Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 24 de maio de 2013
JANELA PARA A CRÔNICA
Antônio Francisco Sousa
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FESTA DE RATO

     A festa de rato, gato não é bem-vindo. Em festa de político, correligionário vira inimigo e amigo adversário; inimigo, por outro lado, em certos casos, passa a ser convidado especial. Racionalmente, poder-se-ia entender esse disparate como aceitável, haja vista ser o homem um animal inteligente e, portanto, passível de mudar de opinião. Para o rato, que não tem inteligência, por conseguinte, não compreende tais leis, naturalmente, amigo é amigo e inimigo, inimigo; algo que, se não puder ser eliminado, precisa ser evitado.
     A reuniões políticas, como às festas de rato, invariavelmente, comparecem, além dos amigos chegados, de perto, que dividem as alegrias e os afazeres diários, os ausentes, de longe, os aproveitadores, aqueles que não dispensam boca livre.
     Dizem que a política praticada pelos seres inteligentes é uma espécie de arte. Se engodo, engabelação e dissimulação puderem ser considerados criações artísticas; se gastar milhões com obra que não dará como retorno um décimo do dispêndio feito for aceito como ato de mecenas, tudo bem, nada a questionar. Houve quem a tomasse por ciência. Não nos surpreenderia se quem um dia a imaginou assim mudasse de opinião, após perceber que cada vez menos são encontrados vestígios lógicos das exigências intelectuais, morais, filosóficas, históricas e éticas que um ramo de conhecimentos precisa preencher para ser reconhecido como ciência. Se, como tal, política for um sistema de regras, conjunto de objetivos que devem nortear o homem a governar com sabedoria, desvelo e justiça, buscando o bem comum da sociedade a que pertence ou representa, a que se pratica por aqui há que ser reconceituada e recolocada no caminho correto; porque são outros, e muito diversos daqueles, os fins visados pela maioria dos “políticos” atuais.
     A mosca azul, essa figura mítico-metafórica que tanto poder hipnótico exerce sobre o homem, a ponto de transformar os mais idôneos e tarimbados em deslumbrados ingênuos; de colocar em cheque princípios e ensinamentos em que acreditam os mais sérios, parece que não afeta nem influencia os ratos. Talvez porque os roedores sejam seres sem ideologias; irracionais como são, não se deixam levar por atos demagógicos, e como não almejam nem se interessam por qualquer tipo de poder, como os humanos, estão livres da hipocrisia.
     Ao final de uma mais acurada análise do caráter mutante e hipócrita da política que vêm praticando os animais de Aristóteles, chega-se a algumas conclusões. Os ratos trabalham em silêncio, aproveitam-se de nossa ausência ou displicência para, quando não os encontram nos latões de lixo, entrar em casa e surrupiarem restos de alimento do qual se nutrem e se suprem da força e energia de que precisam para sobreviver, fugir de seus predadores e procriarem. Muitos homens que militam nessa atividade, contrariamente, agem a plenos pulmões e às escâncaras, isolados ou em grupos, e buscam obter para si bens e direitos econômicos em quantidade muitas vezes maior do que necessitam, cobrindo, folgadamente - tanto que a cada novo pleito veem multiplicado seu patrimônio particular -, os altos gastos feitos durante as campanhas; enfim, locupletam-se, nem sempre licitamente, de recursos financeiros ou econômicos, mesmo que para isso tenham que jogar no lixo, na forma de dejetos inaproveitáveis até pelos ratos, a moral, a ética e a dignidade.
     Os gatos e os políticos, ainda que não hajam sido convidados para elas, são os últimos a deixarem as festas de correligionários, adversários ou inimigos; de onde, geralmente, saem de barriga cheia e com poucos arranhões.
Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

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