Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
JANELA PARA A CRÔNICA
Antônio Francisco Sousa
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NEM SEMPRE A CULPA É NOSSA

     De certo modo, hoje, parece até cômodo atribuirmos qualquer culpa quanto a assuntos envolvendo, direta ou indiretamente o meio ambiente, ao homem. É fácil afirmamos que, graças a isto, em virtude de aquilo que fazemos ou deixamos de fazer, o planeta não vem funcionando como deveria.
     Interessante, até nessas circunstâncias, há uma clara demonstração de egoísmo, ou melhor, de egocentrismo de nossa parte: estamos tirando dos demais seres que conosco convivem a possibilidade de eles, de alguma forma, também serem considerados causadores ou responsáveis, solidários ou não, por problemas que afetam a todos. Na verdade, ao tomá-los por incapazes de agirem ou se defenderem, é como se lhes estivéssemos negando a própria existência e, assim, qualquer importância. A contradição no que tange a essa hipótese reside no fato de que, não resta dúvida de que admitimos que existem vidas além da humana, e são essas outras formas ou espécies de existência que não respeitamos devidamente.
     Para sermos coerentes uns com os outros e leais aos companheiros de estada por aqui, devemos nos colocar no local que merecemos e que, como não poderia deixar de ser, é um lugar de destaque: nós somos, por enquanto, os principais habitantes do planeta terra, sob quaisquer níveis de observação. Senão vejamos. Do mais simplório: quem, além do homem, diversifica o modo de preparar o próprio alimento? Ao mais específico: quem mais é capaz de construir incontáveis canais ou vias eficientes de comunicação, locomoção e proteção? Se convivendo com o homem os outros animais e vegetais correm perigo, sem ele não seria tão diferente. A natureza não se vinga nem tenta agradar ninguém: ela nem reage, age, e pronto. Interferimos em seu trabalho? Há controvérsia. Não dá para negar que ou atenuamos ou acentuamos algumas consequências de sua ação: quando lhe queremos tolher a liberdade; quando tentamos obstar seus intrínsecos e espontâneos movimentos. No mais, ela cuida de seus ciclos sem tomar conhecimento de que existimos.
     Não é minha intenção travar, com quem quer que seja, qualquer disputa filosófica, mas, nesse recente e catastrófico episódio natural ocorrido em plagas nipônicas, não fosse o resultado patente e visível do trabalho do homem, as consequências dele teriam sido ainda mais implacáveis e devastadoras. Mesmo agindo como benfeitor, foi o elemento humano o principal prejudicado. Não estivesse ele naquele lugar e os tufões, os furacões, os terremotos, os tsunamis, em muito maior intensidade, certamente, castigariam a região e os integrantes do meio ambiente local.
     Nem tudo de ruim – se é que estamos adjetivando coerentemente mau e bom – que é feito sobre e na terra tem a participação direta da mão ou da inteligência do homem: diante da força da natureza, dificilmente, não seremos vítimas. E é nessa condição de vítimas voluntárias que se colocam os que sabem e conhecem os perigos a que sempre estarão sujeitos os que habitam territórios como o onde está situado o Japão. Não por ser causador, mas por estar no local errado, o japonês, inescapavelmente, pois que palpáveis e inevitáveis serão elas, recebe as traulitadas que se lhe sobrevêm naturalmente. Age, nessas circunstâncias, masoquistamente? Não. O que lhes falta em segurança natural, eles têm em perseverança, disciplina, paciência. Mesmo habitando um pedaço de terra sabidamente instável, aquele povo conseguiu solidificar uma cultura magnífica; foi capaz de construir um poderio econômico incomensurável e de forma extraordinária, eis que seu deslanche ocorreu depois de uma grande catástrofe, não natural, mas provocada pela intransigência do homem.
     Enfim, por mais que muitas vezes nos sintamos assim, não somos onipotentes; logo, nem sempre pelo mal que é perpetrado ou pelo bem que é feito à natureza e ao meio ambiente, a culpa ou a responsabilidade nos cabe.
     Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (antonio_fcs@hotmail.com) e escritor piauiense

 

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