Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 29 de maio de 2017
LETRA VIVA - CUNHA E SILVA FILHO
Cunha e Silva Filho
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CUNHA E SILVA FILHO:ESCRITOR E CRÍTICO LITERÁRIO

Por Gilvaldo Quinzeiro.

O escritor, ensaísta e crítico literário Cunha e Silva Filho concedeu uma entrevista a Sky Culture e-Magazine. Nesta entrevista, Cunha e Silva Filho, que também é Pós-Doutor em literatura brasileira, fala, além do seu mais recente livro; de Ferreira Gullar, Adailton Medeiros, da literatura piauiense e da atual conjuntura política brasileira. Cunha e Silva Filho é piauiense de Amarante, mas hoje reside no Rio de Janeiro.

Confira a entrevista. Sky Culture e-Magazine:

Quem é Francisco da Cunha? Fale-nos também da sua atividade cultural.

Cunha e Silva Filho:

           Sou um escritor nascido em Amarante, Estado do Piauí, que, atualmente, vive de escrever sobre gêneros diferentes: crônicas, ensaios, crítica literária, resenhas, traduções de poesia, memórias e temas relacionados à política nacional e internacional. Uso o nome literário Cunha e Silva Filho na minha produção acadêmica e fora da academia. Por influência paterna, fui, ainda adolescente, levado a escrever sobre literatura em jornais de Teresina, capital do Estado do Piauí. Em 1964, deixei Teresina para estudar Medicina no Rio de Janeiro, mas logo mudei meus planos e decidi ingressar no curso de Letras (Português-inglês) da antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje UFRJ.

          Paralelo a isso, continuava a enviar artigos para jornais de Teresina. Ingressei por concurso de provas e títulos no magistério municipal e estadual do Rio de Janeiro, lecionando português, literatura brasileira e inglês. Mais tarde, voltei à Universidade Federal do Rio de Janeiro para fazer Mestrado em Literatura Brasileira, em seguida, Doutorado em Literatura Brasileira e, finalmente, Pós-Doutorado em Literatura Comparada. Fiz novamente concurso de provas e títulos para a disciplina de língua Inglesa do centenário Colégio Militar do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, fui lecionar Literatura Brasileira e Língua Inglesa no curso de Letras e de Comunicação e Jornalismo da Universidade Castelo Branco, Rio de Janeiro. Foram longos anos de magistério médio e uma década de superior. Atualmente, estou aposentado da atividade docente, mas, sempre que possível, publicando livros, prefácios, traduções, crônicas, artigos em blogs, sites, jornais e revistas culturais .

Sky Culture e-Magazine: Qual o seu gênero literário? Quais obras publicadas?

Cunha e Silva Filho:

       Segundo afirmei na pergunta anterior, utilizo mais de um gênero literário na minha atividade escrita.. Além de outros livros coletivos, tenho as seguintes obras publicadas: Da Costa e Silva: uma leitura da Saudade. Teresina: Academia Piauiense se de Letras/ Universidade Federal do Piauí, 1996; As ideias no tempo (Teresina: Gráfica do Senado Federal/Academia Piauiense de Letras, 2009); Breve introdução ao curso de Letras uma introdução (Rio de Janeiro: Litteris Ed: Quártica, 2009); Apenas memórias (Rio de Janeiro: Quártica, 2016). Por outro lado, devo assinalar que disponho de um vasto número de textos publicados em jornais, revistas no meu Blog “As ideias no tempo” e no site de literatura “Entretextos”, coluna “Letra Viva”, que, organizados, me renderiam pelo menos mais alguns livros.

Sky Culture e-Magazine: Atualmente, o Senhor está se dedicando a escrever algum livro? Se sim, fale-nos um pouco a respeito. Tem previsão de lançamento?

