasil e hoje ficou sabendo que sua filha Marlúcia está grávida do namorado. O rapaz é bonzinho, trabalha de frentista no posto da cidade, ganha um salário e meio, disse sua dona entre lágrimas de saudade e de tristeza. José agora bebe pra esquecer as amarguras dessa vida e junto com Juanito, aquele amigo mexicano, xinga todos os santos que não o ouviram. E xinga em castelhano. Juanito acha graça e ensina outras palavras impublicáveis ao amargurado José. A vida de Juanito também é uma tragédia: sua mulher fugiu assim que eles chegaram nos Estados Unidos, o filho Pablo virou traficante e agora cumpre pena em uma prisão federal, seus pais morreram sem que ele desse o último adeus. Juanito já não tem mais saudade de casa, porque não tem pátria nem sabe mais o que é a tal “saudade”. Juanito não tem mais a Juanito. José se agarra às fotos da família, aprendeu com o porteiro do supermercado em que faz limpeza que no computador fica fácil falar e ver sua dona e seus filhos. José mandou dinheiro para a filha comprar um desses computadores, porque ele precisa ver seu netinho, precisa sentir novamente a vontade de sorrir. José mal sabe escrever, mas o porteiro Inácio, boliviano, há 14 anos na América, conhece a caixa do supermercado e ela é brasileira. Matilde, assim como José, veio para ganhar a vida na América e nunca mais voltou. Matilde também acostumou-se com a ausência de afeto da família e dos amigos antigos, agora ela está americanizada, pouco sorri, conversa somente com colegas do trabalho e vive sozinha num subúrbio. Matilde ajuda José a se comunicar com a família e, sem que se perceba, a alegria de José também vira a alegria dela. José fica mais leve e agora não xinga todos os santos. Ele reza e pede desculpa por todas as palavras feias que endereçava aos seres celestiais. José reza e guarda cada centavo, cada dólar. Ainda falta muito, mas ele sabe que falta menos do que antes. A vida lá é dura, inverno ou verão, outono ou primavera, chuva ou sol, José trabalha sem descansar. O mês de janeiro começou com uma boa notícia para José. Seu amigo Juanito conseguira um bom emprego em uma grande empresa de limpeza e arrumara para ele também uma vaga. Agora, as coisas começaram a dar certo para José e ele faz as contas de quanto falta ainda para voltar para casa. Pelos seus cálculos, lá pelo mês de setembro José já pode terminar sua peregrinação, sua Odisséia particular em terras americanas. Cada dia parece demorar quarenta e oito horas... os minutos se arrastam, os ponteiros do relógio preguiçosamente se movem. Só o sangue de José que circula numa rapidez igual a quando ele foi dar o primeiro beijo na sua Dona, atrás da Igreja, na festa de Nossa Senhora Aparecida. Era pecado, mas era bom. Deus perdoa, pensou. Mas mesmo demorando tanto, uma eternidade, José comprou sua passagem de volta. O coração quase explodiu quando recebeu o bilhete aéreo. Só faltam dois meses. Agora faltam 25 dias. Três dias, dois, um. Hoje, 11 de setembro de 2001 é um dia especial para José. É seu último dia de serviço em solo americano e lá do alto de uma das Torres Gêmeas, José se lembra de sua vida miserável... mas, tem certeza de que as coisas irão mudar. E José, de alma leve, foi ter com Deus!
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