Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 27 de junho de 2017
LETRA VIVA - CUNHA E SILVA FILHO
Cunha e Silva Filho
Tamanho da letra A +A

A REGRA E AS EXCEÇÕES

 

 

 
 
                                             Cunha e Silva Filho
 
   Alguém, de forma consciente, acredita ainda em  políticos  tupiniquins, sobretudo agora com  a declaração gravíssima   do delator Joesley Batista, um dos donos da JBS, contra o  presidente Michel Temer, posto que venha de um empresário  que enriqueceu, ilicitamente,   às custas do Tesouro Nacional, ou seja, através de empréstimos vultosos feitos  ao BNDES e a outras instituições financeiras públicas?
    Claramente que não. Quando a maioria  é indecente, corrupta, venal,  cínica, a minoria,  bem minoria mesmo, será o bode expiatório e, assim,  apagará o brilho  daqueles que seriam considerados as raras exceções à regra. E com uma agravante,  os supostos bons políticos, como continuam nos seus mandatos,  percebendo os mesmos salários e mordomias  comuns,   seguem lutando contra  moinhos de vento,  como se não existissem.  
   Fazem papel  de coadjuvantes no cipoal  da avassaladora corrupção geral, de atores   que estão “em cima do muro,” cuja  posição  de adversários não vale um grão de areia de deserto.  Suas críticas de nada valerão  junto aos seus pares e adversários e tudo  continuará  no mesmo  lugar  de sempre. São figurinistas  da encenação e da farsa, são úteis  para que se possa dizer:  “Mas esses poucos são bons e nem tudo está perdido”. E, desta  forma, a política continua o seu jogo de espelhos  imoralmente  invertidos  e daninhos  à sociedade  que  os sustenta com corrupção ou sem ela.
    Já se comparou  a leitura de jornais a um novela, em que o leitor, cada dia,  lê parte de um  capítulo que o deixa naquela  situação  de expectativa do que vai  acontecer  na cena  de um final  de um capítulo, à semelhança dos folhetins do século  XIX, que tanto sucesso  tiveram  na França com Eugène Sue (1804-1857)  e, no  Brasil, com obras de  Teixeira de Sousa (1812-1812),  de José de Alencar (1829-1877),  Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) e outros autores de maior ou menor qualidade  literária.
   Os jornais,  são esses folhetins, só que diários e não semanais. Por essa razão,  é que não se pode afastar da leitura de jornais, revistas impressas ou  virtuais. Perdendo a ordem  linear das noticias,  reportagens e  entrevistas  publicadas, perde-se  o fio de Ariadne no labirinto  das informações  e contrainformações em  tempos de pós-verdades.
   Desde os tempos do primeiro  grande  escândalo de corrupção na política  nacional, denominado o “Escândalo do Mensalão,”  envolvendo o PT, os jornais passaram a destinar     várias  de suas  páginas tendo por títulos o já mencionado e outros que se lhe seguiram, o   Escândalo do Petrolão,”  com a “Operação Lava-Jato,” e, agora,  no jornal Globo, o sintomático  e ominoso “A República Investigada.”
    Percorrer as páginas sob  essas rubricas   é penetrar num espaço público  de nossas instituições, máxime,  as  de natureza política,  em que fatos escabrosos são postos diante de nossos olhos  indignados  com tanta  imoralidade, com algumas prisões  e ainda com a expectativa de novas  investigações,  denúncias e possíveis  prisões ou afastamento  de   políticos de suas funções ou mandatos.  
     O labirinto, como  se vê,  é intrincado  demais  dado que suas ramificações   se estendem  a outros poderes da República.   Talvez nem um Teseu ressuscitado, com o auxílio do fio de Ariadne, tenha  fôlego suficiente para vencer  as  muitas dificuldades  antes de matar o Minotauro da corrupção  brasileira gerada  criminosamente por políticos  mancomunados com empresários  desonestos  e sem  espírito  público algum.  Mais do que arranhada, a imagem do político estraçalhou-se de vez e sua recuperação  vai demorar muito mais do que  possamos  imaginar.
     Politicagem sempre houve no espaço público, mas é no  país de hoje que  ela atingiu seu ponto mais  alto  de desmoronamento  ético. Quem imaginaria que, na história da política  brasileira um  governador  se revelasse  um malfeitor   do erário  público,   quase destruindo por completo  um dos  mais importantes Estados  da Federação? Quem hoje seria capaz de elogiar  o  Rio de Janeiro (capital e Estado) nos setores  vitais   do governo: educação,  saúde,  transporte e  segurança? O que governos   corruptos federais  fizeram nos últimos quinze anos contra a sociedade  e seus setores vitais, fez também  o   Sr. Sergio Cabral. 
   O rolo compressor  da altíssima  corrupção ativa e  passiva do governo  federal, assim como do governo  do Estado do Rio de Janeiro, ficará como o marco mais espúrio  da História do Brasil contemporâneo e será a prova mais evidente de quão nociva a uma sociedade  pode  ser  uma Nação cuja maioria de  políticos não paute suas ações segundo  os princípios da dignidade de seu cargo  e de suas ações em defesa da coletividade.
       E aqui não podemos nos furtar  à uma  analogia  entre o país  esmagado  pela  desonestidade  política  e   o espaço do universo da bandidagem em todo o  território nacional. Tanto num caso quanto noutro, não há diferenças  de caráter nem de postura. Um e outro se confundem, não se diferenciam  no que concerne ao grau de maldade  e de prepotência   que os igualam ignominiosamente.
       

