Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
LETRA VIVA
Cunha e Silva Filho
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Namorando os livros

 
Cunha e Silva Filho


                 Nas décadas de sessenta, setenta e oitenta fui um assíduo frequentador de livrarias do centro do Rio de Janeiro quanto dos sebos. Esta cidade possui uma quantidade considerável de sebos assim como outras capitais brasileiras.

                Como naquela época não dispunha de dinheiro suficiente, ao entrar nas livrarias mais famosas ficava apenas “namorando” os livros nas prateleiras das estantes e naquelas mesas-estantes muito comuns em algumas livrarias, sobretudo as mais antigas. Olhava os preços e desistia, tal como aquele personagem de André Theurieut  (1833-1907)que também que ficara fascinado com o título de um livro na vitrine que de imediato desejara adquirir, mas não tinha dinheiro para tanto.
 

                O livro chamava-se: “Livro Mágico”, na tradução livre. Só a custo o conseguiu, ou seja, depois que lutou para conseguir, ajudando estudantes a visitar exposições numa livraria, um adiantamento de dois francos da funcionária, com os quais pôde comprá-lo. Mas, pouco durou o deslumbramento. Logo que tomou posse do volume, verificou que ‘de mágico só tinha o título” e o trocou por uma bola de ágata com um colega.
              No meu caso particular, nunca fiquei sabendo se alguns daqueles livros que desejei comprar se transformariam em mais um exemplo de “livro mágico.” Na minha situação, era diferente porque não foi só um livro que me chamou tanto a atenção. Foram várias e várias obras que sonhava obter sem nunca ter conseguido.
             O que me valeu um pouco foram os livros antigos que, por serem mais baratos, terminava por comprar: eram excelentes livros de autores estrangeiros, principalmente sobre língua inglesa, gramáticas, didáticos, livros teóricos, de crítica literária,  de histórias literáiasl,ivros franceses, espanhóis, de latim,  livros de história,volumes de ensaios literários, de ficção, de poesia etc.
             Quase todos eles li ,se não na íntegra, pelo menos alguns capítulos. Muita gente pensa que  já lemos todos os livros que possuímos e que formam uma pequena, média ou grande biblioteca. Longe disso, há livros que compramos e que jamais leremos, como há outros que lemos tempos depois. Não há uma regra para esse nosso comportamento de leitor. Livros há que lemos de imediato, de um fôlego. Outros, o fazemos pela metade, de outros mais só lemos as orelhas. 
            Confesso-lhe, leitor, me dá uma grande frustração por não ter lido pelo menos todos os que venho colecionando há tanto tempo. Vezes há que ainda reservamos uma dezena ou vintena de volumes e nos prometemos que iremos um dia começar a lê-los. Qual nada! O tempo passa e nada de começarmos a leitura do primeiro deles. Chegará um tempo que não teremos mais tempo de enfrentá-los, mas então será “tarde, muito tarde”, como diria o velho pregador no seu último sermão.
            Hoje posso comprar livros sem tanta dificuldade como de antanho. Não vou hoje com tanta regularidade às livrarias nem aos sebos, sobretudo porque estão aí pra ficarem as livrarias virtuais de sebos, com milhões de livros vendidos pelos quatro cantos do país. Sem se falar nas estrangeiras que vendem livros novos e usados. Tenho usado muito dessas livrarias. Compramos os livros pela Internet e recebemos os volumes em casa pelo Correio. É confortável e cansa menos. Quanto aos livros novos, vejo que é um bom hobby ir às livrarias, algumas delas luxuosas, com serviço de bares, poltronas para leituras. Na verdade, recomendo a todos que visitem as boas livrarias, locus propício a informações das novidades do mercado editorial brasileiro e estrangeiro. No Rio há lindas livrarias que dá gosto visitá-las com assiduidade.
           Porém, naqueles idos de três décadas, como doía, no meu espírito ávido de adquirir livros e conhecimento, não ter recursos para comprar aqueles livros cujo títulos, nomes de autores e editoras se me fugiram em definitivo da memória!

Só  me restava neles fixar longamente os olhos e imaginar que um dia poderia comprá-los. Naquele tempo, a prioridade era o sustento da família, não os livros, não obstante tão almejados, tão necessários à minha atualização. Me imaginava entrando, no futuro, nas belas livrarias cariocas comprando o que quisesse, levando para casa os volumes que tanto me fascinavam a ponto de namorá-los, como já disse atrás, toda vez que pelas livrarias passava. Entretanto, havia que pensar primeiro na família, naqueles que de mim dependiam. Os livros queridos e que me atraíam poderiam esperar, esperar, esperar. Haja esperança!

 

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