Cunha e Silva Filho:

        A par dos livros publicados referidos atrás, tenho quase prontos, faltando apenas organização final, as obras: As duas face da literatura: ensaios de literatura brasileira), Poemas traduzidos, Ensaios de literatura de autores piauienses, Poliedro de insânias (crônicas e artigos). Pretendo também publicar Tese de Doutorado, de título O conto de João Antônio: na raia da malandragem, meu ensaio de pesquisa de Pós-Doutorado, de título Álvaro Lins e Afrânio Coutinho: dois críticos e uma polêmica (2014). Não obstante estar escrevendo sempre no meu Blog “As ideias no tempo” e no site “Entretextos”, direção do escritor Dílson Lages, coluna ”Letra Viva,” alguns textos postados nesses dois espaços virtuais são postados também no site www.academia.edu., - Francisco da Cunha e Silva Filho. Obviamente, todos os livros inéditos já referidos estão esperando para serem editados.. Não sei se serão editados. Por outro lado, nutro o desejo de escrever mais ensaios sobre literatura brasileira ou mesmo de literatura estrangeira, assim como continuar fazendo mais traduções de poesia. Não vou parar por falta de editores. Ficaria, sim, regozijado se essas obras viessem à luz. É impensável a ideia de parar de escrever, que é o que conta para qualquer escritor.

Sky Culture e-Magazine: Como o Senhor vê a atual produção literária brasileira? Há algum autor ou obra que o Senhor destacaria?

Cunha e Silva Filho:

       O país está em crise financeira, porém, apesar disso, a literatura continua sendo produzida e muito, seja custeada pelos autores, seja editada pelo mercado, instituições culturais, convênios, fomentos, editoras universitárias e outros meios, dentro os quais os blogs, os e-books, os sites. Sei que o número é grande,  no entanto, posso afirmar ser, em muitos autores,  de alta qualidade. .Os autores se multiplicaram por toda a parte do país.

     São muitos e muitos jovens escritores com projetos de manter-se em atividade, seja na ficção, na poesia, no ensaio. Nesta entrevista, vou puxar a brasa para a minha sardinha. No Piauí, por exemplo, estamos assistindo a uma movimentação intensa e jamais vista de novos autores, poetas, romancistas, contistas, ensaístas e críticos literários. Muitos deles incursionam por mais de um gênero literário. Este impulso formidável que os autores piauienses tiveram deveu-se, em grande parte, à criação das universidades federal, estadual e privada, espalhando-se por campi fora da capital e aumentando, desta maneira, o número de alunos que ingressam no ensino superior e, por consequência, aumentando o quadro de professores contratados ou concursados, muitos vindo até de outros Estados brasileiros. Ademais, com a criação local de cursos de pós-graduação lato sensu e stricto sensu, a melhoria da qualidade do ensino se fez notar com o tempo.

     Outro fator determinante do avanço no campo da literatura piauiense foi o surgimento de editoras locais que começaram a editar livros dos autores piauiense, tanto obras literários quanto ensaios e, em menor número ainda, livros didáticos para o ensino médio e universitário. Citaria, por exemplo, da atualidade os poetas Luiz Filho de Oliveira, Nathan Sousa, o ficcionista Rivanildo Feitosa, o contista Milton Borges, o ficcionista, poeta e ensaísta Dílson Lages Monteiro, o ficcionista e ensaísta Halan Silva, as ensaístas Terezinha Queiroz, Raimunda Celestina Mendes da Silva, os poetas e ensaístas Wanderson Lima, Ranieri Ribas, o poeta Adriano Lobão, o ensaísta João Kennedy Eugênio, a romancista Socorro Abreu, a ficcionista Lara Larissa, o contista Geovane Fernando Monteiro, o poeta, cronista e jornalista Zózimo Tavares, o poeta Élio Ferreira de Sousa, entre os mais moços ou pouco menos moços..

     Dos mais velhos ou menos velhos podem ser nomeados o veterano e nacionalmente respeitado Assis Brasil, romancista notável, crítico literário, historiador da literatura brasileira, dicionarista teórico, autor didático da literatura brasileira, com vários livros de literatura infanto-juvenil, o ficcionista O. G. Rego de Carvalho, o romancista Fontes Ibiapina, o contista Magalhães da Costa, o ficcionista e ensaísta Esdras do Nascimento, o ficcionista Castro Aguiar ( infelizmente, abandonou a carreira literária), o contista, romancista e memorialista José Ribamar Garcia, o ficcionista e crítico literário Humberto Guimarães, a romancista Rita de Cássia Amorim Andrade, o romancista Homero Castelo Branco (também memorialista), o romancista, dicionarista literário, historiador, autor didático, poeta, contista E cronista Adrião Neto, o ficcionista Oton Lustosa, a contista e romancista, Rosa Kapila, entre outros.