 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

23.06.2017 - ONDE LOCALIZAR A CRISE BRASILEIRA?

18.06.2017 - A REGRA E AS EXCEÇÕES

15.06.2017 - HOJE É CORPUS CHRISTI, SIM, SENHOR

11.06.2017 - UM PINGO NO OCEANO

06.06.2017 - SOBRE O BRASIL ATUAL: ALGUMAS INDIGNAÇÕES

02.06.2017 - O Olho mortal: das aventuras a outras questões

27.05.2017 - A questão da pós-verdade e suas consquências danosas à ética individual e coletiva do mundo globalizado.

13.05.2017 - História de Évora: uma ficção de erotismo, amor e saudade

08.05.2017 - Tradução de um poema de Félix Maria Samaniego (1745-1801)

10.04.2017 - A MEDIDA QUE FAZIA FALTA

28.03.2017 - VOLTO AO ASSUNTO: A CRIMINALIDADE BRASILEIRA

22.03.2017 - AVIDEZ PELO DINHEIRO, FALTA DE ÉTICA E SOLUÇÕES VIÁVEIS PARA O BRASIL

15.03.2017 - POR QUE SÓ AGORA?

06.03.2017 - VERDADE E PÓS-VERDADE NA POLÍTICA COM REFLEXOS NAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS E CULTURAIS

01.03.2017 - Tradução de um poema de Auguste Angellier (1848-1911)

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

27.06.2017 - Consciência de Classe - György Lukács - Capítulo V

Consciência de Classe - György Lukács - Capítulo V

25.06.2017 - Histórias de Évora em dois bilhetes internéticos

vc me fez reviver um passado bem parecido, cheio de brincadeiras, namoricos, cachaçadas, festas, incursões aos saudosos lupanares e demais entretenimentos de nossos tempos de antanho.

25.06.2017 - A DIMENSÃO DO MAR

A DIMENSÃO DO MAR

24.06.2017 - Encontro com Sophia de Mello Breyner

Encontro com Sophia de Mello Breyner

23.06.2017 - ONDE LOCALIZAR A CRISE BRASILEIRA?

Fala-se, em toda

21.06.2017 - Uma tarde na Fazenda Não me Deixes

Uma tarde na Fazenda Não me Deixes

20.06.2017 - ROGEL SAMUEL: BREVE MANUAL DE DIDÁTICA GERAL

Por que a didática geral?

19.06.2017 - Vozes da ribanceira

O autor escreve sobre o romance Vozes da ribanceira, do acadêmico Oton Lustosa.

19.06.2017 - Psycho Pass episódio 6: Akane confronta a crueldade humana

Prosseguindo a guia de episódios do seriado de ficção científica "Psycho Pass" chegamos ao chocante sexto episódio, onde Akane enfrenta uma esquartejadora.

19.06.2017 - Lançamento em Parnaíba de Histórias de Évora e A Menina do Bico de Ouro

O SESC convida para o lançamento de Histórias de Évora e A Menina do Bico de Ouro em Parnaíba

18.06.2017 - A REGRA E AS EXCEÇÕES

Alguém, de forma

16.06.2017 - Cruzando os Mares

A Bordo de um Cargueiro

16.06.2017 - Ariano e a estética do Não Foi Bem Assim

Essas coisas são inventadas por heróis picarescos, gente que para fugir da fome tem que remar o dia todo, a vida inteira.

16.06.2017 - Livros e raparigas

Um dia destes, em conversa com a mulher de um jornalista, escritor e (grande) tradutor brasileiro, falávamos de Os Desastres de Sofia e da famosa colecção Biblioteca das Raparigas

16.06.2017 - A gênese de nossa criação literária

A base de nossa criação literária fundamenta-se, portanto, na tentativa de fundir memória, imagem e sensação.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br