Dilson Lages Monteiro Domingo, 23 de abril de 2017
LETRA VIVA - CUNHA E SILVA FILHO
Cunha e Silva Filho
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JOSÉ RIBAMAR GARCIA: O FICCIONISTA, A LINGUAGEM E UM PASSO ADIANTE

        [Cunha e Silva Filho]

       É possível um ficcionista ,que entrou na casa dos setenta anos, ainda se sustentar ficcionalmente? É, sim, e José Ribamar Garcia não está sozinho na ficção brasileira contemporânea. Não vou citar  os autores  porque o leitor aficionado de literatura já sabe a quem me refiro. Pois é. O piauiense Ribamar Garcia põe à venda um novo livro, Leveza, só da brisa (Rio de Janeiro: Litteris Editora, 2016, 127 p., capa de Teresa Akil.) reunindo contos e crônicas, posto que a ficha de catalogação o classifique no genro de crônicas.

       Sem querer entrar em considerações genológicas, é evidente que, a rigor, a obra contém crônicas e contos. São 27 textos de extensão curta, média e até curtíssima, como é o único exemplo “Fora dos eixos” (p.29) escrita em meia página, mas longe de ser uma excrescência se  lida com a devida atenção. 

      No texto tudo faz sentido: tem personagens, a maioria animais, outros humanos, o primeiro apenas mencionado de passagem, o segundo, um idoso mal completando oitenta anos, tem espaço, tem diálogo e uma história que nos provoca uma rápida gargalhada, dado que o tom humorístico-burlesco é bem bolado soltando faíscas de ironias desabridas para um tema hoje quase tabu, diante dos movimentos de defesa da causa gay. Ainda bem que o ancião, ao comentar o homossexualismo da família, ainda brinca com a sexualidade do cachorro.Tudo no microtexto funciona, diga-se desta forma, às avessas, inclusive o relato minimalista da antropofagia de animais de espécies diferentes.

     Mas, outros temas ainda se desentranha no texto, o do meio-ambiente, do desmatamento, violência. Tudo, no entanto, relatado de uma perspectiva histriônica. Ribamar Garcia, autor de 12 obras literárias incluindo esta que ora comento, variadas em sua natureza, é um ficcionista observador arguto da alma humana, dos relacionamentos sociais e seus inúmeros conflitos, dos dramas e tragédias brasileiros, sobretudo enfocando os extratos médios e baixos da pirâmide social, em obras que o tornaram mais visível aos leitores e a uma parte da crítica literária, como o bem urdido romance Filhos da mãe gentil (Litteris Editora, 2011). Dos textos inseridos em Leveza, só da brisa, pode-se inferir uma recorrente atmosfera que permeia suas obras,seus contos, suas crônicas, seus romances, que é  a denúncia e a crítica social contra as mazelas e os desatinos a que são relegados os humildes em nossa sociedade. Observe-se,com atenção, que, no título desse volume, a vírgula empregada depois do lexema “leveza.” é determinante no significado geral da obra.

      Tirasse a vírgula, e a intenção seria outra. Quero dizer, com a vírgula o seu peso semântico desvela a camada mais profunda da ficção do autor: a dureza do viver num país com tantos problemas por serem resolvidos. Por isso, também, o lado meio solto, meio desorganizado, meio malandro, meio cínico, de uma tipo de sociedade que ainda não se caracterizou devidamente em sua identidade e é o próprio autor que, num dos textos do livro falando de sua formação intelectual. Assim, na crônica “Fora do contexto,” declara sem vacilações nem ufanismos hipócritas: [...] “o brasileiro ainda se encontra em formação, sobretudo com relação ao tipo físico e características próprias.” (p.126).

      Merecem lugar sobranceiro no volume os contos, além do mencionado “Fora do eixo”, os seguintes “Lero-lero no Galeto” (p.91-.97) e “A confidente” (p.111-113). Estes três contos, pelo que venho há tempos acompanhando as obras lançadas pelo autor e, na maioria, por mim resenhadas ou analisadas, oferecem, do ponto de vista da linguagem literária, um passo à frente que já começara no livro Em preto e branco (Litteris Editora,1995, 1ª edição e 1ª reimpressão em 2005) romance construído em dois planos narrativos, o da história narrada e o do relato paralelo de com a mesma  voz narrativa  comentando  os acontecimentos político da época da ditadura militar. no país.