        Dos poetas menos novos, contudo ainda não velhos, mencionaria, entre outros, Herculano Moraes (também poeta e conhecido historiador literário), o poeta e cronista e divulgador de autores mais novos Cineas Santos, Elmar Carvalho (também ficcionista, cronista, contista e memorialista), o poeta, teatrólogo e divulgador cultural Virgílio Queirós,o poeta, contista e ensaísta José Bezerra Filho, o poeta, ensaísta, crítico literário e historiador literário Alcenor Candeira Filho, o poeta tropicalista Torquato Neto, Rubervam Nascimento, Carlos Alberto Gramoza, Paulo Machado, Carvalho Neto, a poeta Graça Vilhena, o incansável pesquisador cultural Kenard Kruel, entre muitos outros autores dignos de estudos

       Entre os mais velhos ou não tão velhos, ainda se encontram em atividade, maior ou menor, o ensaísta (geralmente de viés filosófico), jurista e memorialista Celso Barros Coelho, o crítico literário M. .Paulo Nunes, o jornalista e ensaísta Carlos Said (incansável divulgador da literatura piauiense), o ensaísta, poeta e ficcionista Francisco Venceslau dos Santos, o ensaísta Fabiano de Cristo Rios Nogueira, o ensaísta Jose Carlos de Santana Cruz, a ensaísta Maria do Socorro Rios Magalhães, a ensaísta Maria Gomes de Figueiredo dos Reis, o ensaísta, ficcionista, cronista, e autor didático sobre língua latina, Carlos Evandro Eulálio (grande estudioso do poeta Mário Faustino) o poeta e ensaísta Hardi Filho (falecido não faz muito tempo), o poeta, cronista, contista, romancista, crítico literário e historiador literário Francisco Miguel de Moura, entre outros. Quanto a novos ou menos jovens autores que já foram consagrados nacionalmente, a minha primeira intenção era não mencionar nenhum por enquanto, já que parte das minha pesquisas se volta mais para autores mais velhos, bem velhos ou já falecidos. Contudo, entre os novos e um pouco menos novos, a literatura brasileira pode contar com um grande número de nomes já com sucesso ou a caminho do sucesso.

         Entretanto, para não dizer que não mencionei alguns autores com maior reconhecimento nacional na ficção, teríamos, entre outros, os nomes Godofredo de Oliveira Neto, romancista e ensaísta, Bernardo Carvalho, João Gilberto Noll, Milton Hatoum, Luiz Rufatto, Patrícia Melo, Michel Laub, Marcelino Freire, Ana Miranda, Cristovão Tezza, Paulo Lins, Adriana Lisboa, entre muitos outros que aí estão experimentando novas linguagens, novos temas, novos desafios e caminhos para a literatura brasileira. Na poesia, sendo a quantidade de autores muito grande, novas vozes poéticas se cruzam com vozes mais experientes num profusão de nomes, muitos bons ou ótimos, outros apenas desejosos de parecerem poetas mas que não trazem nenhuma novidade nem originalidade a seus versos.

       Contudo, podemos pensar em nomes como os de Alexei Bueno, Armando Feitas Filho, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Glauco Mattoso, Paulo Leminski, Torquato Neto, Bráulio Tavares, Francisco Alvim, Geraldo Carneiro, Chacal, Sebastião Uchoa Leite, Lélia Coelho Frota, Nelson Ascher, Ivan Junqueira, Adélia Prado, Bruno Tolentino, Regis Bonvicino, Paulo Henrique Britto, Duda Machado, Age de Carvalho, Salgado Maranhão, Eucanaã Ferraz, e tantos outros poetas, cada qual fazendo a sua própria caminhada poética e indiferentes aos antigos grupos, manifestos, teorias poéticas, novas vanguardas, quer dizer, uma poesia que pode permanecer a despeito de marcos temporais, além dos ismos. Porém, sem perder o pé consciente no legado da tradição literária constituída pelos grandes poetas brasileiros do passado, tradição esta que, por sua vez, está associada à grande tradição literária universal, sobretudo do Ocidente..

Sky Culture e-Magazine: Recentemente perdemos o poeta Ferreira Gullar, sobre o qual o Senhor escreveu. Qual a importância de Ferreira Gullar? O que significa a morte de Ferreira Gullar para a literatura brasileira?

