LETRA VIVA
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Cunha e Silva Filho
Chamarei de ponto recluso a situação injustamente inferiorizada de alguns intelectuais brasileiros, diante do vasto e multifacetado espaço literário do país, no que concerne a participações em encontros literários, sobretudo a concorrida Flip (Festa Literária Internacional de Paraty, Rio de Janeiro) que, este ano, completou o seu 8º Encontro. O assunto, quero frisar, acompanho de longe, ou seja, pelo jornal
Este ponto recluso implica uma forma de proposital e pouco justo isolamento de alguns escritores por parte dos organizadores quanto às indicações de escolhas de participantes brasileiros e estrangeiros. Se visto pelo ângulo da grande imprensa, os organizadores e coordenadores são identificados, porém o que não se sabe claramente são as verdadeiras justificativas das escolhas, i.e., não se sabe ao certo como são escalados os participantes, os motivos das opções, assim como por que alguns já participaram mais de uma vez em detrimento de outros que nunca para esta Festa foram convidados.
Com respeito ao evento de Paraty, o jornal “O Globo”, no Caderno Prosa & Verso (31/de julho de 2010), estampou dez fotos de escritores brasileiros selecionados para participarem da já famosa e aguardada Festa literária anual. Alguns sorridentes, outros, menos. Enfim, os agraciados. Ocorre, entretanto, que a reportagem mostrou também as fotos dos que nunca foram até hoje convidados, os quais, mostrados na reportagem, somam dezesseis. E repare que não se incluem aqui os famosos etc de Rachel de Queiroz, como costumo repetir em situação semelhante
Entre o grupo de convidados e de não-convidados, no que respeita a prestígio e qualidade literária, em linhas gerais, não há superioridade de um em relação ao outro. Simplesmente, no grupo dos não-convidados, havia ainda alguns que, se fossem chamados, não iriam porque não desejavam esse tipo de Encontro, conforme as afirmações deles mesmos que aparecem nas legendas sotopostas às fotos. Outros desses excluídos declaram que aceitariam participar desde que fossem convidados.
Além dos dois grupos, há que levar em consideração um terceiro e implícito: o daqueles escritores que são os excluídos absolutos, aqueles que formam esse considerável número de bons e mesmo importantes escritores de todos os Estados brasileiros que ainda não passaram pelo crivo da visibilidade, palavra agora muito em voga para designar nomes, em toda as áreas, que alcançaram repercussão nacional.
A inclusão ou exclusão, em nível nacional, é um fenômeno que se assemelha aos consagrados em outros campos da atividade humana:: futebol, artes, medicina, jornalismo, publicidade etc.
Todo artista, profissional, escritor aspiram ao reconhecimento como uma consequência natural de seu esforço, determinação, trabalho e talento.
Alguns que se isolam, os avessos aos apelos midiáticos, muitas vezes assim se comportam como um modo indireto de querer chamar para si mesmos as atenções da mídia. O curioso é que, contra a vontade deles, ou não, terminam se popularizando devido à própria atitude arredia, à excentricidade ou ao comportamento antissocial. Seriam exemplos, entre outros, os ficcionistas DaltonTrevisan e Rubem Fonseca.
Os organizadores desse tipo de evento cultural dão lá seus motivos para convidarem esse ou aquele nome. Entretanto, não custa perceber que, nos bastidores da vida literária nacional, sobretudo no eixo Rio-São Paulo, existe uma cerrada cortina de fumaça através da qual sabe Deus como transcorrem as conversas, as escolhas, as discussões em torno de quem merece ser ou não chamado a tomar parte em tais eventos que, por sua natureza, envolvem muitos fatores, interferências, mediações, acertos, em suma, uma cadeia de conexões pessoais aqui e além-fronteiras, sem falarmos em outros componentes nada desprezíveis: o comercial e o do complexo e vantajoso mundo editorial globalizado.Se fôssemos definir todo esse conjunto de situações e interesses diversos na simbiose entre literatura, autores e consumo de leitura, bem se poderia denominá-lo de política literária.
Regionalmente, alguns Estados brasileiros bem podem já estar acompanhando esta forma de evento cultural, naturalmente em proporções muito mais modestas. O Piauí, ao que parece, já consolidou a chamada SALIPI, obviamente com os mesmos traços particulares de inclusões e exclusões. São os discípulos de Paraty.
Prezado Luiz Filho de Oliveira: Que bom saber que você, muito jovem escritor, poeta sobretudo, partilha comigo da mesmsa visão (indignação). Você viu que, na minha última frase do texto, mando um recado certeiro às plagas daí. Folgo em saber que sua novíssima geração vê fundo os desacertos do mundo brasílico. Escrever, para mim, é um ato quase sempre de indignação contra a injustiça, em qualquer plano que a situemos, não excluindo, é claro, o estético, o que chamei de política literária. Acho que fui até eufêmico. Deveria dizer policalha literária, à maneira de Rui Barbosa ao condenar os maus costumes políticos nacionais da sua époc, que não muito muito até hoje para triteza dos brasileiros. Obrigado pelo apoio. Cunha e Silva Filho
Esse retrato é mesmo o que ocorre geralmente, por conta desse tipo de evento, meu caro Cunha e Silva Filho. Em nível regional, no Salão do Livro do Piauí (SALIPI), repercutem essas mesmas "estratégias". Talvez o que os pernambucanos da FLIPORTO, em sua "versão" digital, estão fazendo com os palestrantes e convidados possa se estender também aos escritores menos desconhecidos.
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