Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 29 de maio de 2017
JANELA PARA A CRÔNICA - ANTÔNIO F. SOUSA
Antônio Francisco Sousa
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A MEU PAI

                    Muito mais com exemplos do que com palavras, procurou ensinar a todos que cruzaram seu caminho, que viver honestamente não é tarefa das mais difíceis.

            Não foi um homem de muitas posses materiais nem, segundo ele mesmo, de grandes virtudes. Não há como negar, entretanto, que era possuidor de larga experiência existencial, uma vez que esta, tantas vezes, decorre menos da quantidade de anos vividos do que dos serviços que se presta.

            Pautou sua vida em, voluntária e gratuitamente, servir ao outro. Jamais o vi promovendo atos em que ficasse claro ou implícito um pouco sequer que fosse de egoísmo; a humildade foi sua mais constante e fiel companheira.

            Difícil conseguir atingir seu estado mais comum de conviver com este mundo complicado: tentando fazer o bem. Egoísta tantas vezes sou; humilde, nem sempre. Irrita-me, dentre outras bobagens, certas pessoas que vivem a esmolar, ao que parece, somente para se livrarem de trabalhos honestos ou de ajudarem a seus semelhantes, como se apenas elas precisassem de auxílio e de apoio. Torno-me irascível quando imagino estar sendo passado para trás por gente desocupada e hipócrita. Ainda que, depois, constate ter-me enganado, não costumo fazer um exame de consciência nem me penitenciar; raramente, prometo tentar corrigir-me, talvez porque saiba que não conseguirei.

            De forma expressa ou, subliminarmente, tentou transformar-me em grande ser humano; se, não conseguiu, não se lhe deve atribuir qualquer culpa. Sempre procurei concordar com o que buscava demonstrar. Na sua boa-fé, não questionava nem se preocupava com quem pudesse estar lhe dando ouvidos de mercador ou não sendo honesto. Na verdade, escutava-o, de fato, todavia, infelizmente, nunca tive sua perseverança, sua tenacidade; não possuo sua força de vontade nem sua inabalável convicção. Não sou fraco: ele é que, por vezes, parecia exigir algo que estava além de minhas possibilidades.

Apesar de o mundo, há muito, andar violento, nunca deixou de alimentar a esperança de que poderia ser consertado e transformado em um lugar acolhedor.

            Atuou em muitas frentes e em todas se doou por inteiro. Fez incontáveis amigos e, apesar de sua incomensurável simplicidade, granjeou admiradores, simpatizantes. Teceu sua bandeira de luta com atos de desprendimento e abnegação. Como a causa era, sem exceção, o bem-estar do outro, o efeito não poderia ser diferente: quase sempre exitoso. As formas de que se valia no exercício de esse mister variavam: ora, era um consolo ou um conselho, uma admoestação incisiva, uma palavra inspiradora ou conciliadora; ora, um alento, uma satisfação material.

            Ao que parece, a vida lhe deu tudo de que precisava para ser feliz enquanto cristão e crente. Talvez, por isso, também o haja feito sofrer tanto, para que obtivesse uma base comparativa a partir da qual pudesse mensurar e aquilatar os benefícios que a felicidade nos proporciona e as vicissitudes com que a vida nos premia. 

            O Salvador, que sempre soube o que fazer dele e com ele nos momentos em que lhe deu saúde e paz, deve ter lhe perdoado se fraquejou no tempo de provação. Claro, se o próprio Cristo cambaleou diante do mais duro sofrimento.

            Aonde estiver, pai, fique tranquilo, porque seu filho está em paz.                                       Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

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