Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 29 de maio de 2017
JANELA PARA A CRÔNICA - ANTÔNIO F. SOUSA
Antônio Francisco Sousa
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CARTA AOS AGIOTAS E USURÁRIOS DE PLANTÃO

         Senhores proprietários de empresas de factoring, intermediários ou atravessadores de instituições financeiras, prestadores terceirizados de serviços bancários, agiotas de plantão e emprestadores usurários de dinheiro, cinco minutos de sua atenção: sou um cidadão não mais jovem, falo assim para não baixar minha autoestima, de vez que, na verdade, já estou vivendo a tal da melhor idade, graças ao Todo-Poderoso, sem a insidiosa presença da maldição alemã (Alzheimer) nem da doença de Parkinson. De modo a não apenas não parecer, mas não ser hipócrita ou demagogo – tantos estão se apoderando de esses defeitos que, logo, logo, como diz aqueloutro sobre a mentira – que, de tantas vezes repetida, termina por se transformar em verdade –, quem não for demagogo ou hipócrita é que será defeituoso -, algo preciso informar, antes de adentrar ao objeto deste arrazoado: a considerar o montante bruto do meu contracheque, tenho um bom salário que, fosse de um sujeito organizado e disciplinado, financeiramente, permitir-lhe-ia realizar certos investimentos; ocorre que, tantos são os penduricalhos enfileirados no meu holerite, na forma de parcelas referentes a empréstimos consignados e que tais, que as deduções salariais inerentes a tributos e contribuições atinentes a todo servidor público ou empregado parecem irrisórios; todavia, somados, dispêndios e descontos de tal sorte reduzem a parte líquida a perceber que, se fosse possível, melhor seria optar por receber o montante referente aos descontos mensais do que o saldo líquido disponível.

Quando me quedo pensando nas bobagens que faço, percebo quão cruéis são os senhores: sabendo da minha instabilidade diante das tentações de poder sempre contar com um dinheirinho no bolso, pouco importando quanto me será cobrado por ele, vocês insistem em me torturar e testar meus limites, vendendo-me dificuldades insanáveis travestidas em falsas facilidades, como estas: haja vista valores de novos empréstimos, ou negociação de velhos débitos financeiros junto a credor diferente, invariavelmente, não mais serem aceitos em consignação pelo órgão que me paga o salário, em virtude da extrapolação de todas as margens consignáveis legais, criminosamente, vêm os senhores e me oferecem a possibilidade de pagar por eles sem ser via folha de pagamentos. Isso é maquiavelismo puro, intenção clara e evidente de prejudicar-me, pois, como sabem que tenho apenas uma fonte de rendimentos, de que modo arcar com dispêndios que não mais cabem no orçamento real? Ora, fazendo empréstimos para pagar outros, em um eterno e fatal círculo vicioso.

            Portanto, senhores usurários de plantão, agiotas inescrupulosos, gostaria de pedir-lhes algo extremamente difícil para mim: deixem-me em paz, não me procurem mais. Emprestem a qualquer outro indivíduo o dinheiro que queriam me dispensar. Minha família não aguenta mais meus subterfúgios, escamoteações, mentiras que, lamentavelmente, tenho que criar, diante das torturantes cobranças inerentes aos atrasos nos pagamentos dos débitos não consignados, oferta de novos empréstimos ou tentadoras possibilidades de renegociação de débitos com sobra de crédito para mim; senão, com insinuações e ameaças de mandar meu nome aos órgãos de proteção do crédito financeiro, SERASA, SPC, escambau. Esqueçam-me, já basta o quanto lhes devo. Desistam de continuar insistindo em tentar me deixar louco, ou serei obrigado a mostrar-lhes que posso ser; ou que, há tempo, não mais estou em condições psicológicas de assumir ou honrar quaisquer compromissos. E se me interditarem, legalmente, meus familiares? Ou seja, vocês teriam que ir à Justiça para buscar receber parte da dívida. A propósito, minha família, não poderia ficar desamparada: parcela dos meus vencimentos seria transformada, com ou sem minha anuência ou autorização, em pensão alimentícia para subsistência dela e minha.

                Assim, se querem receber parte do que devo aos senhores, esqueçam que existo; prometo-lhes que, da melhor maneira possível, buscarei encontrar formas de quitar ou saldar débitos acumulados. Não me venham com novas ofertas porque, por mais que isso pareça difícil e doído para mim, resistirei e, caso insistam, tentarei até o fim dos meus dias, é o mínimo que posso fazer, salvaguardar a segurança financeira e material, tantas vezes vilipendiada por mim, da família que a vida me atribuiu. Não me façam cometer mais loucuras, pois sabem que sou capaz disso.

 

                Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa@hotmail.com) 

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