    “Lero-lero” se passa num espaço restrito, um restaurante, onde, um grupo de conhecidos ou amigos, se sentava a uma mesa após um dia de trabalho a fim de espairecer as caseiras profissionais. O que mais chama a atenção da narrativa é dado polifônico em que se passa esse período de conversas descontraídas, brincalhonas, fofoqueiras, malandras, farsescas num clima de camaradagem, cuja tônica era falar de si e dos outros em meio a pedidos de cervejas e petiscos diversos.

      O que faz do conto “Lero-lero,”acima-citado, uma pequena obra-prima é o emprego do recurso do dialogismo ou polifonia, recurso, de resto, que já encontramos em Machado de Assis (1839-1908), no  Quincas Borba (1891). Esse recurso é claramente percebido pelo burburinho de vozes dos clientes que compunham o grupo em mesa de bar, com seus intervalados ou simultâneos pedidos ao garçom. A narrativa tem um ritmo frenético, reproduzindo as conversas entre os amigos nas quais não faltavam alguns palavrões para apimentar ainda mais o ambiente carnavalizado do restaurante.

    A narrativa se desenvolve  com falas de personagens longas iniciadas por um travessão. O todo da narrativa se torna, assim,  compacto, uma bem elaborada reprodução artística de como se faz habilidoso o autor para dar vozes na babel de tantas falas e contra-falas. Por sinal, no conto há uma referência sintomática a essa multiplicidade de vozes proferidas simultaneamente, sinalizada pelo sintagma “confusão-polifônica” (p. 91.)

       O conto faz parte das inúmeras narrativas de Ribamar Garcia na quais as histórias acontecem no Rio de Janeiro, enquanto outras ocorrem em Teresina, no Piauí, tanto nas áreas urbanas quanto na periferia dessas cidades. No conto “A confidente”, temos uma história estruturada em duas camadas narrativas: uma se desenvolve num diálogo com travessões em que um homem e uma mulher, sem serem nomeados, conversam sobre um possível início de namoro. Ela terminara um noivado. Ele, que alega ter uma namorada, lhe reforça que a deixou.

      Todavia, ela só lhe daria alguma chance de relacionamento amoroso quando ele desse por concluído o namoro. Na segunda camada narrativa, duas amigas, uma delas aquela que inicia a narrativa falando com o possível namorado, faz suas confidências a uma amiga, que também não vem nomeada, sobre o comportamento do rapaz interessado nela.Faz um resumo do que se passa na vida dele, da ida a um motel. Informa que ele vive com mãe em Jacarepaguá, (subúrbio da Zona Oeste do Rio de Janeiro), e que tem uma filha da relação com a ex-namorada.

         Enfim, ela está encantada com as qualidades do futuro namorado, rapaz simples, gentil, bom de cama, ou seja, tudo aquilo que era o reverso do ex-noivo. A história se desenrola, assim, alternando diálogos dos dois presumíveis jovens que se preparam para um namoro e o relato da futura namorada reportado com detalhes para a amiga.O único nome revelado, Daniel, é o do ex-noivo da futura namorada Tal recurso lembra o chamado corte de cenas de um filme moderno ou de alguns ficcionistas contemporâneos.

      A narrativa é simples, mas possui essas duas formas de relato.Os vazios de enunciação e enunciado que aí ocorrem ficam para serem preenchidos pela imaginação do leitor, tal são paradigmas os contos ”Sovina, brochante e...”(p.67-70) e, de alguma forma, o escatológico conto “A potiguar porreta” (p.71-74).

      Nos demais  contos do volume, há um caleidoscópio de temas implicados. O amor poetizado no conto “A leveza da brisa”(p.11-13), o primeiro do livro, narrativa em que o amor passageiro e delicado compete com o amor à magia e beleza do rio, que, pelas indicações de pontos da cidade, seria o Parnaíba e a cidade de Paraníba, litorânea, no Piauí,  possivelmente no início dos anos sessenta do século passado, a se ver pela alusão ao filme “Suave é a noite.”

