Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 29 de maio de 2017
JANELA PARA A CRÔNICA - ANTÔNIO F. SOUSA
Antônio Francisco Sousa
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A AVÓ

Eram todos muitos pobres, mas não miseráveis, segundo a avó deles, pois, esses, são aqueles seres que, além de não terem nada, perderam a esperança. À época, já senhora sexagenária, ela era o baluarte moral da família; dotada de inteligência incomum, porque, ainda que não abastecida com ensinamentos intelectuais transferidos por mestres qualificados ou estudos formais, estava sempre aberta a qualquer informação que pudesse agregar-se às próprias experiências vividas. Dona de cultura razoável, fruto, mais que das observações e assimilação dos conhecimentos recebidos do meio em que vivia, dos decorrentes do exercício da inata racionalidade, quais sejam: aqueles que, insofismavelmente, advêm de decisões naturais ou de emanações sobrenaturais a que todo ser inteligente está sujeito, existencialmente. A avó costumava fazer, dizer ou os aconselhar sobre atos e ações que precisavam executar, de forma tão inusitada, coerente e inovadora que, hoje, passados muitos anos, inclusive de seu falecimento, ainda discutem a respeito de onde ela tiraria tanta sabedoria. Exemplos desse descortino incomum estão impregnados na memória de quem com ela conviveu, sejam na forma de ensinamentos práticos, sejam frases ou pensamentos lapidares. Um destes, simples, humilde, modesto, mas, metafórico, é: “parece estranho, mas quando tiro os óculos enxergo bem menos, mas escuto muito mais”. Geralmente, em conversas, diálogos, dos quais participava, e cujo interesse maior em relação aos interlocutores não era vê-los, mas o que se estava relatando, narrando ou, simplesmente, falando naquele momento. Saia-se das saias curtas em que, às vezes, se metia quando alguém lhe perguntava o que estava querendo dizer com a máxima, pedindo-lhe que retirasse os óculos e tentasse ver, ou melhor, escutar, sem eles. Em certas oportunidades, notadamente, quando a meninada, diante da frugalidade da refeição oferecida, reclamava por variedades, não raro, ela resolvia a questão perguntando ao reclamante o que estava pensando em ter como alimentação desejada e, depois, habilmente, tornando as opções propostas incompatíveis ou causadoras de males, se misturadas ao que se tinha à mesa. Uva – difícil de encontrar e muito cara naquele tempo - fazia mal, não era boa porque as sementes engolidas, inadvertidamente, poderiam brotar no intestino; melhor a goiaba, o caju, carambola, a seriguela lá do quintal. Peixe, no dia em que carne suína era o único alimento oferecido como refeição? Nem pensar. Comê-los juntos era tiro e queda para contrair, desde erupções na pele, até hanseníase. E tantos outros casos exemplares nessa seara ou em outras (como quando, em relação à insistência dos parlamentares em criar leis, dizia: talvez esteja na hora de, em vez de criarem novas leis que não vão funcionar, revogar as velhas que não funcionam) ela os sacava de sua sagaz cachola, deixando a todos, senão satisfeitos com as justificativas dadas, desconfiados ou estupefatos. Na verdade, ela era uma mulher à frente de seu tempo. Não se surpreendia com fatos ou eventos que deixavam a muitos boquiabertos ou sem entender porque estariam acontecendo. Se não havia como os mudar ou evitar que ocorressem, por que sofrer por conta deles, ou buscar explicações inócuas? “O que não tem solução, resolvido está”, concluía. Extremamente perspicaz, raramente se deixava enganar por simulações ou blefes. Valorizava muito a verdade e reagia às inverdades conclamando quem as proferisse a se retratar, caso não quisesse ser havido, doravante, como alguém que não merecia crédito, um mentiroso contumaz. Em virtude de seus posicionamentos sempre balizados no respeito aos princípios de honestidade e justiça, e, também, por conta da larga experiência existencial, estampada nas volumosas cãs, era sempre ouvida em situações dúbias. As raras opiniões que emitia em público, ainda que não aceitas na sua integralidade, em virtude, tantas vezes, do rigor quase cartesiano aplicado na sua concepção, também não eram descartadas de imediato. Boa conselheira caseira, dificilmente errava aquele que lhe seguia os conselhos. Não gostava de aconselhar quem com ela não convivia ou não participava de seu teatro de operações. Guerreira em tempo integral no palco da vida, que resolveu testá-la no fim, ao lhe dar a missão de desempenhar difícil monólogo, cujo sofrimento foi o grande personagem. E ela se saiu bem, enquanto esteve em cena. Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com

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