Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 29 de maio de 2017
JANELA PARA A CRÔNICA - ANTÔNIO F. SOUSA
Antônio Francisco Sousa
Tamanho da letra A +A

O IRMÃO DE TODOS

         Ninguém procura o amor.  Ele nos acha.  Apodera-se de nosso ser.  Preenche-nos e nos possui, sem nos fazer dele escravos.  Nosso corpo, até então fechado, abre-se para receber as emanações da benfazeja e divina alegria: a de doar-se inteira e verdadeiramente.  Nos caminhos que cruzamos visando cumprir os desígnios e os objetivos da estadia terrena em busca da plenitude existencial, só alguns poucos de nós, infelizmente, são capazes de atos extremos, como dar a vida pelo semelhante.  E nisso reside a maior prova de amor humano e sublime a que alguém pode submeter-se.

                Um homem, não seria exagero dizer, conseguiu a proeza de amar a Deus sobre todas as coisas, de tal forma e tão intensamente, como somente o Filho muito amado conseguiu.  Chamou-se Francisco de Assis, registrado civilmente como Giovanni Bernardone, nascido, possivelmente, entre 1181 e 1182, na cidade italiana que lhe deu a famosa alcunha.

                Filho de rico mercador, Pietro Bernardone, o menino Cecco (como intimamente o chamavam) não era diferente de seus amigos. Estudante por opção e exigência dos pais, foi aluno mediano. Apenas os bolsos sempre cheios e abertos às pândegas com os companheiros, tornavam-no uma criatura especial.  Isto, até um dia, quando egresso da guerra e doente, deu-se conta, depois de um contato divino, de que sua vida, de fato, ali estaria iniciando-se.

                As folias com os amigos findaram; os bolsos e as moedas passaram a servir de recursos para melhorar a existência dos irmãos desfavorecidos e mais, muito mais: entendeu que dinheiro e poder só representavam algo se pudessem ser utilizados em benefício do próximo.  Encheu-se da vida de mercador e a soma do último grande negócio de sua vida mundana, na cidade de Foligno, com cerca de vinte e cinco anos, atendendo a um chamado de Cristo que, certamente lhe dissera: “Reconstrói minha Igreja”, ofertou-a ao Padre que cuidava da Capela de São Damião, que não a aceitou em vista do valor exagerado; mas, em troca da generosidade, o frade lhe ofereceu pão e uma tosca e sofrida moradia.

                Pietro Bernardone, sabendo da loucura que estava tentando cometer o filho, foi à capela, juntamente com o bispo e arguiu que o ato não se poderia concretizar, pois, na verdade, o dinheiro não pertencia ao jovem Francisco. Mas, felizmente, não conseguiram demovê-lo da ideia de servir a Deus.

                Daquela visita resultou um dos mais interessantes atos de desapego material de que se tem conhecimento. Tomado de súbito desprendimento, o moço, não somente devolveu o dinheiro ao velho pai, como ainda lhe entregou a vestimenta que usava, por entender que também ela fora comprada com os recursos que ele lhe havia possibilitado até aquele momento.  Jamais em sua vida, as riquezas lhe agrilhoariam os pés como cadeias, novamente.

                Coberto de andrajos, começou a esmolar para reconstruir a capela de São Damião. Não demorou a encontrar amigos que se propuseram ajudá-lo. Unido, primeiramente, a dois ex-ricos e poderosos cidadãos italianos, fundaram a comunidade Irmãos Pobres de Assis, em que a regra fora estabelecida por Jesus: “Ide e pregai; curai os doentes; limpai os leprosos. Dai com torna o que recebestes; não leveis ouro, nem prata no vosso cinto, nem alforje para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias...”.

                Pregando, não de um púlpito, mas entre seus companheiros, humildemente, descalço e com palavras que todos entendiam, viu aumentar, rapidamente seus seguidores. Admirava no homem, não a fraqueza, mas sua força; não a feiúra, mas sua beleza interior.

