Dilson Lages Monteiro Sábado, 25 de maio de 2013
LETRA VIVA
Cunha e Silva Filho
Tamanho da letra A +A

No país das CPIs

 

 


Cunha e Silva Filho

 

                          Tempos atrás já houve o famigerado “Mensalão.’ Os jornais, os canais de televisão, as rádios, o povo só falava de um assunto: formação de quadrilhas, lavagem de dinheiro, superfaturamento, pagamentos de propinas, trafico de influência, lobbies, dinheiro metido nas cuecas, cenas de imoralidade política e mau-caratismo entre gente do governo federal (tempo de Lula) e do setor privado. O desenlace: da tragicomédia: a impunidade com poucas perdas para os acusados.  Alguns envolvidos estão aí, dando consultoria , escrevendo para jornais ou mesmo exercendo ainda a política.
                        A Folha de São Paulo, à semelhança de folhetins do século 19, publicava, em várias páginas, iguais a capítulos, todos os passos dos desdobramentos da “vergonha nacional”. Ninguém sabia de onde vinha a verdade dos fatos, ou se sabia, ficava calado, mudo como uma pedra. Não a de Drummond (1902-1987) no meio do caminho, que é uma outra história e nada tem com o país da impunidade para os ricos.
                        Grandes jornalistas, na trincheira do extinto Jornal do Brasil, como Fausto Wolff (1940-2008), jornalista corajoso, ficcionista, tradutor, e Ivo Barroso, poeta, ensaísta e grande tradutor, disparavam seus tiros certeiros nas feridas da imoralidade nacional . Que pena que foi por um período breve e justamente na época do “Mensalão.” 
                       Enquanto isso, no exterior, a imprensa áulica, politicamente correta, onde o pensamento do articulista é técnico, impessoal, objetivo sem originalidade, sem independência,, sem marca pessoal, sem emoção e muitas vezes informativamente distorcido, só tinha mimos e loas para o Presidente Lula e, ao se referir a ele, o classificavam como Presidente da esquerda. Ora, se Lula nunca leu uma página de Marx, que é obra dificílima, mais citada do que propriamente lida, e “abstrusa” como há muito tempo um combativo jornalista a ela se referiu, como poderia ser um homem de esquerda bem fundamentada? Só se era do tipo de Leonel Brizola (1922-2004) que, seguindo Darci Ribeiro (1922-1997), era mais “ audível,” lia pouco. Aliás, os conceitos de ideologias modernamente se embaralharam e se infiltraram uns nos outros de tal sorte que, hoje em dia, ninguém nunca sabe quem é da direita, da esquerda, do centro, dos extremos. Ideologia que neles não passa de leituras de gabinete e não de exposição às reivindicações do homem da rua, das periferias, dos morros, dos lugares, onde a pobreza se choca com os grandes hotéis onde são hospedados, ou das mansões onde moram, ou dos restaurantes sofisticados que frequentam aqui ou nas ricas capitais da América e da Europa.
                   O PCB de Luís Carlos Prestes (898-1990), homem sério e bem intencionado, já não é o mesmo e até se desdobrou em PC do B, cujos membros e prosélitos, ao que saiba, não têm lá suas afinidades com o controle do Estado, a falta da liberdade, e um regime de força sinônimo de ditadura do Estado Ora, seus seguidores são, pela usos e costumes de vida, mais para a burguesia capitalista e o neoliberalismo do que para as convicções extemporâneas dos princípios de Karl Marx (1818-1883)e Friederich Engels (1820-1895). São comunistas para uso externo, como bem poderia, se fosse vivo, ter afirmado meu pai, que era defensor de uma democracia social.
                  Deputados da esquerda ou da direita, se tanto, se distinguem mais por algumas tendências voltadas para a dimensão social, para a causa dos menos favorecidos e isso apenas do ponto de vista teórico. Isso serve só para dar alguma satisfação aos eleitores que ainda acreditam em promessas de  alguns políticos.Vejam a vida que levam, os gordos salários que percebem regiamente na Câmara e no Senado. Abrirão mão deles? “Never more” diria o célebre poema de Edgar Allan Poe (1809-1849). Não passam alguns deles dos burguesões adiposos da ode marioandradiana travestidos de socialistas ou de comunistas, em cuja bandeira partidária tremula esvaziadamente o sentido da foice e do martelo. 
              O arcabouço político-jurídico é tão complexo e tão cheio de meandros burocráticos e de hierarquias que um membro do Supremo pode expedir uma contra-ordem nas sequência de trabalhos de uma comissão parlamentar de inquérito, constituída para investigar envolvimento ilícito de um senador da República com um conhecido empresário e bicheiro, o Cachoeira. Por que Cachoeira não poderia comparecer agora à convocação dos membros da CPI? Teria foro privilegiado?
             Que eu saiba são conhecidas amplamente do público esclarecido as informações que dão evidências suficientes de que o bicheiro  mantém  relações de negócios escusos com  políticos e outros empresários,  não escapando até governadores brasileiros. A própria Polícia Federal, em sucessivas informações liberadas à grande imprensa, mostra diálogos comprometedores de conversas telefônicas entre as partes envolvidas na CPI.
             Todos os três poderes só funcionarão plenamente se  se mostrarem isentos, imparciais e desejosos de elaborarem e cumprir a lei e, se no caso uma lei não está surtindo mais efeito, que seja suprimida e  reelaborada uma nova lei para atender a situações que não permitam as chamadas brechas ou sutilezas prontas a serem empregadas para proteger poderosos corruptos. No dia em que o indivíduo rico for para a cadeia como qualquer outro mortal do nosso povão, será possível acreditar num país democrático e livre.
           A formação moral integral, como queria um eminente educador português deve ser um ditame imperioso na formação educacional e ética do indivíduo. Convergir nossos políticos, nossos governantes e nosso magistrados para a unanimidade em relação à formação educacional sob os dois pilares - conhecimento e moralidade de conduta - não seria a unanimidade burra de que falava Nelson Rodrigues (1912-1980). É ainda tempo de mudarem os nosso homens públicos e os nossos líderes. Já se foi a era dos grandes talentos políticos, da alta cultura político-jurídica, dos grandes tribunos, parlamentares, das antigamente chamadas “reservas morais”. Hoje, vivemos a pasmaceira, a mediania,  ausência de lideranças confiáveis. Em vez da política, a politicalha de que falava Rui Barbosa (1849-1923). As CPIs ilustram esse declínio de valores em extinção.