Cunha e Silva Filho:

        Depois de alguns livros consagrados (A luta corporal, O poema sujo) pela crítica especializada, o poeta Ferreira Gullar, no meu juízo, passou a ser conhecido nacionalmente por dois motivos fundamentais: o primeiro motivo por ter sido o principal teórico e mentor do chamado movimento neoconcretista (1959) da poesia brasileira; que foi a dissidência diante do Concretismo de 1956, quando retomou para a poesia a valorização do discursivo e não do meramente vanguardismo subversor do verso de corte tradicional da geração de 45. O geometrismo, o espacialismo, a atomização ou desarticulação vocabular, o trinômio verbo-voco-visual concretista já apresentava o desgaste desse tipo de poesia espácio-visual-semântico, que - não se pode omitir este fato -, deixou algumas marcas, sobretudo, no espaço da página em branco das formas poéticas que se lhe seguiram.

          Gullar soube discernir uma forma de poesia renovadora que poderia dar certo sem se submeter aos poemas gráficos e geométricos. Não se poderia permanecer indefinidamente imitando o espaço branco da página lembrando formas figurativas, tipográficas. A poesia é também sintaxe, sentido e vida. Alia as formas de desvios semânticos, sonoros e rítmicos, sem necessariamente ficar presa ao visual-espacial-geométrico. O que importa é o poema bem realizado e esteticamente inovador. Daí também ter sido Gullar um crítico ácido a tudo aquilo que, nas formas da pintura, por exemplo, ou nas artes plásticas em geral, se apresentasse ao público como objeto artístico, como obra de Arte, como foi o exemplo do urinol e Marcel Duchamp exibido no Salão dos Independentes em Nova Iorque (1917).

         O segundo motivo fundamental na sua atividade de escritor, de crítico de arte e de cronista se assenta na sua visão política, a qual sofreu igualmente um processo de mudança, de um esquerda na mocidade, passou a ser, na maturidade e velhice, um crítico corrosivo e implacável da esquerda brasileira, mas sem aderência e submissões aos exageros e danos do capitalismo selvagem ou às falácias de uma direita contra qual também dirigiu sua crítica e desta mostrou seus erros e vícios crônicos sempre com coragem e uma certa rebeldia. Que tanto me agradavam como leitor cativo de sua crônicas. Não houve nele retrocesso nem no campo ideológico nem no das artes em geral. Talvez, conforme insinuou na última crônica tratando da questão da arte publicada na sua coluna de domingo da Folha de São Paulo, estivesse esperando por uma nova arte, uma nova linguagem, não simulacros ou contrafações sem valor algum do prisma artístico.   Procurou a beleza das formas bem arquitetadas, sem, entretanto, negar a tradição, que ensina, e sem se render à mesmice no domínio do poético.

Sky Culture e-Magazine: O Senhor foi amigo do poeta Adailton Medeiros? O que o Senhor tem a nos dizer sobre Adailton Medeiros?

 

Cunha e Silva Filho:

         Francamente, diria que conheci o poeta Adailton Madeiros, nascido em 1938, em Angical, Caxias, Maranhão, mais do ponto de vista da amizade do que mesmo como poeta lido em profundidade.. Era meu intento pelo menos estudar sua poesia em trabalho de maior fôlego. O que li dele como poeta e como ensaísta foi suficiente para reconhecer-lhe os méritos.). Adailton Medeiros se distinguia também como um dicionário ambulante da vida literária brasileira. Conhecia os bastidores de muita gente, sobretudo dos mais velhos da vida literária nacional.

        No entanto, sua participação nos movimentos de vanguarda se deu por ter aderido ao movimento poesia-práxis (ou praxismo) proposta poética revolucionária que, a partir de 1962, ano de seu aparecimento, no geral, se opôs a todo o passado da poesia brasileira, sem, é claro, descartar alguns traços das outra vanguardas precedentes. Seu teórico maior foi o poeta Mario Chamie, com o livro-chave do movimento Lavra lavra (1962) Sua orientação teórica se fez em torno da revista Práxis, a qual publicava os poemas do grupo.. Como o Neo-concretismo, teve viés social e popular. Aproveitou as contribuições advindas dos mass media, mas recusa a armadura mecanicista do Concretismo.. Emprega amiúde os vocábulos dispostos em forma de linhasignos (ou linossignos), os recursos da teoria da informação.