     Neste conto, não existem nomeações de personagens. Continuam os gaps enuciativos a serem completadas pelo leitor. No segundo conto, “O batismo” (p.15-16), um pastor leva alguns fiéis até ao Rio Poti, um dos rios que banha Teresina, a realizarem uma batismo nas águas do famosos rio. Entretanto, ao  desincumbir-se de seu ofício à moda do profeta João Batista, surge um “cachaceiro” diante do pastor que, por sua vez, o chama para o ato do batismo. É aí que, no desfecho, a história, se torna hilariante.

   Ao mergulhar a cabeça do cachaceiro, o pastor lhe perguntou se ele tinha visto  Jesus. O bêbado lhe responde que não. O ato de mergulhar o cachaceiro se repetiu outras vezes cada vez mais demorando no mergulho. Foi, então, que o pastor lhe perguntou se vira Jesus. Ao que o vagabundo lhe retrucou, já não suportando o aumento do tempo do mergulho: “O senhor tem certeza que ele afundou aqui?”(p.16). Ribamar Garcia é um ficcionista cuja temática tem como recorrentes algumas questões polêmicas do cotidiano contemporâneo, além daquelas do domínio sentimental ou de outra natureza psicológica: o amor, a amizade, a traição, o erotismo, o burlesco, a frustração amorosa, entre outras. Daí que tematiza a vigarice, conto “O prêmio”. (p.27); o papel do colecionador, conto “Relíquia” (p.32); com final imprevisível e humor negro; violência urbana, conto “No morro da praia brava”(p.41-44). Neste conto, o autor me parece que, pela primeira vez em sua ficção, atualiza os seus recursos narrativos, à maneira de outros ficcionistas de hoje, mediante a inserção, sem travessão ou aspas  na fala de personagens. Igual recurso reaparece em outros contos do livro.

     Dando sequência ao temas, vemos o preconceito social, conto.”Na toada do antes”.” (p.49-51), um dos bons textos do livro; a carnavalização de um personagem, conto “O coronel”(p. 53-56), talvez um dentre os melhores contos do livro, lembrando, pelo humor, algo da ficção de Fernando Sabino (1923-2004);  tráfico, sexo, violência e tragédia, conto “Que nem galo.” (p.57-61); violência no trânsito, conto “O diabo louro”. (p.63-65); crítica à precariedade do serviço público, conto “O doutor”. (p.75-78);uma visão microscópica da corrupção nas empresas, conto “Dona Sônia e a clínica”.(p.85-90); a “flânerie” na urbe carioca, e bem assim a corrupção policial de mãos dadas com a violência independente da hierarquia militar ou civil, conto “Viessem os abutres” (p.99-105), notável narrativa pela dimensão cultural-literária focando um dia de um personagem-narrador, um jornalista, situando-o nas suas peripécias desde a hora em que acorda “com humor revirado;”

      Por último, cabe uma referência a uma bem composta crônica “De Madeiro à Boca do Forno.” (p.119-122) que combina uma crítica à politicagem populista e um recorte memorialístico, numa experiência de viagens pelo interior piauiense repassada de saudade e de lembranças tristes, como a daquela menina de treze anos, prima do autor, que quase foi vítima em tragédia em decorrência de uma descarga de um fio elétrico que caíra de um poste e no qual a menina tropeçou ao passar com um bebê no colo.

       Ribamar Garcia, com mais esta nova obra entregue ao público e aos leitores de suas obras, sai fortalecido como escritor de ficção, sobretudo porque soube, ao longo dos anos, seguir uma receita que, a meu ver, pode ser posta em prática por todos os autores que escrevem com responsabilidade: a de que somente pode produzir bem e melhor aquele que domina a técnica da arte narrativa. Tem vasta experiência dos homens e da vida, da história do seu povo e do gosto pelo que faz criando, pelo talento, personagens, situações dramáticas ou não, vidas humanas que nos levam à emoção do prazer estético, ao choro, ao riso, à indignação e a refletir profundamente sobre os mais diversos problemas enfrentados pelo espírito dos homens na Terra, notadamente na diversificada sociedade brasileira.

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