Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 07 de setembro de 2010
FICÇÕES DA BORRACHA  
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O extermínio indígena.

O extermínio indígena.

LUCILENE GOMES LIMA

 

 

As obras do ciclo, em geral, apresentam o índio como elemento hostil e cruel. Poucas vezes, é acentuado que o seu comportamento violento resulta de uma reação a uma violência, a invasão. Divergindo do tratamento omisso ou pelo menos parcial, haja vista que em algumas obras destaca-se a figura sanguinária do indígena e de vítima do invasor, no romance O amante das amazonas há uma declaração enfática sobre o extermínio indígena. Essa declaração, posta através de uma imagem alegórica, permite ouvir, por intermédio do narrador, a voz sufocada de Maria Caxinauá, que é também uma voz coletiva:

 

OS ásperos, compridos cabelos ensombravam a face com a figura da morte. As pupilas eram dadas por incompreensível aura branca, um espantoso horror. Nariz aquilino, cigano. Pele bronze escuro queimado e fosco, amassado como papel. Sujo, longo vestido azul, rasgado num flanco, sem cintura, arrastando-se no chão como uma louca num hospício. Observada à distância, era a concentração do Ódio. De perto, era o Medo, o incontrolável Pavor, olhos bem abertos. As faces murchas indicavam que perdera todos os dentes, as sobrancelhas eram ralas. Mas aquela mulher não era uma velha! Subitamente se deixava ver! A face tem arrogância, desprezo, desafio, o olhar perigo, o veneno, pensou Ferreira, apertando o laço da gravata. Hostil, aquela existência silenciosa e animal concentrava-se em si mesma, refluía em si, como serpente. Desde aquela noite Ferreira a teme. Vê a inimiga. Pois a Caxinauá é vingança acumulada, petrificada. Toda a multidão inumerável de índios massacrados reterritorializava-se naquele corpo. Todos os torturados, os banidos, os exterminados pela humanidade européia, os saqueados, desculturados, reduzidos a ruínas se cartografam ali, na pessoa física e individual de Maria Caxinauá. São raças inteiras espoliadas, traumatizadas, despossuídas de seus deuses e de suas riquezas construídas durante séculos, sangradas em hecatombes, liquidadas para sempre. Contaminadas de doenças, escravizadas e corrompidas, submetidas ao trabalho escravo que consumiu o sangue de milhões de pessoas desprovidas de suas economias de subsistência, tragicamente transformadas em exércitos de massas proletárias – vinte milhões de índios massacrados no Brasil se corporificavam ali, no gesto cego de Maria Caxinauá.[1]

 

            Nesta passagem, está implícita a paródia ao conto “A decana dos Muras”, de Alberto Rangel. O tom inicial da descrição de Maria Caxinauá segue paralelo à caracterização assombrosa e torpe da decana para apresentar ao leitor o texto parodiado, mas, num segundo momento, surge o distanciamento ou a oposição parodística a partir da negação de senilidade à índia Caxinauá – aquela mulher não era uma velha! – e ao invés de impor comiseração pelo estado de rebotalhamento da índia, alça-a à condição de um ser terrível, forte e ameaçador. Em “A decana dos Muras”, ao contrário, o narrador, após apresentar o aspecto assombroso da velha índia, tenta suavizar-lhe o aspecto, atribuindo-lhe uma docilidade na juventude perdida. O texto parodístico traz, por fim, a denúncia do massacre da cultura indígena que o texto parodiado não acentua. Destacamos que o texto parodístico atinge um nível profundo em relação ao texto parodiado. A determinação ideológica que preside o discurso do autor Alberto Rangel, assentada na visão ambivalente sobre o extermínio autóctone, à medida em que comunga do coro depreciativo do colonizador, não podendo ocultar sua repugnância e rejeição pelo ser que representa o outro, é desocultada.

