Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
LETRA VIVA
Cunha e Silva Filho
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Tentando entender o Brasil e o mundo

 


Cunha e Silva Filho

 

                            Mais um componente desfavorável desponta novamente no quotidiano do brasileiro: a carestia. Relendo alguns artigos de meu pai da época ainda da ditadura, bem como relendo uma carta dele dentre as dezenas que me escreveu por cerca de vinte anos, uma delas toca na questão do aumento do custo de vida envolvendo vários itens fundamentais: aluguel, salário do funcionalismo estadual, alimentação, remédios, vestuário, entre outros. Ora, leitor, do passado para os dias de hoje as lamúrias de meu pai parecem que não mudaram tanto assim, o que significa que, no que concerne à carestia, o país encontra  uma posição de estabilidade , não econômica, mas de alteração de preços para cima, sky high, segundo diriam os falantes da língua de Shakespeare.
                          Governo entra, governo sai, ditadura entra, ditadura sai, mudam-se os modos de vida do brasileiro, antes meio provinciana, hoje cada vez mais tecnológica e a vida de nossos patrícios, para falar como os lusitanos, pouco sai do mesmo lugar com algumas concessões de benefícios  para a “nova” classe média?!). Os economistas, agora mais do que nunca verdadeiros gurus dos destinos financeiros das nações, sempre têm um jeito de explicar situações heterodoxas da realidade econômico-financeira que, ao cabo das contas (valha o trocadilho) , deixam o cidadão médio, mais confuso do que já se encontrava, porém se esquecem de informar o  real sentido dessa “nova” classe social, escondendo que ela nasceu graças ao arrocho salarial da classe média verdadeira que agora não pode ter mais uma empregada doméstica, uma passadeira, uma lavadeira, dado que os encargos com a legislação trabalhista são altos e praticamente duplicam os custos com a  domestica. 
                        A classe média, no sentido estrito do termo, tem muitos encargos que quase engolem os salários de seus membros. Vive de forma apertada. Não tem como se aguentar até o fim do mês, ao passo que os assalariados mais humildes ganham as bolsas-família, as bolsas-estudo, a bolsa não sei do quê...   Isso só tem sido possível porque a transferência de renda via impostos do consumo geral dos brasileiros e via imposto de renda de assalariados vem, no seu conjunto maior de arrecadação, justamente de todos os brasileiros.Quem está elevando o nível do cidadão nosso humilde não é parte do empresariado, mas a gigantesca carga tributária de toda a nação. 
                     A estrutura do Estado brasileiro é inexorável no que tange a injustiças e desigualdade salariais. Chega a ser até cruel com a grande parcela dos brasileiros. Basta dar um exemplo significativo: em São Paulo, por exemplo, e o mesmo argumento serve, guardadas as deviddas  proporções,  para outros estados brasileiros, na área do judiciário, um desembargador, não todos,  chega a perceber subsíos mensais de quase  setecento mil reais e o magistrado ainda conta com a aprovação de seus pares. Isso é uma afronta à dignidade do povo brasileiro. por mais competente que seja um magistrado, esses salários de magnatas são injustificáveis e podem provocar , entre os brasileiros, revolta , rebelião e caos. Vejam-se as greves em setores que não podem usar legalmente deste instrumento, como as Forças Armadas, a Polícia Militar, a Polícia Civil, o Corpo de Bombeiros, só para citar alguns setores vitais da máquina do Estado.
                    Um magistrado com subsidios de super-marajá que citei acima não faz bem aos brios de um povo ainda pobre como o nosso. Por outro lado, um desembargador não é um capitalista, um super-empresário que pode ter o salário que bem quer em consonância com a produtividade de seus negócios. Ser um agente público não é o mesmo que ser um alto executivo de uma grande empresa . A função do judiciário exige que seus altos  cargos  sejam bem remunerados, mas não tanto assim como está, visto que humilha os menos favorecidos, desestimula outras carreiras, causa insatisfação na população sofrida de um país.
                   Se a Constituição proíbe o recurso da greve para algumas categorias, por que o Estado Brasileiro não se antecipa a possíveis futuras reivindicações dessas categorias e cuida de lhe dar salários dignos? Um governador atento e escrupuloso tem a obrigação de ser sensível para essas situações de baixos salários para tais categorias. Não estou advogando salários impossíveis de serem concedidos, mas sim salários que permitam a essas categorias terem uma vida a salvo de aperturas financeiras. Não é com 6% e pouco de aumento de acordo com a inflação que os estados brasileiros vão amenizar a vida dos soldados, dos militares. Não estão pedindo migalhas, porque para quem percebe baixos vencimentos, cem reais, duzentos reais são migalhas em comparação aos altos e altíssimos salários de outros funcionários públicos  municipais, estaduais ou federais. Não é escalonando, em frações minúsculas de aumento, que os militares sairão do fundo do poço .
                   Por que o Governo Federal está permitindo que o custo de vida esteja aumentando sem majorar o funcionalismo a fim de recompor as perdas salariais em todos os gastos que estão fazendo agora com aumento de impostos públicos na área municipal, estadual e federal? Os governos municipais, estaduais e federal estão atendendo à preparação do país para  uma Copa Mundial,  para as Olimpíadas, com gastos faraônicos em todas as direções a fim de atender à comunidade internacional com a infra-estrutura exigida, a peso de ouro, pelos organizadores desses megaeventos.Para isso, têm dinheiro e verbas e tudo. Contudo, para melhorar a segurança nacional,  para melhorar  o transporte  rodiviario e ferroviário, para combater a violência desenfreada nas grandes capitais do pais, para tirar do sucateamento as escolas públicas municipais e estaduais, para a construção, ou reformas e aparelhamento dos hospitais o dinheiro não aparece.      