                Dali para frente, por muitos foi testemunhado, Irmão Francisco e seus frades envidarem esforços humanos e sobrenaturais, no sentido de pregar a palavra de Deus, fazer o bem, cantar as maravilhas da natureza, ajudar a quem precisasse; pouco importando se a batalha demoraria um minuto ou se uma vida seria consumida. Não descansou um instante sequer.  Buscou superar as desconfianças com a tenacidade de sua fé.  Respeitava do mais ilustre dos homens, às mais simples criaturas de Deus; tanto que tratava os próprios animais como “irmãos”.

                Tão impressionado ficou com visita feita à Belém que, ao retornar a Assis no Natal de 1.223, construiu um presépio em forma de casebre de palha, onde alojou, além de Maria e seu Filho Jesus, José, os Reis Magos que o visitaram ao nascer, os pastores e os irmãos jerico e vaca. Depois levou-o à Igreja onde o iluminou com velas. Por conta disso, o Natal de Cristo é comemorado entre nós, não mais como uma simples missa cantada, mas uma verdadeira festa de amor e luz na adoração do Deus Menino.

                Dentre as várias homenagens que o mundo presta a um filho santo tão ilustre, no Brasil, o dia 04 de outubro é dedicado às comemorações de São Francisco de Assis, o Irmão de todos.

                Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

17.05.2017 - ESTAMOS, OU NÃO, PERDIDOS, SANDOVAL?

03.04.2017 - UM NOVO TRIBUTO

20.03.2017 - A PEDRO COSTA

02.03.2017 - CARTA AOS AGIOTAS E USURÁRIOS DE PLANTÃO

05.02.2017 - O QUE É A MORTE?

04.01.2017 - DOS SINDICATOS, TEMPLOS E PARTIDOS POLÍTICOS

01.12.2016 - A AVÓ

04.11.2016 - A MORTE É SEMPRE UMA VIOLÊNCIA

10.10.2016 - DONOS DA VERDADE

09.09.2016 - PARA ONDE IRÃO OS BURROS?

11.08.2016 - A MEU PAI

01.08.2016 - CONCEPÇÕES SOBRE IMPUNIDADE

04.07.2016 - O IRMÃO DE TODOS

02.06.2016 - O BOM POLÍTICO

04.05.2016 - AMOR NUNCA É DEMAIS

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

28.05.2017 - Incursão à Fazenda Bom Gosto (Século XVIII)

Incursão à Fazenda Bom Gosto (Século XVIII)

28.05.2017 - Versos de Moradora no Harém

Poetisa Amante

28.05.2017 - Palmas para o Tocantins

O autor discorre sobre participação piauiense na Feira Literária Internacional do Tocantins (FLIT), realizada em julho de 2011.

27.05.2017 - A questão da pós-verdade e suas consquências danosas à ética individual e coletiva do mundo globalizado.

O tema escolhido

27.05.2017 - Feitosa, dos Inhamuns

O acadêmico Reginaldo Miranda analisa a obra genealógica do escritor Aécio Feitosa, que escreve sobre a importante família Feitosa, dos Inhamuns.

26.05.2017 - ROGEL SAMUEL: TEORIA DA CRISE

ROGEL SAMUEL: TEORIA DA CRISE

26.05.2017 - POEMA 'ÁGUA FRIA'

poesia

26.05.2017 - O RIO NEGRO

O RIO NEGRO

25.05.2017 - Teresina

O acadêmico Reginaldo Miranda escreve sobre a cidade de Teresina, capital do Piauí, por ocasião da outorga da Comenda Conselheiro Saraiva.

25.05.2017 - A enigmática Etrúria

Desprezada por muitos leitores, a Arqueologia é uma Ciência que vale a pena ser estudada pelos leigos, pois se revela muito interessante.

25.05.2017 - EM BUSCA DA POÉTICA DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

EM BUSCA DA POÉTICA DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

24.05.2017 - O dia em que saí no Ibrahim Sued

Era a sexta-feira do dia 17 de maio de 1985

23.05.2017 - UM AMIGO DE INFÂNCIA

No dia seguinte ao da mudança para a nossa pequena casa dos Campos, em Parnaíba, em 1896, toda ela cheirando ainda a cal

23.05.2017 - Fraternidade Espiritualista Universalista

Em pleno cerrado de Goiás...

22.05.2017 - Um livro infantil de Irá Rodrigues

A literatura infantil é parte importante de nossa cultura, pois devemos estimular nossas crianças ao saudável hábito da leitura.

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br