Dilson Lages Monteiro Sábado, 29 de novembro de 2014
LETRA VIVA - CUNHA E SILVA FILHO
Cunha e Silva Filho
Tamanho da letra A +A

Um poema de Alphonse de Lamartine






                    Falar de  Alphonse de Lamartine (1790-1869) é falar do clamor da alma, do amor natureza, porém não uma natureza meramente copiada, mas de uma natureza transfigurada pelos sentimentos discretos, melancólicos, elegíacos. Lamartine é considerado o primeiro grande poeta romântico francês.
                 Lamartine nasceu em Mâcon. Sua infância se passou no campo e nesse ambiente sofreu a influência encantadora e piedosa de sua mãe, segundo informa , num resumo biobibliográfico Maria Junqueira Schmidt, fonte da qual estou extraindo esses comentários. 
                   Ainda me lembro que, no curso científico, me encantara com um poema seu célebre: "Le lac". Me lembro mesmo que li parte dele em sala de aula, para a rigorosa professora Madame Helena no Liceu Piauiense, professora de francês, casada com um médico francês que aportara em Teresina. Não sei ao certo, mas me informaram que a Madame, como era mais conhecida entre os estudantes, saíra do Teresina e fora para Minas Gerais. Daí então, não mais tive notícias de suas atividades docentes.
                 Lamartine leu os antigos autores com grande entusiasmo, sobretudo Bernardin de Saint Pierre e Chateaubriand, suas duas grandes admirações. Obras: Méditations, Nouvelles Méditations, Harmonies poétique et religieuses; em prosa: Graziella, Voyage en Orient, Histoire dês Girondins.
               Caro leitor, abaixo lhe trago minha tradução bilíngüe do poema L’Automne. Esse poema, aliás, foi lido e traduzido de improviso, em aula por meu pai, que me lecionou francês no Ginásio “Des. Antônio Costa”, mais conhecido por “Domício”, já que , quando se falava nessa escola, que ia do primário até a 4ª série ginasial, ela era sinônimo ou metonímia do nome todo da escola, instituição muito popular em Teresina durante longos anos. O nome “Domício” foi-lhe dado em razão de um de seus diretores-proprietários se chamar professor Domício Melo Magalhães, professor de história, mestre bonachão, divertido, conversador, piadista, muito querido dos alunos. O outro diretor se chamava Francisco Melo Magalhães professor de matemática. Era o oposto do irmão, sério, rigoroso, mas nem tanto. Foram dois grandes e estimados educadores piauienses.


                   L’Automne
 

Salut, bois couronnés d’um reste de verdure!
Feuillages jaunissants sur lês gazons;
Salut, derniers beaux jours! Le deuil de la nature
Convient à la douleur e plait à mes regards,

Je suis d’un pas rêveur le sentier solitaire;
J’aime à revoir encor, pour la derniére fois,
Ce soleil pâlissant, dont la faible lumière
Perce à peine à mes pieds l’obscurité des bois.

Oui, dans ces jours d’automne où la n ature expire,
À sés regards voilésje trouve plus d’attraits;
C’est l’adieu d’um ami, c’est le dernier sourire
Dês lèvres que la mort va fermer pour jamais.

Ainsi prêt à quitter l’horizon de la vie,
Pleurant de mês longs jours l’espoir évanoui,
Je me retourne encore, et d’um regard d’envie,
Je contemple ces bviens dont je n’ai pas joui.

Tere, soleil, vallons, belle et douce nature,
Je vous dois une larme aux bords de mon tombeau!
L’air est si parfumé! La mumière est si pure!
Aux regards d’un mourant le soleil est si beau!

Je voudrais maintenant vider jusqu’à la lie
Ce calice mêlé de nectar et de fel:
Au fond de cette coupe où je buvais la vie,
Put-être restait-il une goutte de miel!

Peut-être l’aveilr me gardait-il encore
Un retour de bonheur dont l’espoçir est perdu!
Peut-être, dans la foule, une âme que j’ignore
Aurait compris mon âme e m’aurait respondu!...

La fleur tombe en livrant ses parfums au zéphirere;
À lavie, au soleil, ce sont là sesu adieux;
Mois, je meurs; et mon âme, au moment qu’elle expire
S’exhale comme un son triste et mélodieux.

                 

                                   O Outono


Salve, bosque coroado dum resto de verdura!
Folhagens amarelentas na relva esparsa;
Salve, derradeiros dias! O luto da natureza
Convém à dor e agrada aos meus olhos.

Sigo com passo sonhador o atalho solitário;
Amo rever ainda, pela última vez,
Este sol pálido, do qual a tênue luz
Mal me chega aos pés na obscuridade dos bosques.

Sim nestes dias de outono ,onde a natureza expira,
Encontro mais atrativos em seus olhares velados;
De um amigo é o adeus, é o derradeiro sorrsio
que dos lábios a morte vai fechar para sempre.

Assim prestes a deixar da vida o horizonte,
Em meus longos dias chorando a desvanecida esperança,
Mais uma vez retorno e, com um olhar de inveja,
Estes bens dos quais não desfrutei contemplo.

