Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 29 de maio de 2017
JANELA PARA A CRÔNICA - ANTÔNIO F. SOUSA
Antônio Francisco Sousa
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CONCEPÇÕES SOBRE IMPUNIDADE

Maior escárnio da figura era, mais que julgar correta, ideal, ética e moral sua situação, debochar daqueles que discordavam de suas concepções ou posições. Só “otários”, parecia querer dizer, achariam que estava errado. Para quem crê e venera um deus de bondade e amor, matar, tirar a vida de alguém não é ato racional. Mas até eliminação de terrorista, que, no mais das vezes, age como ser irracional? Eles não valorizam a vida de ninguém, nem a própria, tanto que se matam, explodem-se, e mais felizes ficam ou seguem, talvez, quando levam consigo inocentes. Seria ou não demagogia por parte da mídia execrar policiais que durante perseguição a veículo conduzido por alguém que não poderiam ver- senão por conta da cor dos vidros ou da velocidade desenvolvida, porque o mesmo não obedecia aos seus comandos para parar, ignorando sirenes, buzinaços, jogos de luz -, viram-se obrigados a acionar suas armas e, em consequência dos disparos dados, tudo indica, no estrito exercício das atividades profissionais, mataram um dos ocupantes do carro, menor, que, mais tarde se soube, roubara o automóvel apenas para dar um rolé com amigo? Dizer o que de operadores de ambulâncias públicas do sistema de atendimento móvel de urgência daquela capital, que, conluiados com outros bandidos, inclusive médicos, levavam acidentados para serem examinados ou internados, não em prontos-socorros ou hospitais de emergência, mas, diretamente, a leito em unidade de terapia intensiva particular que, obviamente, cobrava muito mais caro dos cofres públicos pelos serviços, o que acarretava ganhos, tanto para os donos das UTIs privadas quanto para os demais participantes das quadrilhas? E naqueles gestores municipais que criam milhares de alunos fantasmas no seu município para receberem mais – e indevidamente - recursos públicos do ministério da educação, dá para acreditar na alegação de involuntária falcatrua? De fato, existe bandido que se sentindo perseguido por comparsas, em dificuldade financeira ou passando fome, perpetra um pequeno crime, caso pretenda ficar preso poucas horas, ou um maior, se sua intenção é passar alguns dias longe dos inimigos lá de fora, hospedado e se alimentando, a expensas do cidadão contribuinte? Ou isso seria apenas lucubração cerebrina? Pelo andar do arrazoado, alguém poderia conjeturar que nossa intenção seria fazer gozação, escrever algo hilário ou jocoso. Quisera fosse, mas não é este o caso. Aquele cidadão do primeiro parágrafo, ironicamente, dizia-se servidor público; contava com um contracheque mensal em que, além do salário do cargo, havia incorporada uma função gratificada considerada vantagem pessoal, mais uma função comissionada ativa – coisa de quem exerce chefia – e, não bastasse isso, aumentava-lhe os ganhos um valor decorrente do abono de permanência. O que o fazia rir, a seus parceiros de mesa e, ao mesmo tempo achincalhar quem o ouvia, como nós, que ainda acredita na existência da honestidade humana, era o fato de o sujeito dizer que nem se lembrava da última vez em que pusera os pés na repartição que, tão regiamente, remunerava-o. Quanto ao terrorista que se traveste de radical religioso, cremos que maior punição não seria sua rápida eliminação, mas o constrangimento, a vergonha ou a decepção que lhe impingiria o algoz ao, antes de executá-lo, atirar-lhe nas fuças que suas convicções eram fajutas, seus ideais um despropósito, sua vida uma alucinação e sua fé uma hipocrisia; para quem livra o mundo de trastes dessa estirpe, o castigo capital deveria ser o perdão sumário e inquestionável. Soa, inexplicavelmente perigoso, considerar-se crime maior a eliminação do malfeitor pelo agente de segurança do estado, no inevitável confronto entre ambos, e quase acidente de trabalho a morte do policial pelo bandido. A sensação de impunidade que leva funcionário público desonesto, aético e imoral, como aquele lá de acima; operadores de ambulâncias, médicos e proprietários de unidades particulares de terapia intensiva, a, criminosamente, lesarem os cofres públicos em proveito próprio, é a mesma que induz governantes a criarem fantasmas, espectros, simulacros, representados por números fictícios, com a finalidade de desviarem recursos do erário para seus bolsos. Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com

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