Dilson Lages Monteiro Sábado, 06 de fevereiro de 2016
LETRA VIVA - CUNHA E SILVA FILHO
Cunha e Silva Filho
Tamanho da letra A +A

Um Natal quase na solidão


Cunha e Silva Filho


                     Naquela velhíssima Casa de Estudante da Rua Senador Pompeu, chamada CESB (sigla para Casa do Estudante Secundário do Brasil), Centro do Rio de Janeiro, ano de 1965, para onde fui graças à bondade de um amigo de Amarante que nunca mais vi, e sobre o qual nem mesmo sei se ainda vive no Rio ou se voltou ao Piauí. Infelizmente, nunca mais soube dessa criatura séria e solidária. Só espero que tenha sido muito feliz na vida.
                     Eu me preparava para o vestibular da Faculdade Nacional de Filosofia, curso de Letras. Como não tinha dinheiro para pagar o chamado curso pré-vestibular, a única saída que encontrei era estudar sozinho confiante também no meu preparo trazido das escolas de Teresina.   O exame do vestibular era realizado pela própria faculdade escolhida e constava de três provas: língua portuguesa, língua latina e língua inglesa, esta última compreenderia  uma prova oral, um ditado, e uma prova escrita. As provas escritas, todas discursivas. As questões eram difíceis. A de latim abrangia tradução para o português seguida de questões gramaticais. Não foi fácil. Os examinadores apertavam na rigidez da correção. Preparei-me durante quase um ano e como local de estudos, usava a Biblioteca Demonstrativa “Castro Alves,” na Rua Treze de Maio, também no Centro.Parece-me que a biblioteca pertencia ao Instituto Nacional do Livro. Era excelente, tinha um bom acervo no campo das letras, bons dicionários, boa bibliografia em filologia, gramática portuguesa, alguns bons livros didáticos de língua inglesa. Essa biblioteca não mais existe no antigo endereço. Disseram-me que o seu acervo havia sido transferido para uma anexo da biblioteca do Colégio Pedro II. Não sei se em São Cristóvão ou em outra unidade deste Colégio. Foi uma pena terem acabado com ela.
                 Certo é que, na Casa de Estudante, aos sábados e domingos, ficava estudando numa mesa  grande da sala principal desse precário prédio.
                Comigo também, no mesmo horário,  compartilhavam da mesa dois colegas que se preparavam para o vestibular. Um, o Marinho, iria fazer exames para engenharia; um outro - o nome dele não me ocorre agora -, para medicina. Ambos eram, como eu, jovens pobres vindos do interior para a grande cidade carioca. Eram bons em matemática, estudiosos e de bom caráter. A Casa naqueles dois anos quase que lá passei, abrigava uns vinte jovens, a maioria de idade próxima. Mas, havia deles que eram bem mais velhos do que eu, aproximadamente de vinte e quatro a não mais de trinta anos. No geral, todos se davam bem e mantinham bom convívio.
               Um outro colega já era estudante do segundo ano de engenharia da UFF (Universidade Federal Fluminense), de cujo nome não me lembro mais, sabendo que todos os outros moradores iam passar o Natal em algum lugar, e vendo que eu não tinha para onde ir passar o Natal, chegou-se até a mim e me disse: “Francisco, estou te convidando para no sábado, que é Natal, almoçarmos juntos. Você não vai pagar nada, tudo por minha conta, sim?” O convite inesperado encheu-me de alegria incomum. Aceitei de imediato. Meu colega e amigo se defendia dando umas aulas particulares em cursinho de pré-vestibular, aulas particulares. Assim, ia se defendendo.
              O nosso almoço natalino foi num restaurante da antiga Mesbla, na Cinelândia, coração do Rio de Janeiro. Tudo transcorreu muito bem. Conversamos muito e eu particularmente estava muito contente com a companhia daquela amigo. Era um jovem moreno, magro, de estatura média, cabelos meio crespos, de olhar compenetrado, educado, sério, estudioso. Naturalmente, percebendo a minha solidão, a minha falta de dinheiro e sabendo, por observação, que eu era estudioso e com bom relacionamento com os moradores, logo pensou em conseguir uma forma de me tirar da solidão e do isolamento do sagrado feriado natalino. Foi o que fez o meu amigo estudante de engenharia que, hoje, se for vivo, deve estar também aposentado após ter seguramente exercido com dignidade a sua nobre e profissão. 
            Se não fosse ele, o meu Natal de 65 seria um desastre. Não tinha aonde ir, nem me atrevia a passar – sem ser convidado - na casa de algum parente que morava no subúrbio. Naquele período, deixei de frequentar casa de parente. Amargar um Natal sozinho no velho prédio da CESB era a última coisa que queria. Por isso foi tão providencial o convite do meu colega de moradia. Principalmente, porque esse feriado sempre me fora especial no tempo em que estava com meus pais lá em Teresina, com um Natal e a galinha assada esplendidamente preparada por mamãe.
          Com hoje está tudo tão distante! Não, porém, sem as imagens daqueles anos de infância e adolescência, nem sem o badalar dos sinos da Igreja de São Benedito à meia-noite para a Missa do Galo. Não, porém, sem a alegria da ceia natalina, ouvindo as vozes queridas de papai e de mamãe e o burburinho álacre das vozes dos meus irmãos. Tudo se foi com o tempo. Tudo se foi com o silêncio e a eternidade querida daqueles que me deixaram na orfandade física e na orfandade da memória. Foram-se contra a minha vontade, mera vontade de um simples vivente também marcado com a natureza do efêmero.
           Aquele almoço no restaurante da Mesbla com o jovem estudante de engenharia foi mesmo um presente de Natal que, de certa maneira, vinha suprir o vazio de minha imensa solidão na grande cidade.

