Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 30 de maio de 2017
LETRA VIVA - CUNHA E SILVA FILHO
Cunha e Silva Filho
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SEM DOURAR A PÍLULA

 

 

 

                                                                                                                     Cunha e Silva Filho

 

 

            Se dirijo a minha atenção ao país e à sua realidade multifacetada, com pontos positivos e com pontos negativos, posso imaginar que nem tudo está perdido e há muita coisa está a feita por parte dos que nos governam cercados de mil manchas de violência, de impunidade e de desrespeito aos eleitores.

         Sei que o Brasil, na condição de ainda emergente, procura saídas para uma recuperação financeira. Por outro lado, vejo que a espada de Dâmocles ainda se vê claramente suspensa sobre algumas cabeças de políticos envolvidos na famigerada Operação Lava Jato, dando-nos a estranha sensação de que poucos de nossos homens públicos atualmente estão inocentes no que concerne a seu currículo político.

           Nem a figura do atual ocupante da Presidência da República está incólume no mapa labiríntico dos conchavos, do recebimento de supostas propinas e do conluio degradante com parte do alto empresariado. Ora, numa situação moralmente suspeita, na qual se meteram tantos homens públicos dos altos escalões da governo federal e dos governos estaduais e municipais, agrava-se cada vez mais a antiga boa imagem em que grandes políticos do país desfrutavam, uns mais, outros menos, junto ao eleitorado.

          O discurso político se abastardou, foi para o fundo do poço e, mesmo havendo ainda exceções de homens públicos zelosos que realmente desejam o bem do Brasil, esse diminuto número de políticos competentes e sérios não tem força suficiente para fazer a necessária faxina da podridão que se alastrou e contaminou a maior parte dos setores vitais de nossa República. Alguém com razão poderia argumentar: “E os políticos jovens não seriam os mais indicados para fazer uma varredura da politicalha nacional?” Não necessariamente. Já pensaram que muitos políticos das gerações mais novas, ao chegarem aos seus mandatos são filhos ou parentes dos velhos caciques e sobas da tumultuada nossa história política.

         Claramente há também algumas exceções, porém as exceções não alteram a maioria inepta e não confiável. A mocidade nunca foi atestado de idoneidade moral de um cidadão. Jovens há que têm dignidade tanto quanto velhos há que não a têm.Os exemplos, em nossa política, se multiplicam. Na realidade, muito pouco se altera na vida política em termos de qualidade de seus quadros em razão de que a estrutura política brasileira está fadada a manter o mesmo estado de anacronismo de nossa antigas práticas de nepotismo, de fisiologismo, de compadrio, de troca de favores e do jeitinho brasileiro de encontrar uma maneira de atuação dos partidos e de seus regulamentos internos corporativos mantidos e assegurados de tal sorte que, na aparência, finge-se modernizar-se e moralizar-se para uso externo.

        Contudo, intramuros, os privilégios, sempre salvaguardados a todo custo, não são alterados. Há sempre delongas para empreender-se uma robusta reforma política que, assim, vai sendo empurrada pela barriga. Na minha experiência de observador da realidade política, primeiro regional, e depois, nacional, sei de inúmeros casos de bons candidatos, no passado e no presente, que nunca foram eleitos porque são pobres e honestos.

       Na política, eleger-se depende de dinheiro para campanhas, de patrocínio, de fundos políticos públicos e, por ser desta forma, candidatos bem postos na vida, endinheirados ou amigos de endinheirados, empresários, conseguem se eleger. Em linguagem política de hoje, depende de caixa 2, de propinas, de marqueteiros inescrupulosos, de dinheiro sujo, de lavagem de dinheiro e até de fontes financeiras do tráfico. Daí, chegamos ao estado mais execrável da história política nacional que resultou nesse atoleiro de indignidade em que se transformou nossa vida pública, sobretudo nos últimos quinze anos com uma série de escândalos envolvendo a maioria dos mais conhecidos políticos brasileiros da atualidade e e do passado.

        A Operação Lava Jato, com o apoio da logística da Polícia Federal e do Ministério Público, em todas as suas diligências, tem inegavelmente procurado moralizar e dignificar a estrutura do Estado Brasileiro, principalmente nas investigações e apurações de práticas espúrias envolvendo milionárias somas de dinheiro desviado do Tesouro Federal que foram para as mãos de políticos corruptos, alguns hoje presos ou sob investigações. Isso tudo conseguido graças a um conluio, por longo tempo, entre grandes empresários e políticos em relevantes funções da administração federal, como também altos funcionários de empresas estatais.

