Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 07 de setembro de 2010
LETRA VIVA  
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O Piauí não é mais uma província literária

 

Cunha e Silva Filho


                        Me permita o leitor uma autocitação de um pequeno trecho de uma crônica de título “Impressões da cidade”, título, de resto, sugerido oportunamente por meu saudoso pai, que publiquei no jornal “Estado do Piauí”, em 1974, e que constará de um dos textos reunidos do meu livro As ideias no tempo ainda a ser publicado: “Hoje possuímos a Universidade Federal do Piauí. A Universidade dá  uma nova dimensão à vida cultural de um estado. Ela é seu porta-voz maior, evitando o marasmo cultural. O desenvolvimento intelectual de Teresina se intensifica. Nota-se que há uma ânsia de se fazer alguma coisa que  seja nossa e identifique valores culturais nossos. Nossos homens de letras sentem vontade de escrever, de publicar. A COMEPI é um exemplo edificante do governo”.
                    A observação citada acima tem uma distância de trinta e quatro anos! Ou seja, três décadas e uns quebrados. É uma vida. De lá pra cá aconteceram, na esfera cultural, muitas coisas que, pouco a pouco, foram mudando o perfil daquele Estado que deixei ainda com fortes traços provincianos. No intervalo desse longo período, a história da inteligência piauiense longe ficou de qualquer óbice entrópico.

                   Ao contrário, a cultura literária, mais  circunscrita  aos redutos da Academia Piauiense de Letras e à benevolência e espírito de visão de alguns donos de jornais, eles próprios, em geral, ligados à causa cultural, foi esgarçando lentamente alguns comportamentos e atitudes que não mais se coadunavam com os novos tempos agora impulsionados pelos ventos da comunicação de massa, pela criação de novas universidades e proliferação de campi das universidades públicas, sem se falar no aperfeiçoamento do corpo docente de professores que foram realizar curso de alto nível nos centros mais adiantados do país ou mesmo no exterior. Assim, se foi desenvolvendo não só a universidade em si, mas sobretudo o que dela se irradia na conquista de novos saberes, de novas tecnologias em todos os domínios do conhecimento e, agora, mais do que nunca , da inimaginável  experiência haurida pela Internet, universalizando  e democratizando  mais  as fontes do conhecimento  humano.       

                 Era de se esperar que o impulso advindo das universidades de forma indireta repercutiu nos arraiais de cultura  ainda presos ao anacronismo e , assim, foram aparecendo fundações culturais, conselhos de cultura, revistas culturais de expressão nacional, e, no que se refere ao capital humano, o surgimento de uma massa crítica mais tecnicamente preparada para dar continuidade ao passado. No âmbito da comunicação escrita, criaram-se vários jornais de alta qualidade de impressão e diagramação, com um corpo de redatores graduados por universidades atuando profissionalmente, sem mais o amadorismo dos velhos tempos idos e vividos, e servidos de colaboradores pertencentes à alta cultura do Estado piauiense.
              Ainda por força do progresso provocado pela chegada  das universidades, públicas e particulares, novos escritores foram surgindo em todos os gêneros e bem assim novos talentos nos domínios das artes plásticas, do cinema, da humorismo, do teatro.
              No  campo específico do ensaísmo e da crítica literária, é de se notar a efervescência. de talentos que estão surgindo e procurando ocupar os espaços que o presente e o futuro estão a eles reservando. Sirvam-se de exemplos livros como Os sinais dos tempos, de João Kennedy Eugênio (Teresina, Halley S.A. Gráfica e Editora, 2007), Cantigas de viver – leituras, de João Kennedy Eugênio e Halan Silva (orgs., Teresina, Fundação Quixote, 2007), As formas incompletas apontamentos para uma biografia de H. Dobal, de Halan Silva (Oficina da Palavra, 2005), São os novos teóricos graduados e pós-graduados e, portanto, especificamente mais  treinados, como diria Terry Eagleton, nas universidades para a atividade literária, no sentido técnico-científico, do que em geral havia no tempo em que deixei Teresina, quando o intelectual, o crítico, o ensaísta contavam mais com o talento e os estudos autodidáticos a fim de dedicar-se à vida literária. Mas, essa realidade não era só no Piauí de então, mas nos estados mais pobres.
             Li uma publicação sobre estudos linguísticos, de língua portuguesa, filológicos e ensaios em grosso volume, PHOROS ( Rio de Janeiro, Editora Caetés, 2006 ) de trabalhos de  mestrandos e doutores da Universidade Federal do Piauí que me surpreenderam pela profundidade de reflexão crítica e  pelo sentido da alta pesquisa na área multifacetada de Letras. Obviamente, toda essa produção que está sendo feita no Piauí ainda não recebeu o tratamento de correspondentes estudos nos campos da teoria literária, da histografia literária e da crítica literária. Dado ser já considerável atualmente essa produção cultural-literária do Piauí, é bem provável que o levantamento e a transformação desse lastro conquistado em forma de livros de referência, tenham que ser tarefa para equipes a fim de poder abarcá-la em profundidade de estudos e atualidade de pesquisas.
Da mesma forma, digno é de salientar que o Piauí já dispõe de editoras – a exemplo da novíssima Editora  Nova Aliança - com disposição de crescer e lançar autores novos, como, entre outros, o próprio editor, o poeta e  ficcionista Dílson Lages, e antigos, como  Assis Brasil, cujo retorno ao Piauí foi benéfico para a vida literária local.           

Ora, como não deixar de reconhecer esse nítido florescimento de uma nova mentalidade de autores piauienses, nos diversos gêneros literários e em gêneros afins com os estudos literários , como a história ( campo de estudos no qual o Piauí tem conhecido bons autores e uma boa produção científico-acadêmica ou mesmo  fora do  estrito espaço universitário), a sociologia, o jornalismo, a filosofia. Nem seria justo assinalar, nestas longas três décadas, as inúmeras gráficas, editoras, editoras oficiais da importância da Fundação Monsenhor Chaves, da antiga COMEPI, da atual Fundação  Quixote, de publicações do porte da revista Presença, editada pelo Conselho Estadual de Cultura sob a operosa presidência do escritor e crítico literário M. Paulo Nunes, de outras tantas editoras já existentes no Piauí, das publicações feitas em convênio com a Academia Piauiense de Letras e a Universidade Federal do Piauí, de outras publicações entre o setor privado e instituições públicas e mesmo, do esforço próprio, digno de aplausos, das edições particulares.

            Isso tudo é inequívoca evidência de uma afirmação de um Piauí consolidado nas suas raízes culturais e nos desdobramentos futuros de um Estado que, no seu universo de produção intelectual, dá exemplo de pujança e perene desejo de ultrapassar fronteiras regionais e lançar-se corajosamente rumo a uma posição merecedora do respeito nacional sem mais receios de parecer - porque efetivamente não o é -, provinciano frente aos Estados brasileiros mais adiantados.
 

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