Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
LETRA VIVA
Cunha e Silva Filho
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Uma im prudência

 
Cunha e Silva Filho

                             São 11 horas da manhã  no bairro da Tijuca. Não confundir com Barra da Tijuca, que é outro bairro carioca.   Estou na rua (a rua é o perigo, um antropólogo  já o disse) fazendo uma caminhada cujo percurso é praticamente um quadrado, contudo, uma quadrado meio capenga, desses feitos por uma criança que ainda não sabe ler nem escrever, apenas faz uns rabiscos engraçados que são a alegria dos pais ou avós. Falei que o percurso forma um quadrado meio capenga, sem as devidas simetrias e ângulos geometricamente mensurados. Nunca, porém, fui bom em geometria. Ainda andei manuseando com certa curiosidade e por algum tempo apenas um velhíssimo compêndio de geometria de meu  pai.  Minto, eram dois, um da antiga e famosa edição da FTD, com todo o rigor do seu Nihil Obstat. O outro, de uma antiga e desconhecida editora, cujo nome   esqueci.
                          Admirava as figuras geométricas. Todavia, ao passar para os exercícios de aplicação, lá se ia minha boa vontade de dominar os esquadros, compassos, réguas, transferidor e outros apetrechos da disciplina. Leitor,há coisas que admiramos, julgamos vitais ao conhecimento médio de um indivíduo que tenha concluído o científico, hoje, ensino médio. Oh, mudanças de nomes e permanências de status quo!
                          Estou, agora, entrando pela rua Almirante Cochrane, uma rua meio arborizada. Do outro lado da calçada, avisto o enorme relógio digital, ora indicando a temperatura em centígrados, ora a hora - perdoe-me, leitor - pelo involuntário eco. Deus meu! O digital registra qua-ren-ta e se-te  graus! Não acreditei. Procurei o primeiro transeunte com quem me pudesse solidarizar. Perguntei-lhe se aquele relógio estava correto. A resposta foi afirmativa. “Naquele ponto exato em que está, com todo o céu aberto para ele, concentrando todo o calorão circundante na terra e no céu, o relógio está, sim, certo. É isso mesmo.” Meu Deus! Onde estou...? Numa região tórrida da África?
                        Rio 47 graus. Aí me vem sempre o nome daquele filme brasileiro, “Rio 40 graus”,  de 1955, a que sempre associo quando penso no calor carioca. Por falar nesse filme, a exibição tinha sido proibida pelos militares, em particular pelo então chefe de policia alegando que a temperatura do Rio não atingia 40 graus C, e o registro de 40 graus do titulo do filme seria uma “mentira” que provavelmente alarmaria as pessoas e sobretudo turistas. O máximo, segundo o arremedo de ditador, atingiria 39.6º C. Quanta inteligência! E se compararmos com hoje? Seria trágico-cômico.
                      Para as minhas limitações de resistência física às altas temperaturas, isso me dá calafrios. Me dá por vezes vontade de imitar Orson Welles(1915-1985) e, assim,  de uma estação de rádio local (hoje seria melhor  dizer  televisão ou internet) gritar para o mundo que a Terra está se derretendo de tanto calor, virando um caldeirão do tamanho do mundo. Confesso, francamente, jamais ter experimentado tanto calor. De 1964 pra cá, que é meu tempo de residência no Rio, algo estranho está acontecendo com o nosso Rio 40 graus. Essas altas de temperatura  com muito mais frequência  noa fazem ir ao banheiro e, aí, me vem à mente  outra cena fílmica,  agora, de Hitchcock ( 1899-1980) em que a bela Janet Leigh (1927-2004) se torna vítima fatal, durante um banho de chuveiro,  de um psicopata, no filme “Psicose”(1960)
                    O pior é que ninguém agora se importa com nada. A vida continua na sua indiferença. Os adeptos do calorão fazem a festa no hedonismo das praias brasileiras e sobretudo cariocas. Ninguém mais atina para essas diferenças brutais de aumento do calor.Viva a dolce vita felliniana!
                    Dobrei apressando os passos uma outra rua à direita. Que refrigério! A rua é arborizada e mesmo sopra uma leve e deliciosa brisa. Minha blusa esta encharcada mais do que de costume.
Ando, ando. Atravesso um pequeno largo e retomo o caminho de casa por uma rua de casario velho que, afortunadamente, é bem arborizada, de  lado a lado.

                     Aí sinto o quanto é valioso espalhar o verde pela cidade. Só a sombra nos salva. A sombra, por sinal, funciona como um alerta que, partindo do individuo, chega à coletividade. Só esta, transformada  em humanidade solidária, amiga da Natureza, pode aos poucos colocar a questão das altas temperaturas como pauta constante e prioritária no dia-a-dia das pessoas.Tema relevante, de segurança mesmo global, que é mister equacionar em escala mundial, através de fóruns, seminários , simpósios, através de uma mídia em defesa da vida,  enfim, de todas as formas que possam mobilizar a consciência dos homens deste Planeta para uma guerra contra o aquecimento mundial. Precisamos, assim, mais do que nunca, de líderes mundiais isentos de compromissos meramente econômico-financeiros, trabalhando incansavelmente pela sobrevivência do homem no Planeta.
                 Mais adiante, alcanço o meu prédio. Foi decerto impudência minha sair à rua quando o sol estava quase a pino. Mas, andar é preciso. 

 

 

 

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