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

23.05.2013 - A linguagem mascarada ou o lobo no cordeiro

19.05.2013 - Dois epílogos para os ditadores

17.05.2013 - "A Rosa da Paz", de William Butler Yeats (1865-1939)

12.05.2013 - Praticando a escrita na Internet

09.05.2013 - O cheiro da grama: um instante da memória

05.05.2013 - Redução da maioridade penal de menores infratores

01.05.2013 - Tradução de um poema de Stéphane Mallarmé ( 1842-1898)

28.04.2013 - O homem que não queria morrer

25.04.2013 - A ausência de Neuza Machado

24.04.2013 - Violência: o maior problema do país

20.04.2013 - A ideia de um Monumento a Da Costa e Silva e outra questão

18.04.2013 - O Rio de Janeiro é uma enfermaria

16.04.2013 - Maratona com ataque terrorista

13.04.2013 - Menores assassinos no Brasil

10.04.2013 - Tradução de um poema de T.S.Elliot (1888-1965)

Ver mais
Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária




























Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Halan Silva fala sobre Pedra Negra


Poemas Insidiosos, de Caio Negreiros


Listar todos
Últimas matérias

24.05.2013 - SAMUEL BENCHIMOL EM E-BOOKS

EDITORA 247 LANÇA A OBRA DE BENCHIMOL EM E-BOOKS

24.05.2013 - MORTE À INDECÊNCIA FILOSÓFICA DO POLÍTICO

Cada vez mais vejo nos homens a indigência filosófica e sua pouca vergonha e...

23.05.2013 - FRANCINÓPOLIS EM LEMBRANÇAS

..............................................................................................

23.05.2013 - A linguagem mascarada ou o lobo no cordeiro

Em entrevista recente

22.05.2013 - O gênio infantil

Na infância já é possível entrever quem, de entre os alunos de uma turma, se afigura mais criativo

22.05.2013 - O travessão

Dos sinais de pontuação, o travessão é um dos mais requisitados atualmente, pelo fato de proporcionar mais clareza do que as vírgulas nas intercalações longas e maior ênfase nos destaques.

22.05.2013 - O travessão

Dos sinais de pontuação, o travessão é um dos mais requisitados atualmente, pelo fato de proporcionar mais clareza do que as vírgulas nas intercalações longas e maior ênfase nos destaques.

22.05.2013 - Escritor profissional

Raymond Chandler tem dois episódios muito curiosos, em sua carreira, que têm a ver com o conceito de profissionalismo.

22.05.2013 - A América Latina não existe

Vejamos certas confusões que existem na Geografia

22.05.2013 - A vida tem poucos prazeres

Sim, poucos prazeres tem a vida. Um é degustar o chá da tarde na companhia da Doutora X na Confeitaria Colombo.

21.05.2013 - TEATRO

Teatro para o povo

20.05.2013 - Dedicatória de Epaminondas Barahuna a Agnello Bittencourt

E a estória JABUTI - O metereologista, da coletânea Estórias Amazônicas (Ed. O Cruzeiro, 1974)

20.05.2013 - Nº 5 - Boletim da regional RECORTE da associação de comunicação e semiótica

Regional Centro-Oeste/Norte (Recorte) / FORMOSA/GO, 20 de maio de 2013

20.05.2013 - MARCHA ZUMBI

Desde 2003 elas acontecem e eu não sabia. E quando soube, não acreditei! Não que eu tenha algum preconceito, nada disso. Afinal, quem gosta de vampiros não pode se dar ao luxo de criticar o gosto dos outros.

20.05.2013 - FUKUYAMA ELOGIA O BRASIL

FUKUYAMA DIZ QUE BRASIL SE SAIU BEM NA CRISE

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br