        As três esferas,  governo federal ou estadual, ou municipal, recebiam propinas vultosas em licitações com cartas marcadas beneficiando regiamente aqueles empresários mediante custos superfaturados. Todos esse fatores resultaram dolorosamente na quebradeira de alguns estados brasileiros, sendo exemplos o sucateamento do governo do Estado do Rio de Janeiro, a partir das duas desastrosas administrações de Sergio Cabral, além da situação delicada das finanças de outros estados brasileiros, como o Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Espírito Santos, de que se tem notícia até agora.

       Mas não só de políticos nocivos quero falar. Há um outro lado da questão, a meu ver, muito conexionado com o tipo de educação propiciada ao brasileiro: o papel do eleitorado. Há uma longa prática abjeta que campeia entre os eleitores, ou seja, a falta de educação política, de formação cultural, de aprendizagem dos conhecimentos, componentes que formariam um leitor mais competente, menos propenso a ser engabelado por políticos de má índole, caçadores de votos dos incautos e dos ignorantes.

      Se hoje está um pouco melhor a visão do eleitor quanto a questões políticas, sociais e culturais, persiste ainda fortemente o tipo de eleitor que se vende - é o termo adequado - ao candidato a um mandato por migalhas, por um par de calcados, alguma pequena ajuda financeira e outras vantagens mínimas. Isso ocorre sobretudo nas camadas menos letradas, sem nenhuma consciência de cidadania e de seus próprios direitos constitucionais.

     Esse comportamento do eleitorado ignaro se repete em outras eleições onde os mesmos candidatos da ciranda da malandragem voltam s serem eleitos indefinidamente e o que seria um voto virtuoso se torna um voto vicioso e impatriótico. Paradoxalmente, a questão do voto é muito complexa, em todas as camadas, letradas ou não, existe o voto inescrupuloso.

      Somente com o aperfeiçoamento de nosso ensino e de nossa educação, reduzindo ao mínimo a taxa de analfabetismo absoluto e de analfabetismo funcional é que haverá um salto qualitativo no desempenho melhor e na conquistada autonomia de escolha feita pelo eleitor brasileiro.

     No entanto, para que isso venha a acontecer, urge que homens responsáveis pelos órgãos superiores da educação estejam dispostos a um reforma profunda do ensino em todo o território nacional, respeitando as particularidades regionais e fazendo cumprir os programas curriculares, aperfeiçoando a formação dos professores públicos e privados da pré-escola, do ensino fundamental e médio, e valorizando a carreira do magistério – esta uma velha questão que não foi até hoje tratada em profundidade e com a vontade política efetiva (não no papel e nas promessas de governantes populistas) de se desejar melhorar a situação de quase completa desvalorização da figura do professor até o ensino médio. A sociedade que não respeita seus professores jamais alcançará um alto nível de civilização.

    Na China, no Japão, em alguns países europeus, o professor é valorizado e o ensino é de alta qualidade. Uma vez, um educador brasileiro fez referência ao ensino brasileiro que, segundo ele, se dividia em escolas para ricos e escolas para pobres. Essa indecência ainda perdura em todos os sentidos. O pais, neste terreno, ainda marca passo para vexame das nações desenvolvidas.

      Por outro lado, a educação que atinge um elevado patamar de eficiência anda pari passu com um país bem administrado em todos os setores da vida pública e privada. Para isso, teria que haver moralização de nossas instituições públicas e da competência de nossos governantes (a começar do Presidente da República) os quais deveriam, antes de tudo, ter um altíssimo compromisso com o bem-estar da sociedade e um conhecimento profundo das suas desigualdades, das suas misérias e das suas injustiças nos dos setores que mais estão exigindo a presença e a autêntica liderança da autoridade não imposta mas conquistada pelo voto válido e consciente: a mão segura e firme do Estado diante do mais alto índice de violência a que chegou o nosso país: a saúde, o transporte, a habitação, a já mencionada educação - fator nuclear do qual realmente depende a grandeza de qualquer país.

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