Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
LETRA VIVA
Cunha e Silva Filho
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História de um esquecido

 Cunha e Silva Filho

 

                     “Você, mano, deve esquecer, perdoar. Isso vale muito e é demonstração de desprendimento humano. Vá em frente. Siga a sua vida.”
                      Fiquei olhando para o semblante dele: jovem, magrinho, baixo, moreno, cabelos curtos que lhe realçavam o formato de rosto quase quadrado, claro, pele fina e limpa, sem uma espinha, olhos bonitos e profundos, um leve sorriso de tristeza, talvez. Já estava doente. Tinha ido com ele ao Posto de Saúde para lá receber uns medicamentos. O médico com quem conversei me disse, em tom de reprovação que era muito errado da minha parte alimentar qualquer preconceito sobre a doença, que era curável. A única coisa que eu poderia fazer seria ter os cuidados higiênicos necessários. Com a medicação tomada segundo a prescrição médica, tudo correria normal.
                    Quando chegou do Nordeste, vinha cheio de esperança. Estava bem fisicamente. Charmoso. Até arranjara trabalho numa empresa do centro do Rio. Desejava fazer Economia. Já me tinha avisado há um mês que viria pro Rio tentar uma vida melhor e se formar. Estava bem, alegre e determinado a vencer. Encontrei-o casualmente na Rua São José, à altura do Edifício Garagem, o Menezes Cortes, para quem não se lembra.
                   Gostava de pintar quadros de pessoas ou paisagens. Até me presenteou  com um quadro quando ainda estava no Rio. Também fazia poesia, mas sem grandes voos. Não era revolucionário nesses dois campos artísticos, mas tinha algum talento, sim. Muito conversador, sobre qualquer assunto, tinha idéias próprias e polêmicas. Sexualmente, era uma pessoa livre e sem preconceitos.
                  Um dia, num sonho, o vi sentado numa rede, me pedindo que o abraçasse. No sonho, não quis atendê-lo. Sentia que podia me contaminar. Me reprovava por isso. Que absurdo ter medo de me contaminar do próprio irmão! Não me via como um irmão verdadeiro e solidário, que não tivesse nojo ou receio de um contato físico com o meu próprio sangue. Era terrível pra mim só imaginar esse comportamento pequeno e egoísta, inclusive ignorante. Não é coisa que se faça a um ser humano muito menos ao mano Ecê, que, antes de tudo, precisava de meu apoio. Felizmente, aquilo foi apenas um sonho muito tempo depois de seu desaparecimento to em terra estranha e abandonado pela família. 
                  Aquela cena do filme relatando a história do príncipe judeu Ben-Hur procurando pela mãe e irmã, no Vale dos Leprosos, me vinha sempre à mente e se misturava ao meu remorso. Ben-Hur não teve nojo nem medo de contágio. Abraçou as duas e foi abençoado por Deus com o milagre dacura. Por que eu não fiz o mesmo?  Por que o rejeitei com hipócrita discrição? Tal atitude minha não me livra de uma possível condenação segundo princípios cristãos. Hei de carregar essa mancha interior para sempre, já que é tarde demais pra me redimir. Ainda mais porque me desfiz de uma  pintura emoldurada por ele mesmo  que me dera de coração aberto e franco. Ele mesmo era a franqueza em pessoa.. Que insensatez a minha! Até que ponto me chegava a estupidez?
                De certa forma, creio que ele teve culpa de seu sofrimento . Por que havia de se meter com aquela gente estranha, dissoluta, trazendo nas veias o terrível vírus? Uma vez, indo visitá-lo, comprovei o que pensava de suas companhias e do lugar em que estava morando. Lá vi tudo. Não havia dúvida de que tudo vinha à tona sobre o seu estado presente de saúde abalada que resultou na tragédia e no seu longo e solitário sofrimento. Morreu sozinho e fora enterrado praticamente como um indigente no cemitério de uma grande capital. Não havia nenhum familiar na ocasião. Nenhum membro da família, eu inclusive, foi procurá-lo ainda que fosse pra lhe dar uma última palavra de alento e pedir-lhe perdão – por que não? Hoje, jaz numa cova rasa, no esquecimento dos mortos e dos humilhados.
              Me lembro daquela vez, à noite, em que nós dois ficamos duas ou três horas juntos, sentados, conversando alegremente, tomando  refrigerantes debaixo de frondosas árvores daquela velha praça de nossa cidade. Era em dias de festejos da Igreja. Ele estava feliz, com sonhos pra realizar.        Tinha uma grande mágoa da mãe, com quem nunca se dera bem.
              Ainda me lembro do dia em que entrara no meu apartamento de subúrbio e lá encontrei uma telegrama me avisando que viria pro Rio.  Esperava contar comigo. Não viria pra minha casa. Ficaria uns dias na casa de uma nossa velha tia. Só depois, apareceu em minha casa. Estava feliz e animado. Venceria na cidade grande se não fossem aquelas coisas em que se viu enredado quanto à saúde e ao seu comportamento sexualmente livre. Os artistas, enfim, são assim mesmo. Entram na senda dos perigos da vida e delas saem chamuscados. O resultado é um destino anunciado, previsível, premonitório. Acordei daquele sonho na madrugada e lhe rezei pela alma, pedindo-lhe meu perdão pelo meu medo e pela minha covardia. Requiescat in pace

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