            O império do látex, emblemado em Pierre Bataillon e seu palácio excêntrico e anacrônico no meio da selva, ressurge no final do romance numa alegoria fantasmagórica. Nas ruínas do palácio saqueado, resta apenas o piano de cauda Pleyel, objeto sufocado em seu aspecto nobre e fáustico como se silenciado após o encerramento de um concerto. O palácio, congelado no tempo, é povoado por fantasmas da História, abriga os espectros da ostentação que passam “[...] arrastando longos e pesados vestidos de veludo verde, envergando reluzentes casacas [...]”,[2] esquálidos, saídos do “sepulcro do luxo” para expiar suas “culpas mortas”. Pierre também ali se encontra transformado numa negação do que fora outrora:

 

E à noite a figura do antigo e descarnado dono poderia ser vista, através das janelas, como se o iluminasse uma catedral, mostrando-lhe a face horrível e desesperada, os olhos mergulhados no escuro, à procura de algo, à procura do tempo, à procura de si – e passando sem que ninguém o visse na sua infinita miséria. E todo o esplendor daquele luxo antigo era uma torturação sinistramente mergulhada na destruição de um império ali por fim silenciado.[3]

 

            A narrativa de O amante das amazonas focaliza, além da personagem Pierre Bataillon, evocadora de um passado que o narrador insere fragmentariamente na história, as personagens Juca das Neves e Ribamar de Souza que se ligam às fases de decadência e de mudança de perspectiva econômica. A fase de decadência, em que muitos aviadores se arruinaram, concentra-se em Juca das Neves, dono do falido “Armazém das Novidades”, ainda mantido aberto quando a abastança já não mais existe e Manaus é uma “cidade-fantasma”. A indicação de que o “ciclo da borracha” está encerrado e de que as estruturas social e econômica apresentam ares de mudança, estampa-se no mobiliário discreto, na decoração que já evoca o modern style descritos na casa do comendador Gabriel Gonçalves da Cunha, personagem histórica recriada na ficção. Ribamar de Souza transforma-se no herdeiro do falido império do látex, compra o armazém de Juca das Neves e o moderniza, tornando-se um novo-rico: “Ribamar, com auxílio de Juca das Neves, modernizou o Armazém das Novidades, passando a representar vários produtos norte-americanos, como as máquinas de costura Singer – de enorme popularidade. Ribamar expandiu os negócios e começou a ameaçar o império comercial da poderosa família Gonçalves da Cunha [...]”.[4]

            O amante das amazonas promove um olhar abrangente e profundo sobre o ciclo econômico da borracha que se seria no texto como um todo e também condensa-se em trechos do romance. A capacidade de condensação, segundo Perrone-Moisés,[5] é um dos valores apontados pelos escritores-críticos no texto moderno, na medida em que permite “dizer muito em poucas palavras”. A autora destaca que a condensação, mais do que uma síntese, importa numa saturação de sentidos. Um trecho de O amante das amazonas realiza uma condensação que retoma toda a História do ciclo, englobando o processo que deslanchou a alta cotação da borracha no mercado internacional e os efeitos locais desse processo, estampados na circulação de riqueza na capital amazonense e na adoção de todo um modus vivendi à reboque da cultura européia. O narrador acrescenta aos fatos e aspectos históricos, enumerados em frases curtas, comentários irônicos e críticos, caracterizando o tratamento parodístico:

 

[...] A cotação da borracha amazonense sobe na Bolsa de Londres. Aumenta a produção dos pneumáticos. O Amazonas, único produtor de látex do mundo. Manaus rica, copia Paris. Comerciantes enriquecem. Ostenta o Teatro Amazonas os seus espelhos de cristal. Os milionários jogam cartas com anelados dedos pesados de diamantes, arriscando fortunas no Hotel Cassina, no Alcazar, no Éden, no Cassino Julieta. Telhas de Marselha ao luar na Rua dos Remédios...



[1] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 38-39.

[2] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 89.

[3] Ibid., p. 89.

[4] Rogel SAMUEL, O amante das amazonas, p. 82.

[5] Leyla PERRONE-MOISÉS, Altas literaturas: escolha e valor na obra crítica de escritores modernos,  p. 156.

 

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