Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
MEIAS VERDADES
Cláudio Rogério Gonçalves
Tamanho da letra A +A

E agora José?


E agora José?

E agora José? Foi assim que José ouviu de sua companheira a desconcertante pergunta. E agora o que fazer? E, cabisbaixo, José se pôs a pensar como sairia de mais essa armadilha que o destino lhe apresentava. E José, que jamais se entrega, rezou a Deus e a todos os santos com os quais tinha uma relação amistosa. Pediu amparo, uma idéia, uma boa idéia que lhe fizesse levantar novamente. E assim, entre as palavras cortantes de sua companheira e as orações desordenadas que endereçava aos seres celestiais, sentiu o coração bater mais forte. Então  tivera uma idéia, arriscada e por demais perigosa, mas já era alguma coisa. José saiu à procura dos bons amigos e estes não lhe faltaram. José agora tinha um sonho, dentre tantos que tivera desde a juventude lá no interior de Minas Gerais. Esse era o mais difícil  e talvez o mais improvável. Mas José é cabeça dura, ouve somente o coração. E esse pobre órgão que tanto “apanha” no peito de José o mandava ir para os Estados Unidos. Sim, José agora só vê uma saída: chegar à América, ganhar muito dinheiro e voltar para casa menos pobre. Não adiantou a mulher esbravejar e erguer as mãos para os céus pedindo amparo divino, os filhos o chamarem de louco, os amigos o aconselharem a tentar outra saída. Nada disso abalava o corajoso José, era a América que ele queria, era lá que venceria. E um mês depois dessa decisão um tanto quanto tresloucada, José partiu para o México. Pelo México não... pelo México não, disse seu amigo João. Mas, brasileiro que não tem dinheiro e quer chegar aos EUA vai pelo México. E lá foi ele, agora entregue à sorte, aos coiotes, à polícia da fronteira. José dormiu no mato, passou fome durante uma semana, atravessou um rio, viajou numa caminhonete com fundo falso e ainda teve que atravessar um canal de esgoto até pisar em solo americano. José chegou à América literalmente pela e na merda. E, com os contatos que conseguira através de seus amigos aqui no Brasil, ele pode arrumar um emprego de lavador de pratos. José agora lavava pratos durante o dia, fazia limpeza em um supermercado à noite e sonhava por alguns instantes durante a madrugada. José sentia muita falta da mulher e dos três filhos que deixara no Brasil. E havia dia em que tudo ficava cinza sem que cinza o céu estivesse. José acordava com  a alma cinza, nada tinha cor para ele naquele dia ou semana. José estava doente da alma. O amigo mexicano disse que aquilo era saudade de casa, mas que ele iria acostumar.  Juanito  há 10 anos não vê a família... “usted hay de acostunbrarse José” dizia o novo amigo. Não, José não aguentaria tanto tempo assim sem ver/sentir sua dona e os filhos. Mas ainda faltava muito dinheiro, as dívidas aumentaram quando José partiu. Agora José era refém em seu próprio sonho, mas ele rezava mais e mais, trabalhava em três horários, lavava pratos, limpava um supermercado e, por último, lavava defunto também. José via a morte todos os dias e de todas as formas, mas a que mais lhe doía era a que há muito habitava em sua alma. Há muito tempo José não sorria, só pensava em arrumar dinheiro suficiente para pagar as dívidas e voltar para casa. Três anos se passaram desde que José saiu do Brasil e hoje ficou sabendo que sua filha Marlúcia está grávida do namorado. O rapaz é bonzinho, trabalha de frentista no posto da cidade, ganha um salário e meio, disse sua dona entre lágrimas de saudade e de tristeza. José agora bebe pra esquecer as amarguras dessa vida e junto com  Juanito, aquele amigo mexicano, xinga todos os santos que não o ouviram. E xinga em castelhano. Juanito acha graça e ensina outras palavras impublicáveis ao amargurado José. A vida de Juanito também é uma tragédia: sua mulher fugiu assim que eles chegaram nos Estados Unidos, o filho Pablo virou traficante e agora cumpre pena em uma prisão federal, seus pais morreram sem que ele desse o último adeus. Juanito já não tem mais saudade de casa, porque não tem pátria nem sabe mais o que é a tal “saudade”. Juanito não tem mais a Juanito. José se agarra às fotos da família, aprendeu com o porteiro do supermercado em que faz limpeza que no computador fica fácil falar e ver sua dona e seus filhos. José mandou dinheiro para a filha comprar um desses computadores, porque ele precisa ver seu netinho, precisa sentir novamente a vontade de sorrir. José mal sabe escrever, mas o porteiro Inácio, boliviano, há 14 anos na América, conhece a caixa do supermercado e ela é brasileira. Matilde, assim como José, veio para ganhar a vida na América e nunca mais voltou. Matilde também acostumou-se com a ausência de afeto da família e dos amigos antigos, agora ela está americanizada, pouco sorri, conversa somente com colegas do trabalho e vive sozinha num subúrbio. Matilde ajuda José a se comunicar com a família e, sem que se perceba, a alegria de José também vira a alegria dela. José fica mais leve e agora não xinga todos os santos. Ele reza e pede desculpa por todas as palavras feias que endereçava aos seres celestiais. José reza e guarda cada centavo, cada dólar.  Ainda falta muito, mas ele sabe que falta menos do que antes. A vida lá é dura, inverno ou verão, outono ou primavera, chuva ou sol, José trabalha sem descansar.  O mês de janeiro começou com uma boa notícia para José. Seu amigo Juanito conseguira um bom emprego em uma grande empresa de limpeza e arrumara para ele também uma vaga. Agora, as coisas começaram a dar certo para José e ele faz as contas de quanto falta ainda para voltar para casa. Pelos seus cálculos, lá pelo mês de setembro José já pode terminar sua peregrinação, sua Odisséia particular em terras americanas. Cada dia parece demorar quarenta e oito horas... os minutos se arrastam, os ponteiros do relógio preguiçosamente se movem. Só o sangue de José que circula numa rapidez igual a quando ele foi dar o primeiro beijo na sua Dona, atrás da Igreja, na festa de Nossa Senhora Aparecida. Era pecado, mas era bom. Deus perdoa, pensou. Mas mesmo demorando tanto, uma eternidade, José comprou sua passagem de volta. O coração quase explodiu quando recebeu o bilhete aéreo. Só faltam dois meses. Agora faltam 25 dias. Três dias, dois, um. Hoje, 11 de setembro de 2001 é um dia especial para José. É seu último dia de serviço em solo americano e lá do alto de uma das Torres Gêmeas, José se lembra de sua vida miserável... mas, tem certeza de que as coisas irão mudar. E José, de alma leve, foi ter com Deus!