                  Esta é uma grande contradição de nossos dirigentes mal preparados para os cargos que ocupam ou deles apenas se servindo para locupletar-se. Veja-se a lista longa de ministros que saíram das suas Pastas em geral por acusações de corrupção. O mais gritante é que a substituição de um ministro por outro se faz dentro do mesmo partido do ministro demitido! 
                  Extremas desigualdades salariais é um risco para a democracia. Um sociedade profundamente estratificada como a nossa é uma espada de Dâmocles sobre a cabeça dos governantes. Veja-se o caso da revoltas árabes, da recessão da União Europeia, do sibartismo pantagruélico-milionário do capitalismo americano, desencadeando agora movimento de reivindicações sociais dos pobres e ofendidos consubstanciado no lema “Ocupem a Wall Street”. O espírito civilista-democrático-americano está à flor da pele. Não exagerem os governantes com a paciência de um povo sofrido e desrespeitado na sua honra e nos seus direitos sociais.
                  Gastos excessivos, altíssimos salários e mordomias dos governantes e da alta burocracia dos governos, quer comunistas, quer socialistas, quer capitalistas saltam à vista dos despossuídos, que têm lá seus limites.O extremo da contradição e da desfaçatez dos governantes se resume no fato de que se a cúpula dirigente da União Europeia pede socorro a um país falimentar, a Grécia, por exemplo, ela não vai se privar do seu fausto, seus carros de luxo, jatinhos, helicópteros, iates, seus criados, seus ternos de griffe, seus casacos de pele, seus  brilhantes, seus passeios, seus banquetes,  seus altos salários e   suas benesses palacianas.Onde vai buscar parte considerável do rombo público: diminuindo o salários da patuleia ( tirando casquinha aqui da semântica do contista João Antonio, 1937-1996), do povão, dos funcionários públicos e, absurdamente, vai ainda cobrar mais impostos dessa mesma patuleia.É assim que os poderosos, os líderes mundiais agem e se comportam com o destino de suas nações.
                Não brinquem com o povo, hoje com olhos globalizados na instantaneidade das comunicações virtuais ou não, mas cansados de desesperanças e ultrajes.
 

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