         Seus poemas,visualmente, procuram uma disposição gráfica do poema numa leitura horizontal, vertical, cruzada, necessitando para tanto da colaboração do leitor. A poesia-práxis não subestimou o valor do verso, da semântica.Assim, não perdeu seu valor estético, emotivo, significativo e humano..Adaílton Medeiros publicou os seguintes livros de poesia: O sol fala aos sete reis das leis das aves ( (1972); Cristó-vão Cristo: Imitações (1976); Lição do mundo ( Rio de Janeiro: Edição-7, 1992); Bandeira vermelha ( Editora Caetés, 2001), Poema Ser Poética e mais  oito Pré-Textos ( Rio de Janeiro:  Achiamé, 1982), com introdução de Francisco Venceslau dos Santos.. Em prosa: Braçadas de palmas (discurso, 1981), Floração de Minas (discursos, 1982), Quatro ensaios, in SAMUEL, Rogel. (org.). Literatura básica. Petrópolis,RJ.: Vozes, 1985, v.1)

      Na ficção: escreveu a novela Revoltoso Ribamar Palmeira (Rio de Janeiro: Matacavalos, 1978). Da sua biografia intelectual é curioso acrescer que Medeiros escreveu em poesia sua dissertação de Mestrado, sob o título Poema Ser Poética e mais oito Pré-Textos submetida à Faculdade de Letras da UFRJ e e por esta aprovada  (Rio de Janeiro:Achiamé, 1982), introdução de Francisco Venceslau dos Santos. Dele verti para o inglês um poema “Sinos,” .extraído do livro Bandeira vermelha (p.78) atrás mencionado. A minha versão foi, posteriormente, publicada na IX Antologia internacional palavras no 3º milênio (São Paulo: Phoenix Editora, 11, Homenagem póstuma, 2010).

Sky Culture e-Magazine: O Senhor esteve recentemente no Piauí, fazendo o lançamento do seu mais recente livro. Fale-nos desse lançamento e do seu livro.

Cunha e Silva Filho:

        O livro em consideração tem o título de Apenas memórias 1.ed. (Rio de Janeiro: Quártica, 2016, 304 p.). O seu lançamento, primeiro, se deu no Rio de Janeiro, depois, o lancei em Teresina, Piauí. Foi um lançamento festivo, em memorável noite de autógrafo, com amigos, escritores e familiares com direito à entrevista concedida ao jornal Diário do Povo, Teresina, Piauí, e entrevista filmada concedida ao jornalista e ficcionista Rivanldo Feitosa da TV Meio-Norte.

        A apresentação do meu livro ficou por conta do escritor Dílson Lages Monteiro, que escreveu uma substancial introdução lida num momento do lançamento. Foi o terceiro livro que lancei em Teresina. A obra dá conta de considerável parte das minhas memórias, desde os primeiros anos da minha infância em Amarante, depois relatos do final da infância da adolescência em Teresina até à minha mudança para o Rio de Janeiro a fim de cursar uma universidade. Nessas memórias, que não são rigorosamente cronológicas, repasso aos olhos do leitor como se deu a minha formação intelectual, iniciada em Teresina e continuada no Rio de Janeiro.

         O mais importante nas memórias foi traçar os tumultuados e aflitivos anos dos meus estudos de Letras na UFRJ realizados durante a ditadura militar enfrentados com coragem, determinação e vontade de sair vitorioso. A minha vida pessoal, em alguns lances que alvitrei escolher como fundamentais ao relatos na obra, adquire toda uma carga de emoção, momentos engraçados e situações desagradáveis, relatos escritos com passagens às quais pudesse imprimir um clima poético com o objetivo de não entediar o leitor com textos demasiado áridos.Suponho que alcancei meus objetivos e oxalá que o leitor tenha fruído com prazer o meu texto.