 

 

                                                     cláudio rogério gonçalves

 

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

08.03.2010 - Quando os sonhos não envelhecem

05.03.2010 - À espera

16.02.2010 - Que aula chata

16.02.2010 - Onde é o inferno?

10.02.2010 - El Hombre de Hielo

10.02.2010 - À Louca de Timóteo

27.12.2009 - Desejo

16.09.2009 - Sobre escolhas, sonhos e fracassos

16.09.2009 - Ô tio, pra que serve...?

16.09.2009 - Histórias da Barra

16.09.2009 - E agora José?

25.02.2009 - Declaro

20.02.2009 - À que poderia ser

07.02.2009 - Escolhas

07.02.2009 - Verbamar

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online
Últimas matérias

17.05.2012 - O VELHO CHALÉ DE JOSÉ DE FREITAS (PARTE 1)

..............................................................................................

17.05.2012 - Algumas faculdades europeias e estadunidenses de Jornalismo

Na Europa, uma excelente faculdade de Jornalismo foi construída pela Universidade Autônoma de Madri, conveniada com o jornal espanhol El País

17.05.2012 - NANA, um tratado sobre as relações humanas

Uma complexa e extensa novela gráfica japonesa

17.05.2012 - Terra do Gado

A história e as histórias que reuniu e redimensionou são, ao tempo em que lançam novas luzes sobre a identidade do Piauí, principalmente, um reflexo do ideal de projetar entendimento mais preciso das marcas da “piauiensidade”

17.05.2012 - Uma luta de Sísifo

Durante boa parte do meu temo

16.05.2012 - A CRIATURA - PARTE 2

De olhos bem abertos ela fitava o teto. Imagens dispersas deslizavam umas sobre as outras, enroscando-se numa massa caótica de energia desperdiçada. Os ponteiros do relógio, alheios ao seu sofrimento, moviam-se silenciosamente.

16.05.2012 - Família lança livro inédito do desembargador e contista Magalhães da Costa

Família lança livro inédito do desembargador e contista Magalhães da Costa

15.05.2012 - No país das CPIs

Tempos atrás já houve

15.05.2012 - A mulher vital

A história da Narrativa (cinema, literatura, etc.) é cheia de arquétipos e estereótipos

15.05.2012 - Inobstante, face a, frente a e outras locuções

Por sugestão de M. P. Kern, de Pinhalzinho/SC, vamos tratar hoje do “uso de face a e inobstante, expressões muito usadas no meio jurídico”. O pedido sem dúvida decorre do fato de algumas pessoas condenarem a locução face a

15.05.2012 - O melhor trecho do novo livro de Rogel Samuel

A escolha de um trecho melhor é idiossincrática - e por isso irrelevante -, mas o novo ensaio rogeliano é crítico-filosófico - e ultrapassa a mera crítica literária

14.05.2012 - Vi uma coisa medonha no céu

Mergulhemos um pouco no mundo sombrio e tenebroso criado por H.P. Lovecraft: os horrores do Necronomicon

14.05.2012 - Abril de 2012: UNESCO anuncia proteção aos destroços do Titanic

Em águas internacionais, a 4.000 m de profundidade, nenhum país pode reivindicar a jurisdição exclusiva do local

13.05.2012 - Tradução de um texto de Raymonde Norman*

Sobre minha fronte

13.05.2012 - Três fábulas de La Fontaine

(1) O leão e o rato; (2) A raposa e a cegonha; e (3) O lobo e o cordeiro

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br