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

29.01.2016 - No Brasil delinquentes matam

24.01.2016 - Tenham pena da Síria!

19.01.2016 - MAIS UMA VEZ A AMIZADE PARTIDA

15.01.2016 - Um hobby na vida de adulto

12.01.2016 - A RAZÃO DE CADA UM

11.01.2016 - Tradução de um poema de Victor Hugo (1802-1885)

05.01.2016 - 2016: o ano que se inicia

31.12.2015 - Antes que 2015 acabe

26.12.2015 - A propósito do artigo "Gênese dos 'Poemas Inéditos', de Elmar Carvalho

22.12.2015 - O negócio é cozinhar:a moda pegou no país

19.12.2015 - DAS AMIZADES PERDIDAS

18.12.2015 - Amanhecer triste no país do "faz de conta"

13.12.2015 - A rede e os sonhos

11.12.2015 - O que faz a política brasileira atual: a clivagem entre petistas e não petistas

11.12.2015 - O que faz a política brasileira atual: a clivagem entre petistas e não petistas

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

05.02.2016 - HagioLetras, HagioPoética, HagioEstudos, HagioPesquisas

Uma imagem vale mais que mil palavras = HagioLiteratura

04.02.2016 - ENTRE A ACESSIBILIDADE E O POLITICAMENTE INCORRETO

Copiado dos norte-americanos, surgiu por aqui, há não muito tempo, o conceito filosófico-antropológico do "politicamente correto"; depois, veio a febre da acessibilidade.

03.02.2016 - A PANTERA 34

A PANTERA 34

01.02.2016 - A imaginação - CLARICE DE OLIVEIRA

A imaginação - CLARICE DE OLIVEIRA

01.02.2016 - ENTRE O VERMELHO E O BRANCO

Nada pode durar tanto, não existe nenhuma recordação que, por intensa que seja, não se apague (Juan Rulfo).

31.01.2016 - EU NÃO SOU EU: POEMA DE JUAN RAMÓN JIMENEZ

poesia

31.01.2016 - Flores sem vaso

Flores sem vaso

31.01.2016 - O descobrimento do Brasil

O descobrimento do Brasil

30.01.2016 - Letras Religiosas = HagioPoética

Orações, Preces e afins também são Textos Literários

30.01.2016 - Sonhos

Saliento que quase todos os meus sonhos, por mais verossímeis que sejam, apresentam algum aspecto extravagante, surpreendente ou insólito.

29.01.2016 - No Brasil delinquentes matam

Leitor que por acaso

29.01.2016 - Origem e exploração da hévea

Origem e exploração da hévea

29.01.2016 - O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

29.01.2016 - As capitanias hereditárias

As capitanias hereditárias

27.01.2016 - Martin Heidegger - LA FRASE DE NIETZSCHE «DIOS HA MUERTO

La siguiente explicación intenta orientar hacia ese lugar desde el que, tal vez, podrá plantearse un día la pregunta por la esencia del nihilismo.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br