Terra, sol, vales, bela e doce natureza,
Uma lágrima vos devo à beira do meu túmulo.

O ar perfumado está! tão pura é a luz!
Aos olhos dum moribundo é mais belo o sol!

Agora desejava, até ao fundo esvaziar,
misturado de néctar e de fel, este cálice:
Ao fundo desta taça, uma gota de mel!

Quem sabe o futuro reservasse ainda
Uma vez mais a felicidade da qual se perde a esperança!
Quiçá, na multidão, uma alma que não conheço
Minh’alma teria compreendido e uma resposta me daria !...

Cai a flor entregando ao zéfiro seus perfumes;
À vida, ao sol, apenas sobram adeuses;
Eu, morro, sim, e minh’alma, no instante em que expira,
Qual plangente e melodioso som se exala..






 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (3)

Caro amigo, Quanta saudades dos professores Melo e Domício. Sou ex-aluno da Escola Domício em Teresina. Existia uma frase na entrada da escola que dizia assim: "A ignorância é o pior de todos os males." Um grande abraço.

Robert Peres
postado:
21-04-2014 14:23:28

SONETO A ALPHONSE DE LAMARTINE – Nascimento do poeta em 21.10.1790 – In Memoriam - Porto Alegre – RS, 21.10.2011, às 17h55min. – Bairro Tristeza.- . - Recordo-me do seu poema “Outono”, que o Irmão Érico, enfaticamente, lia alto, na aula, com tamanho entono, que despertava a comoção na gente... Saudava a natureza, tristemente, como se a visse ficar no abandono pela queda das folhas, de repente, ao reclinar pra o derradeiro sono! Nesse cálice em que bebia a vida, talvez, houvesse uma gota de mel, após ter sorvido néctar e fel... Na multidão uma alma desconhecida, quem sabe, o compreendesse com bondade e lhe desse, afinal, felicidade !... IALMAR PIO SCHNEIDER VOTE NO SONETO. AGRADEÇO-LHE. CLIQUE EM http://www.sonetos.com.br/sonetos.php?n=19646

Ialmar Pio Schneider
postado:
21-10-2012 12:44:03

gosto muito do idioma francês e gostaria de encontrar o poema le lac. sew possivel mande-me esse poema com a tradução. quero também lhe parabenizar pelo seu trabalho.

ozinak da costa mendonça
postado:
02-10-2009 20:57:23

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

26.11.2014 - Os Estados Unidos precisam de um novo Martin Luther King, sem sangue

20.11.2014 - O Papa tem razão

15.11.2014 - É de estarrecer!

09.11.2014 - Álvaro Lins: além do Impressionismo crítico***

08.11.2014 - Tradução do poema "The Better Part", de Matthew Arnold ((1822-1888)

08.11.2014 - Tradução do poema "The Better Part", de Matthew Arnold ( 1822-1888)

30.10.2014 - Aviso aos leitores

28.10.2014 - Depois das eleições...

25.10.2014 - Sobre o poeta Elmar Carvalho

24.10.2014 - A única saída: prisão perpétua já!

24.10.2014 - A única saída: prisão perpétua já!

19.10.2014 - As urnas dividiram o povo brasileiro e dizimaram o sentido da alteridade

16.10.2014 - Um diálogo imaginário sobre os candidatos à Presidência da República

13.10.2014 - A vida literária atual: o papel da crítica

10.10.2014 - No Brasil, além da impunidade, da violência, da corrupção, agora, o ebola

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


São Bernardo no olhar de Ricardo Ramos Filho


Listar todos
Últimas matérias

28.11.2014 - A BIFURCAÇÃO DO CAMINHO

A BIFURCAÇÃO DO CAMINHO

28.11.2014 - O Bloco carnavalesco Chave de Ouro

Por Omar Blanco

26.11.2014 - Os Estados Unidos precisam de um novo Martin Luther King, sem sangue

Desde os esforços de

26.11.2014 - Mal de Alzheimer

Cada um de nós é a sua estória

26.11.2014 - NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

24.11.2014 - Os feijões mexicanos que saltam

É verdade

24.11.2014 - O MANIXI

O MANIXI

21.11.2014 - André Carneiro

Falecido aos 92 anos, André Carneiro é um ícone da ficção científica brasileira.

21.11.2014 - O OVO

Acaso aquele ovo seria o caos e o átomo primordial de algo que estava por vir?

21.11.2014 - MEDITAÇÃO NO PARQUE

MEDITAÇÃO NO PARQUE

20.11.2014 - O Papa tem razão

Nãoquero estar na pele

20.11.2014 - Morre o ex-ministro Marcio Thomaz Bastos

Morre o ex-ministro Marcio Thomaz Bastos

19.11.2014 - O que os ateus esperam?

Nunca consegui entender o raciocínio de nossos irmãos ateus, pelo contraditório que encerra a religião do ateísmo.

19.11.2014 - O Mausoléu de Halicarnasso

Uma das 7 Maravilhas Antigas da Humanidade

17.11.2014 - Quebra-cabeça versus inovação

Entre a análise cartesiana e o 'design thinking'

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br