Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
LETRA VIVA
Cunha e Silva Filho
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O relógio e o último carnaval de adolescente

 

 Cunha e Silva Filho

                          Fevereiro de 1964 – esta data já virou um marco histórico pessoal.. De tanto repetida como divisor de águas entre duas fases da vida ou como referência a qualquer lembrança num confronto entre o passado teresinense e o presente carioca, nunca mais me vou livrar dela – ainda bem , pois sua significação, pelo menos para o colunista, é imensurável cultural e afetivamente.
                          Desde que comecei a entender um pouco os sinas da vida , respeitando o nível de entendimento da faixa etária e das lições de Jean  Piaget (1896-1980), a festa do Rei Momo das minhas primeiras impressões me levam algumas figuras e alguns aspectos da festa carnavalesca na ainda acanhada  Teresina dos anos cinquenta até os inícios da década de sessenta.
                          Um daqueles aspectos é o cenário inesquecível e contraditório dos corsos. Nem bem sabia o que queria dizer o termo “corso’ que, de resto, está vinculado a várias acepções que falam de guerra nos mares, de ataques inesperados a navios de inimigos, de beligerância, “de desfile de carros, de carruagem” (Aurélio, 1ª Ed., p. 391). O verbete ainda se refere a atos de pirataria (não é por acaso que, no carnaval, muitos gostam de se fantasiar de piratas), como fala do sentido do termo relativo a vagabundagem de antigos bárbaros, larápios de objetos de que se apossavam por onde formavam seu percurso de perambulação.

                         Não sei por que, na época, não perguntei a meu pai pelo sentido daquele termo, mas o problema é que, eu, pequeno, anda não me interessava por questões etimológicas, e o pior é  que  meu pai sabia italiano, aprendido no Colégio Salesiano “São Manuel”, em Lavrinhas, estado de São Paulo, onde os seus colegas de quarto eram quase todos da Cidade Eterna. A tradução para o termo italiano “corso”, que quer dizer “curso, corrida, avenida principal, rua principal, desfile” está muito ligada ao que ocorria no tempo de  folia carnavalesco em Teresina.
                        Naqueles carnavais de minha terra, em se tratando de cenas de ruas, a grande expectativa do povão era permanecer nos dois lados da “Avenida Frei Serafim, ou de outras ruas para esse fim escolhidas, aguardando, como fazia ,em tom solene, nos dias de desfiles de Sete de Setembro. A alegria dos espectadores, debaixo de sol intenso, era ver os carros dos opulentos da época, lotados de gente fantasiada ou simplesmente vestida com elegância a fim de demonstrar poder econômico e alto nível social. Possuir carro naquela época em Teresina não era para muita gente. Ali se viam nos carros elegantes ou menos elegantes, gente bonita da sociedade teresinense, toda sorridente mais parecendo a cortejo da família imperial inglesa diante da multidão monarquista... Pobre ali não comparecia em carros. Eram apenas, em sua grande maioria, os espectadores, simples figurantes da folia dos despossuídos  e  de vagabundos  que encontramos em  contos de João Antônio (1937-1996).
                         Outro cenário contrastante no carnaval teresinense era o desfile em carrocerias engalanadas das mulheres damas da Paissandu. Como a festa do Momo é abertura para a instauração do reino provisório da desordem (DaMatta) permitida pela “ordem oficial”, já que a festa é um momento de, sorrateiramente, os poderes constituídos abrirem as portas dos interditos e das hipocrisias, lá se exibiam,  com os exageros das fantasias e da sensualidade jovem ou envelhecida, as grandes damas da festa da carne. Diante dos meus olhos passavam aquelas figuras humanas tão decantadas na ficção  de Jorge Amado (1912-2001) Já naqueles anos, percebia os risinhos escarninhos de mal-amadas e de figuras falsamente puritanas que nem se davam ao trabalho de olhar para as mulheres da beira-rio beira-vida. Não sabiam as aristocratas de “brasões enfatuados da sociedade” o quanto de bem faziam para os forasteiros que na Paissandu aportavam sedentos de sexo, ou para os maridos rejeitados na cama conjugal, ou para os rapazinhos que desejavam se livrar das práticas de onanismo, ou para os homens que, com o tempo de vida conjugal, iam perdendo os arroubos e desembaraços da mocidade e só lá nos lupanares se completavam.
                      Contudo, não há como negar, o ponto alto do carnaval teresinense. Eram os bailes noturnos do Clube dos Diários, lá na Álvaro Mendes, coração da cidade.. Aquela espécie de toque de corneta alusivo sonoramente ao entrudo naquele clube era o prato cheio da juventude, da mocidade e até da velhice daquele tempo. O Clube dos Diários reunia a nata da high society teresinense. Lugar perfeito para um grande espetáculo carnavalesco, para os amores à primeira vista, para um clima de ivresse que nos transportava para as paixões momentâneas, os olhares cúpidos, o entrelaçar das mãos, os beijos fortuitos e incandescentes no meio do ambiente perfumado do lança-perfume esguichado nos lencinhos dos adolescentes  que, depois, se, moderadamente inalados, levavam os corações enamorados ao paraíso das Ilhas dos Amores.
                     Época narcisista, na qual os jovens tínhamos sempre diante de nós o espelho que nos atestava a beleza apolínea supostamente auto-proclamada.  Com bigodes postiços feitos artesanalmente a carvão muito lembravam a personagem de Zorro com a sua famosa máscara. Éramos belos porque éramos jovens. Era isso que mais importava ao nosso lado narcisista. Não há efemeridade tão eterna quanto a juventude,  cujo instante é seu primado.
                     Foi no último baile do Clube dos Diários que ostentei um lindo relógio presente de mamãe. Ficara fascinado quando, saindo com mamãe da elegante relojoaria, exibia no pulso direito o meu presente especial. Era, na época, um objeto-fetiche, usado pela classe média e pela burguesia local. Quem não tinha um relógio estava incompletamente vestido. Símbolo de requinte, de status social, de poder econômico, de beleza, de bom gosto, de ostentação. Era bem visto pela namorada, pelos pais da namorada, pelos parentes, pelos amigos. Um relógio naquele tempo era um relógio. E se de marca, tanto melhor, tanto mas admirado.
                    Pois foi com esse relógio que me aventurei pular carnaval no Clube dos Diários. Era o último dia de carnaval. Junto de uma namoradinha que encontrei entre as belas mocinhas ricamente fantasiadas, com seus corpos esculturais e ostentando mais livremente a beleza dos corpos e a graça da juventude, a pele morena ou clara, ou os cabelos lisos ou ondulados, os olhos castanhos, azuis ou verdes, a estatura em geral média ou baixa, mas nem por isso menos encantadora e sensual, de repente, olhando para o meu pulso, não mais via aquele relógio novinho em folha que ganhara de mamãe. Perdi o rebolado. A festa para mim quase se acabou. Chorei para mim e para minha namoradinha. Meu carnaval praticamente  se evaporara naquele noite alegre-triste. Nem as marchinhas de carnaval, nem o “Corta o cabelo dele”, nem as velhas músicas de carnaval, nem o cheiro de lança-perfume no salão belamente decorado conseguiram amenizar a dor da perda do objeto querido. Alguém, bem sei, ficou com ele. Não havia mais meio de recuperá-lo. No outro dia, relatei, envergonhado e arrasado, o fato para mamãe. Nem avaliem o semblante que tomou conta dela. Ainda hoje sofro pelo prejuízo que dera à minha mãe, afora o desgosto. Alguns dias depois, partia para o Rio de Janeiro.
 

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