Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 30 de julho de 2010
FICÇÕES DA BORRACHA  
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Faceira

Faceira

 LUCILENE GOMES LIMA

Faceira

 

 
O comboieiro encontra na mula “Faceira” a satisfação do desejo que o punha em constante inquietude, mas após servir-se da mula com constância, nota que ela se habituara a esperá-lo sempre no mesmo lugar e a indicar com gestos característicos o desejo de que ele consumasse a ação. Essa atitude do animal passa a enojá-lo e ele se dá conta de que tornara-se “[...] apenas um sordido instrumento para alimarías insatisfeitas..” (49) Da repulsa, ele passa ao ódio e executa uma vingança sádica contra a mula:

A “Faceira” fez-lhe de pezadelo-mór. E ele , por vingança, certo dia deparando na estrada um pedaço de muiratínga, desse arbusto singular cujos ramos, em secando, se bipartem em cem numero de falus, perfeitos com a morfolojía masculina, meteu um deles sob o braço e esperou sofrego, a parada da Faceira no ponto costumeiro. Era mais uma baixeza de sua psiquoze. Ensebou o troço imitativo. Esse admirável cazo de simbioze vegetal, e incrustou com bruteza na estrutura antes uzada com delícia...(50).

No livro de contos O tocador de charamela, o aspecto da ausência da mulher faz-se mais uma vez presente através da tríade “Três histórias da terra”. Os contos deixam de lado o aspecto grotesco explorado em Os deserdados e enfocam a solidão do homem no seringal de uma forma pungente em “Tio Antunes”, o velho que espera indefinidamente a chegada de uma mulher e finda por enlouquecer. Por outro lado, há também uma abordagem bem humorada em “Zeca-Dama”, um seringueiro que ameniza a ausência de mulheres nas festas, dançando com outros seringueiros e em “João Carioca: mandão e famão – Juiz de Paz”, o seringalista que resolve o problema da falta de mulheres em seus seringais, trazendo prostitutas do Ceará e casando-as com seus seringueiros. (51)
Se, por um lado, a ênfase dada pela ficção nos comportamentos sexuais aberrativos tem como principal motivo a solidão dos seringueiros e de outros trabalhadores do seringal, solidão que os leva, segundo a narrativa de Adaucto Fernandes, em Arapixi, a se animalizarem: “[...] São homens que não vivem. Vegetam segregados da sociedade que os brutaliza e explora. São sêres humanos no aspecto e alimárias estranhas na mata [...] ,(52) algumas obras demonstram também que os desregramentos sexuais não são exclusivos dos seringueiros que não têm contato com mulheres e que vivem isolados na mata. Nessas obras, os coronéis seringalistas, mesmo casados e podendo também se afastar dos seringais para se divertirem com prostitutas nas capitais, cometem violações contra enteadas e sobrinhas. Diferentemente do castigo sofrido pelo seringueiro amasiado com três meninas, apresentado em Beiradão, esses seringalistas não sofrem qualquer punição ou advertência da justiça e continuam a exercer autoridade para determinar a conduta correta de seus subordinados.
Na constância da abordagem do ser feminino como coisa rara, escassa ou inexistente no seringal, resulta um apagamento, na maioria das obras do ciclo, da personagem feminina enquanto realizadora de uma ação ficcional efetiva. As personagens femininas não possuem individualidade nas narrativas, não têm pensamento ou atos descritos que lhes possam dar um caráter próprio. Aparecem como mercadoria, como objeto de disputa tal como a cabocla Maiby, do conto homônimo, ou a prostituta Conchita, de Coronel de barranco. Quando esposas de seringalistas, recebem atenção na narrativa em virtude do desejo que despertam nos homens premidos pelo clamor sexual, como a personagem-esposa do guarda-livros, de A selva, cobiçada pela personagem Alberto nos momentos de volúpia causados pela abstinência prolongada.
A exceção à falta de delineamento da personagem feminina faz-se em Terra de ninguém, em que a personagem Nadesca, filha do seringalista, constitui o oposto das personagens das demais narrativas, mostrando-se voluntariosa e dona de suas ações. Para delinear essa personagem que possui independência, o narrador comenta que ela falou-lhe “[...] do desejo que alimentava de viver livre, como as águas, barulhentas da corredeira; como os pássaros alígeros que voavam lá em cima; como as corças selvagens que não encontravam limites nem perspectivas marcadas”. (53) Nadesca não apenas tem voz, contesta o sistema de trabalho do seringal do pai e a truculência das ações deste, como participa, no final do romance, da revolta dos seringueiros. De ares revolucionários a ponto de se tornar uma caricatura, essa personagem é uma das responsáveis pela acusação que se faz a Francisco Galvão de criar um romance com situações e personagens inverossímeis. (54).

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NOTAS

31) Antísthenes PINTO, Terra firme, p. 17-47.
32) Euclides da CUNHA, Amazônia: um paraíso perdido, p. 117-118.
33) Amazônia: um paraíso perdido, p. 118-119.
34) Ibid., p. 119.
35) Ibid., p. 124.
36) Ibid., p. 125.
37) No caso de algumas narrativas, esse aspecto chega a ser central. Não obstante, a escassez e a ausência da mulher no seringal são abordadas na maioria das obras referentes ao ciclo. É necessário ressaltar que o aspecto abordado anteriormente – a dicotomia explorador–explorado – está relacionado ao problema da ausência da mulher à medida que é em razão da forma de exploração estabelecida pelos patrões, através dos regulamentos, que a presença da mulher é proibida ou limitada. Ou seja, a ganância do patrão impede a constituição da família a fim de que o freguês, vivendo exclusivamente para a extração do látex, possa produzir mais.
38) Samuel BENCHIMOL, Romanceiro da batalha da borracha, p. 53.

39) Alberto RANGEL, “Maybi” In: Inferno verde, p. 244-5.
40) Segundo Arthur Cézar F. Reis, os seringueiros encomendavam mulheres aos patrões da mesma forma que encomendavam gêneros alimentícios, utensílios e roupas. Essas ‘encomendas’ entravam na contabilidade feita pelo guarda-livros como as outras mercadorias (O seringal e o seringueiro, p. 241). Márcio Souza critica a mentalidade utilitarista em relação à mulher nos seringais, notando que ela passa a figurar como item precioso na lista de mercadorias. O tratamento da mulher como mercadoria é para o autor tão aberrante quanto o sistema de exploração do trabalho do seringueiro (Breve história da Amazônia, p. 139).
41) Alberto RANGEL, “Maybi” In: Inferno verde, p. 266.
42) Cláudio de Araújo LIMA, Coronel de barranco, p. 255.
43) Ibid., p. 257.
44) Carlos de VASCONCELOS, Deserdados, p. 180.
45) Ibid., p. 199-200.
46) Ramayana de CHEVALIER, No circo sem teto da Amazônia., p. 75.
47) Álvaro MAIA, Beiradão, p. 256.
48) Carlos de VASCONCELOS, Deserdados, p. 147-8.
49) Carlos de VASCONCELOS, Deserdados, p. 154.
50) Ibid., p. 155.
51) Erasmo LINHARES, O tocador de charamela, p. 95-110.
52) Adaucto de Alencar FERNANDES, Arapixi: cenas da vida amazônica, p. 60.
53) Francisco GALVÃO, Terra de ninguém, p. 153.
54) Márcio Souza aponta inverossimilhança no romance por este implantar ideais libertários em personagens elitizadas (A expressão amazonense: do colonialismo ao neo-colonialismo, p. 224).

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