Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
LETRA VIVA
Cunha e Silva Filho
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Lima Barreto ainda mais atualizado

 

 

 
 


Cunha e Silva Filho


                Lima Barreto, posicionado nas histórias literárias no chamado Pré-Modernismo, teima ainda em ser uma espécie de concorrente de uma fatia de glória que se concede a Machado de Assis. A diferença entre os dois em estilos literários e de visões de vida. antes os engrandece com o passar dos tempos.
             Agora mesmo, a Companhia de Letras vai publicar um volume sob o título Contos completos de Lima Barreto, reunindo 42 textos inéditos do polêmico escritor. A organização dos textos ficou a cargo de Lilia Moritiz Schwarcz, que se valeu da Coleção Lima Barreto da Biblioteca Nacional. Outra novidade, a Editora Cosac & Naif, publica também, num só volume, "O diário do hospício" e o Cemitério dos mortos, o primeiro relatando depoimentos do escritor quando de sua segunda internação, por motivos de alto estado de alcoolismo, no Hospital Nacional de Alienação do Rio de Janeiro, entre o Natal de 1919 e fevereiro de 1920, o segundo corresponde a um romance inacabado narrando, ficcionalmente, o ambiente degradado e desumano dos doentes mentais em suas diversas patologias, assim como faz um registro lúcido dos tratamentos e do tipo de psiquiatria que então se dispensava à loucura.
            O caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo (05/09/2010) publicou, na última página, um desses contos inéditos do inventor de Policarpo Quaresma.  O conto tem o titulo “Apologética do Feio.”
           O conto em questão vem em forma de um bilhete dirigido a uma suposta Baronesa de Melrosado, sendo que o personagem-missivista desfia seu lamento e sua decepção pela recusa daquela aristocrática a um convite para um valsa no que ele chama de “último baile dos Diários.”

       O motivo, segundo confessa o missivista, foi por ele ser “excessivamente feio.” Aliás, soube da recusa pela boca de um tal Soares, um possível conhecido ou amigo do personagem-missivista. O missivista ainda leva ao conhecimento da baronesa o fato de que a situação dele ficou mais delicada porque perdera uma velha “pendência” entre amigos, a qual consistia em saber qual deles seria o mais feio. Com o comportamento da baronesa, a questão se resolveu em definitivo, de vez que a baronesa, com a recusa ao prazer da dança, levou o pobre missivista a perder a parada nesse “concurso” de feiúra”. Este é o leitmotiv do conto.
      O missivista, ao longo da carta, procura demonstrar, em forma de contraponto, o testemunho da História, citando e mais citando grandes figuras do pensamento, das ciências, da filosofia, das artes, da ficção, da poesia, desde os gregos até os mais próximos da contemporaneidade do missivista. Figuras que eram todas modelos de feiúras e, em alguns casos, descomunais. Ou seja, ser feio tem uma virtude e o feio não está sozinho, está na companhia dos mais inteligentes, dos mais sábios, dos mais lógicos. Além disso, definir o belo é muito mais fácil e mesmo pode ser definido de forma consistente por um feio, como Kant, ao passo que definir o feio para o missivista é algo difícil, quiçá impossível, porque se cerca de subjetividade, de “ponto-de-vista”, enfim, de determinismos.
     Para o missivista, beleza e feiúra  podem muito bem conviver, desde que uma seja entendida e a outra, indecifrável, pois, se olharmos pela definição, a beleza é mais fácil de definir, enquanto a feiúra oferece muito mais dificuldade de apreensão de sua essência verdadeira. Ou seja, o feio passa a ser mais importante e mais valorizado porque se coloca como um desafio ante quem tenha que demarcar onde acaba o belo e onde começa o feio. Numa palavra, o feio é uma raridade do ângulo filosófico.
    O texto é atravessado de citações de nomes dos mais diversos saberes e, por extensão, no jogo pendular da antinomia belo-feio, parece mostrar o narrador-missivista que a beleza não pode ser julgada apenas pelas formas harmoniosas e universais. Na fealdade existem também valores tão ou mais importantes do que nas formas clássicas. Inclusive, depreende-se, muito mais complexo é desentranhar valores inestimáveis naquilo que exteriormente soa inferior. E aqui se pode estender ao terreno estético,   a modos de formalizar gêneros literários, à frente dos quais o que especialmente  interessa de perto a Lima Barreto - a ficção , tendo em vista a recepção em geral injusta com que, na sua época, foi recebido pelo tradicionalismo literário via modelos Coelho Neto, Rui Barbosa, entre outros.
  O falecido ensaísta Cassiano Nunes, analisando o estilo literário do contista João Antônio, refere a uma “estética do feio”, que, em nosso juízo, bem pertinente se torna para explicitar este conto de Lima Barreto, cuja característica alusiva a tantos autores e obras de erudição, chegando mesmo ao exagero das enumerações e a uma transversalidade de assuntos e de ideias, que só fazem iluminar a dimensão simples de cenários, personagens e condições sociais de que faz parte o universo ficcional de Lima Barreto.Lima Barreto remou contra a corrente do establishment cultural de sua época, foi mal entendido, e pior, foi injustiçado. Sofreu naturalmente na carne os percalços do “feio” na obra, na linguagem também mal assimilada pelos contemporâneos , onde lhe imputavam “desleixo de linguagem” quando, na verdade, isso não passava de uma estratégia de subversão aos padrões positivistas e exageros de pureza e aticismo anacrônicos. O altíssimo índice de alusões eruditas do conto serve a dois fins: a) provar que o escritor era um intelectual competente e atualizado; b) ironizar seus opositores lançando mão da estratégia da posse da “erudição” como forma de seus contemporâneos ostentarem “sabedoria” como apanágios só justificáveis se usados pela inteligentizia dominante, não pela literatura praticada por um “feio” nos temas, na linguagem e nos personagens.

 

                           

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