        Elaborei a obra me utilizando de relatos novos de mistura com textos já publicados em jornais do Piauí, no meu Blog “As ideias no tempo” e em sites que republicavam os textos. Basicamente, pois, é tudo isso que reuni num volume misturando passado presente e futuro. Acredito que o saldo foi positivo, principalmente porque, num estreito círculo de leitores e amigos, o livro mereceu elogios e, até agora, sobre ele saíram quatro resenhas da obra feitas por três especialistas em Literatura. e uma por um experimentado jornalista piauiense. Confesso que Apenas Memórias foi um dos livros que, até à data presente, mais me deu prazer de escrever e organizar.

Sky Culture e-Magazine: O Senhor escreve também sobre política. Como o Senhor ver o atual momento político do Brasil?

Cunha e Silva Filho:

           Não é que desprezo a política brasileira, mas, quando sobre ela medito, só vejo à minha frente um cenário sombrio, desesperador, onde campeia sobretudo, além da politicagem, o grave problema da corrupção que ronda quase cem por cento dos políticos, não só dos que estão em Brasília, mas em cada Estado da Federação. Por isso, só posso admirar o que a Operação Lava Jato tem feito a fim de punir efetivamente e afastar de nossa vida pública os maus governantes, os ladrões que infestam o nosso sistema político e os nossos governos. Por tais motivos é que meus artigos têm, em geral, um cunho polêmico, rebelde, satírico, irônico.

          Não poderia ser de outra forma, já que estão aos olhos perplexos dos cidadãos de nossa Pátria as marcas de desgoverno e da alta corrupção de que foi vítima a sociedade brasileira, pelo menos, de uns quinze anos até à data presente. Sinto, todavia, um pouco de alívio quando os políticos, com todos os seus defeitos e com todo um comportamento censurável, depuseram a Sra. Dilma Rousseff do poder e praticamente liquidaram com a hegemonia do lulopetismo que não podia mais governar o Estado Brasileiro.

       Vejo o novo governo Temer, a despeito de nele ainda persistirem políticos que apoiaram o lulopetismo, com a chamada base aliada do PT, com alguma esperança de que os atuais ocupantes do poder repensem os malfeitos e procurem vias de soluções democráticas com uma nova forma de governar menos contaminada de falcatruas e desídias tão recorrentes durante a era petista. Só espero que as mudanças que deseja implantar o novo governo não prejudiquem a geração de jovens que ingressaram e ingressam no mercado do trabalho e no setor público.

      No plano internacional, tem sido um objetivo primacial dos meus artigos denunciar os crimes cometidos por ditadores no mundo inteiro, chamar a atenção dos organismos internacionais responsáveis pela segurança dos povos oprimidos, das nações que não respeitam sua sociedade civil, de governos que cometem atrocidades em guerras civis que ceifam milhares de inocentes pelo mundo afora.Enfim, pelo uso da palavra, continuarei a deblaterar  contra  os crimes contra a liberdade de expressão, contra o terrorismo mundial, contra os genocídios praticados em pleno século XXI, contra os preconceito de toda espécie, ou seja, meus artigos visam ao desejo de ver o mundo, quer ocidental, quer oriental, com mais harmonia, paz e prática do humanismo – único caminho para se evitar o mal maior a que repugna a consciência dos homens de bem em qualquer parte e em qualquer época.

Sky Culture e-Magazine: Deixe o endereço do seu blog ou site, caso tenha para que os nossos leitores possam acessar.

Cunha e Silva Filho:

Meu blog : “As ideias no tempo”

Sky Culture e-Magazine: Faça as suas considerações finais.

Cunha e Silva Filho:

      Quero agradecer ao entrevistador, escritor Gilvaldo Quinzeiro, pela oportunidade que me propiciou a falar um pouco da minha vida de escritor e de outras facetas resultantes dessa atividade que requer tanto desprendimento e tremendos sacrifícios num pais onde é espinhoso um intelectual conseguir, hoje mais do que no passado, ser visível, sobretudo quando não pertence a grupelhos, igrejinhas ou nichos que, em cada época, tornam mais dificultosa a penetração de alguns autores nos meios editoriais mais mobilizados para os lucros em produções que estejam afinadas com os vários tipos de obras de qualidade, muitas vezes, duvidosa. Não obstante todos esses percalços enfrentados pelo escritor brasileiro, ele não desiste. Sua afirmação como produtor de obras literárias ou de estudos teóricos e críticos se situa acima das mesquinharias próprias do ser humano.

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