Dilson Lages Monteiro Domingo, 23 de abril de 2017
LETRA VIVA - CUNHA E SILVA FILHO
Cunha e Silva Filho
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O QUE É O HOMEM BRASILEIRO?

           Cunha e Silva Filho

         A pergunta do título deste artigo me é inspirada pela leitura de um artigo do teórico e crítico literário Eduardo Portella, de título “A morte do homem cordial.” (jornal O Globo, 14/01/2017). Há muito não lia o autor que tem uma obra notável e definitiva no alto ensaísmo e na crítica brasileira. Lembro bem do que afirmou o pensador e grande crítico literário Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima, 1893-1983) ao saudar, se não me engano, em jornal, o aparecimento, na cenário intelectual brasileiro de Eduardo Portella (1958, com obra Dimensões 1, crítica literária) com a frase consagradora: “Crítico ao Norte.”   

       Portella, com o tempo só confirmou esse julgamento. Sem nomear o principal nome em torno do qual o tema polêmico ainda hoje discutível do “homem cordial” atribuído ao brasileiro e analisado no capítulo V da obra Raízes do Brasil (Rio de Janeiro: J. Olympio, 10 ed., 1976, p. 101- 112) do erudito ensaísta, crítico literário  E  historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Portella em texto enxuto e límpido, desnuda sucintamente a questão da cordialidade nossa, questão esta que o próprio Holanda, segundo já frisei, procurou analisar.

      A cordialidade do brasileiro já havia se espalhado pela consciência coletivo nacional sempre invocada para justificar que o brasileiro é cordial, quando não o é sobretudo se visto agora da ótica da atualidade. A frase “homem cordial” se tornou moeda corrente como tantas outras que se inseriram na cultura brasileira no sentido de identificar o país e o seu povo por um viés positivo, como aquela do título da obra de Stefan Zweig (1881-1942), Brasil, país do futuro (1941), ou aqueloutra bem mais antiga de um título do livro Por que me ufano do meu país (1900), do conde de Afonso Celso (1890-1938), um velho exemplar do qual conheci na biblioteca do meu pai.

      A expressão “homem cordial” não é de Holanda, mas do poeta diplomata e ficcionista Ribeiro Couto (1898-1963) conforme o próprio Holanda lembra na nota de rodapé 157, (op. cit., p.106). Holanda apenas viu nessa a síntese da definição desenvolvida em seu livro sobre o assunto. Inclusive, não pode ser tomada ao pé da letra, de vez que Holanda estuda o comportamento social do brasileiro sob a perspectiva de que somos um povo avesso ao ritualismo, mas com um forte inclinação à quebra de formalidades a serem obedecidos com rigor.

      Nossa tendência é a manifestação da liberdade, no sentido de abertura às ideias e a modos assistemáticos e facilmente digeridos. Portella, para sustentar suas ideais no artigo, parte do argumento de que o homem cordial se deveu à combinação do “modernismo” com o “ufanismo.” No entanto, segundo o Portella, com o passar dos anos e as transformações gerais do país, à altura da modernidade, da qual começam a surgir os efeitos danosos da explosão urbana, do gigantismo populacional e da “privatização da esfera pública,” fatores desta natureza que só deteriorariam a realidade brasileira já dando seus fortes sinais de novos e nada alvissareiros desafios que o país teria que enfrentar. E tal sE deu ao nosso olhos perplexos do presente.

     Aquele passado algo romantizado,“edificante” de um Brasil de natureza exuberante, de um “sertanejo é antes de tudo um forte” na concepção de Euclides da Cunha entrevista em Os sertões, não mais se poderia manter como ilusão identificadora do que o futuro (o nosso presente) haveria de preservar como a projeção de um nação próspera e feliz. Portella denomina essas dificuldade não previstas pelos estudiosos da nossa formação de Estado Brasileiro de “desvios inesperados do caminho.”

      Citando Mário de Andrade (1893-1945), tendo por fundamento a obra Paulicéia desvairada (1922), como um intelectual que havia percebido os percalços que sofreria o país, a começar da capital de São Paulo, maior centro econômico e industrial da América Latina, Portella - diria eu -, reforça que aqueles mesmos percalços (0s “desvarios” marioandradinos) a serem enfrentados alcançariam todo o território brasileiro. Ora, esses desvios que conduziram ao estado de imoralidade e degradação dos poderes e à ilegitimidade da representação política com o desgaste da figura do político a consequente repulsa da sociedade, quase por completo ruíram as nossas instituições supostamente democráticas.

     O efeito foi catastrófico porque o sistema republicano ficou em grande parte desacreditado pela sociedade civil, principalmente porque foram gravemente feridos os princípios éticos e morais, desestruturando o arcabouço do Estado, como são exemplos os inúmeros e recorrentes escândalos investigados pela Operação Lava Jato denunciando em práticas de ilicitude e criminais os governos federal, estaduais e municipais e a elite do empresariado.

     O fato de Portella citar o poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), “E agora, José?,” já indicia para um situação social e política altamente complicada que nos coloca a todos numa encruzilhada e na imprevisibilidade e incertezas nos rumos do país.

       Portella ainda se vale de três notáveis filósofos de porte universal a fim de desconstruir a concepção de cordialidade brasileira ao declarar que “(...) nenhum homem é ou deixa de ser cordial fora do seu horizonte existencial.” Em outras palavras, nenhum homem escapa à sua “circunstância” ( Ortega ), à sua “situação” (Sartre) e às aflições do “ser no tempo” (Heidegger).

        Outros fatores são citados por Portella como exemplos dignos de meditação que explicitariam a nossa,direi assim, ausência de cordialidade: decisões impensadas para escaparem a condenações (caso da queda do avião levando os jogadores da Chapecoense); a escravidão que, no país, não deu nenhum exemplo de humanidade; a violência atual em estado de calamidade pública;os presídios brasileiros, locais onde o crime se mantém e ainda coordena a brutalidade fora dos presídios; a “institucionalização da violência política”; a “privatização do público” considerada pelo crítico como “negação da cordialidade.”

      Agrega ainda como causa primordial a desarticulação do sistema de educação no país, cujas problemas graves poderiam ser tratadas com um ensino e educação que respeitem e valorizem os frutos do conhecimento, da cultura, a injustiça social, outro determinante do recrudescimento sem precedente da violência e criminalidade em nosso país.

       Portella vê como saída para uma país melhor uma efetiva prática de políticas do Estado, i.e., não se melhora educação nem cultura se o Estado, através das esferas da educação e da cultura, em ações conjuntas, não estiver disposto a mudar para aperfeiçoar com forças concentradas em objetivos a serem atingidos com sucesso.  Por último refere a urgência de uma reforma política em todos os sentidos, a ser levada a cabo não por pelo que ele chama de “protagonistas do caos” mas pelo mais “íntegro diálogo societário.”

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