Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
LETRA VIVA
Cunha e Silva Filho
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Governos improvisados: o caso de desabamentos no Rio de Janeiro

Cunha e Silva Filho

 

                    Não é de hoje que o estado do Rio de Janeiro carece de governos competentes, de administradores sérios eleitos para disseminar o bem social,  corrigir as  falhas de governos passados e mostrar o descortino de uma figura de político respeitado e querido pela população fluminense. Desde, pelo menos, Brizola, o estado do Rio tem tido os piores governadores de sua história. O mesmo se poderia afirmar dos prefeitos. Ora, leitor, governador e prefeito, que deveriam passar grande parte do seu tempo dedicando-se ao trato da coisa pública, ao contrário têm uma sede enorme para as viagens ao exterior. Com isso, não podem estar atentos a imprevisíveis acidentes na cidade do Rio de Janeiro e, por extensão, no estado todo.
                 Apesar de tantos governantes medíocres que só mal fizeram ao governo do Rio de Janeiro durante décadas, houve uma exceção, a do governador Carlos Lacerda, o qual, conquanto falhas podemos nele apontar como político, realizou obras importantes para o estado que dirigiu com competência e sabedoria. Homem preparado intelectualmente, revelou-se bom administrador da coisa pública. Não fez papel feio no governo, soube se conduzir como homem público durante seu mandato. Foi operoso e deixou marcas de um grande político.
                O prefeito, o governador têm que estar presentes, junto da população, nos momentos mais difíceis, como são as tragédias. Um delas atingiu há três dias o coração do Rio de Janeiro, o centro da cidade. Os desabamentos, na Rua Treze de Maio, na Cinelândia, ao lado do Teatro Municipal, foram ocorrências pungentes e desoladoras principalmente pelas perdas de vidas que provocaram. A par disso, os desabamentos desfalcaram profundamente o conjunto arquitetônico-histórico do Centro da cidade. Três prédios das décadas de trinta e  quarenta viraram apenas escombros, fumaças, água enlameada e um vazio imenso no coração dos habitantes do Rio. 
               Os desabamentos não foram obra de terroristas. Nem mesmo sabemos se houve explosão de gás. As conclusões não são até agora concordes. Os especialistas falam que os prédios ruíram em decorrência de uma obra irregular que estava sendo  feita em alguns andares do prédio mais alto, de dezoito ou vinte andares. Este prédio, por sua vez, desencadeou o desabamento dos outros dois prédios mais baixos. Os desabamentos aconteceram à noite, cerca das 8: 00h, ou seja, quando um número relativamente pequeno de pessoas ainda neles.se encontravam trabalhando, ou fazendo alguma coisa diferente. O certo é que as vítimas fatais ainda tentaram correr para fora das salas, ganhar os corredores, possivelmente tentando sair pelas escadas. Foi quase inútil esse esforço, porquanto o prédio mais alto, em questão de poucos instantes, começou a perder o equilíbrio, desintegrando-se todo e levando de roldão os dois prédios vizinhos.
            Não podemos deixar de associar, em alguns aspectos, este acidente trágico com as Torres Gêmeas americanas em Nova Iorque, o qual ficou conhecido mundialmente como o fatídico 11 de Setembro. No caso brasileiro, na Cidade Maravilhosa, um jovem casado, antes do desabamento, havia usado o celular para se comunicar com a esposa que se encontrava num dos prédios. Conseguiu por um instante falar algumas coisas para ela, mas de imediato o celular ficou incomunicável. Era justamente o início da tragédia. Depois de dois dias de escavações feitas por estes gloriosos bombeiros, soube-se que a esposa daquele jovem se encontrava entre os mortos. Este é só um caso entre outros que vimos na tevê - relatos de tristezas e infinita dor dos que perderam seus entes queridos, amigos, colegas de trabalho, chefes de seções etc. A cidade está enlutada, cheia de lágrimas, angustiada, desesperançada, órfã. 
          Um transeunte, diante da tragédia, desabafou: “- É uma vergonha, falta de respeito e previdência das autoridades no que diz respeito à fiscalização dos prédios do Rio de Janeiro." O transeunte, indignado, culpou o poder público pelo que aconteceu e pelo que pode a vir acontecer caso não sejam mudadas as regras de fiscalização, de vistoria da prefeitura do Rio de Janeiro e de órgãos do estado fluminense.
          O que presenciamos agora com esta tragédia serve de sinal para que o povo do Rio se una e exija dos governos municipal e estadual uma resposta concreta e tecnicamente fundamentada sobre as razões dos desabamentos e sobre quem pode recair a responsabilidade da tragédia. Os culpados têm que ser punidos. Não é possível que terminem as investigações e laudos dos acidentes sem que apareçam os responsáveis. O dolo cabe a alguém ou a alguns e o poder público, por seu turno, tem uma parcela de responsabilidade uma vez que o fato acontecido está relacionado aos órgãos competentes de fiscalização.
         Nos Estados Unidos, em Nova Iorque, por exemplo, a fiscalização é rigorosa, a multa por infrações de irregularidades em reformas e obras de prédios é também altíssima. A prefeitura dispõe  de um serviço notável de armazenamento de informações sobre as condições físicas externas e internas dos prédios nova-iorquinos. Por que o Rio de Janeiro, o país, não copiam toda esta infra-estrutura e know-how já testados e que têm dado certo. Não custa nada ao prefeito do Rio, aproveitando as suas constantes peregrinações pela terra do Tio Sam, ao invés de visitar a Disney, ter uma conversa com o prefeito de Nova Iorque. O governador fluminense também deveria dar exemplo neste sentido quando das suas repetidas permanências no exterior.

         O Rio de Janeiro - cidade e estado - , está  cansado de tanta inércia dos setores públicos diante de alguns sérios problemas que estão exigindo equacionamentos de soluções impostergáveis: a saúde, os hospitais, a segurança e o respeito ao patrimônio arquitetônico do Rio de Janeiro, da cidade, do estado, os quais, nas duas instâncias de poder, estão sem leme.


 

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