Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 30 de julho de 2010
LETRA VIVA  
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Só olhares e algumas palavras

 
Cunha e Silva Filho


                            A primeira vez que a vi foi na biblioteca do Liceu Piauiense. Lá estava ela sentada na lateral de uma imensa mesa de leitura, do lado direito de quem entra. Nos cantos da sala, só livros nas estantes, bons livros, inclusive o acervo  dispunha de teses de professores do próprio Liceu. Foi naquelas estantes que vi, pelo menos,  quatro teses, a de meu pai, para a cátedra de História do Brasil, de título O papel de Floriano Peixoto na obra da proclamação e  consolidação da República e três teses   para a cátedra de língua inglesa, uma língua inglesa, uma do professor Nelson Sobreira, outro do meu querido professor Francisco Viveiros, cujo tema abordava o estudo do caso possessivo, famoso graficamente por simbolizar-se pelo “apóstrofo s”. Li um pouco da tese, mas não cheguei a terminar a leitura. Era escrito em inglês. Também não sei se meu querido professor chegou a defender essa tese para professor catedrático do Liceu Piauiense. A do Nelson Sobreira, da mesma forma, era escrito em inglês. A terceira, do então bem jovem professor José Eduardo Pereira. Se não incorro em  erro,  igualmente escrita em inglês, mas versava sobre literatura. Contudo, não me lembro do  tema exposto.  Não eram teses extensas, creio que , no máximo, chegavam a cem páginas, se tanto. 
                          Nos livros da biblioteca, descobri a minha primeira leitura de Machado de Assis, o romance Helena (1876), da chamada fase primeira, a romântica, do grande romancista brasileiro. Eu estava nos meus quinze anos. Um romance cativante, cheio de ideias e sentimentos amorosos contraditórios, fora o seu fim trágico, com a morte da heroína provocada pelos sofrimentos da alma decorrentes da hipocrisia das convenções sociais da época. Naquela biblioteca, durante dias, nas horas vagas, encetei a leitura do romance. Agora, não tenho certeza de que o grosso da leitura foi feito em casa, com o empréstimo do livro.
                          Na biblioteca, ainda entrei em contato com um dos mais bem elaborados dicionários da língua inglesa, o de J. L. Campos Jr., sobre cuja história já escrevi nesta coluna.
O que me detém, porém, a atenção nesta crônica não são os livros, mas a figura feminina de uma adolescente, uma jovem bonita, de pele clara, de olhos azuis, cabelos claros, que me encantou pela simpatia e beleza. Não sei mais como se chama. Com ela conversava um pouco, sempre na biblioteca. 
                        Dois anos depois, em viagem  de ônibus com papai para Amarante, numa das paradas, a vi outra vez. Acontece que ela estava num  outro ônibus, mas da janela percebi que me olhava, até sorria com aqueles olhos azuis, a a pele clara , os cabelos meio alourados. Parecia uma inglesinha.
                      Um ano depois, estando no trem da  antiga Central do Brasil, vindo de Oswaldo Cruz (subúrbio da antiga Central do Brasil), onde morei por pouco tempo, de repente a avistei no trem. Acontece que ela já estava descendo em uma estação antes do fim da viagem,  cujo ponto final  era - como ainda o é -,  no  célebre edifício da Central do Brasil, centro do Rio. Trocamos ligeiras palavras e olhares, mas olhares românticos pelo menos da minha parte. 
                      Pouco tempo depois, por acaso, indo fazer um concurso público num bairro da zona sul, numa das ruas principais, casualmente me encontrei com ela. Neste encontro, ela me deu seu endereço. Era ali perto. Guardei com cuidado o endereço, onde havia o nome dela em cima do nome da rua.
                    Anos depois, a vi apenas duas vezes, mas , agora, eu já estava casado e acredito que ela também, pois estava, nas duas vezes, acompanhada de um moço. Não sei se me viu, mas eu a vi . Estava agora nas suas formas adultas, mas continuava bonita. Notei, no seu semblante,  uma certa sisudez ou mal-estar. Dessas duas vezes, uma foi na saída de uma churrascaria da Senador Dantas, centro do Rio; na segunda vez, ela estava num ônibus da zona sul, sozinha, sentada. Olhei pra ela, mas não havia da parte dela a mínima chance da troca de um olhar simpático. Se me viu, foi como se visse um estranho. Depois, nunca mais a vi. Ficou apenas aquela bela lembrança de uma adolescente de lindos olhos azuis naquela biblioteca que mais está na minha memória afetiva.

 

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