Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
FICÇÕES DA BORRACHA
Lucilene Gomes Lima
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Alvaro Maia

Alvaro Maia

LUCILENE GOMES LIMA

 

Conforme ressalta Santos[1] Álvaro Maia veio a tornar-se uma liderança política estadual, quando regressou dos estudos, por fazer parte ou ser oriundo de um grupo dominante local que lhe possibilitou primeiramente ocupar cargos públicos como redator da Assembléia Legislativa, auditor da Força Policial do Estado do Amazonas, Secretário da Superintendência do Território Federal do Guaporé, Secretário da Comissão de Propaganda e Organização do Centenário da Independência, Secretário da Municipalidade de Manaus, Diretor da Imprensa Pública.

            Contando com apoio de setores tradicionais da economia local, ligados ao comércio e ao extrativismo, Álvaro Maia é nomeado por Getúlio Vargas interventor federal do Amazonas em 1930, sob a indicação de Juarez Távora, delegado federal do Norte. Essa interventoria foi exercida apenas até 1931, quando Maia foi exonerado por Vargas em virtude de ter dissolvido o Tribunal de Justiça do Amazonas, causando descontentamento entre a classe dos juízes, que recorreram a Vargas. Maia retorna ao poder em 1934, elegendo-se indiretamente governador constitucional do Estado do Amazonas. Graças à formação de um secretariado constituído por parentes e cooptados políticos, mantém-se no cargo. Em virtude do golpe político do Estado Novo, em 1937, torna-se interventor federal e governa até a queda de Vargas, em 1945. Em 1946, é eleito senador constituinte. Por intermédio de eleições diretas, volta ao governo do Amazonas em 1951 e, em 1954, é derrotado em nova campanha política. Só consegue retornar ao cenário político em 1966, elegendo-se senador pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA).

            O elo com o seringal e a carreira política marcam  a obra do escritor Álvaro Maia, sendo que o ambiente do seringal dá-lhe o conteúdo e a política o delineamento ideológico. É o escritor amazonense que mais se voltou para os motivos ensejados pela vida no seringal e os motivos correlatos a ela. A maioria da produção abordando o seringal foi publicada a partir dos anos 1950, durante o retorno à literatura após as derrotas políticas.[2] Em 1956, é editado Gente dos seringais; em 1958, Beiradão e Buzina dos Paranás; em 1963, Banco de Canoa; em 1966, Defumadores e Porongas. Buzina dos Paranás destaca-se nessa série de narrativas por ser um livro de poemas, mas os motivos do seringal trabalhados nos outros livros não estão ausentes, uma vez que o autor dedica também poemas à seringueira e a assuntos abordados nas demais obras, como, por exemplo, a figura da parintitin Narcisa, mãe de leite índia, ou aos aviões “Catalinas” que transportavam passageiros e cargas e levavam auxílio médico aos seringueiros.

            Existe uma continuidade nos assuntos abordados em Beiradão e nas demais obras. Uma vez que sua publicação é anterior à maioria delas, entendemos que o autor pretendeu desdobrar o seu conteúdo através dos outros livros. Aproveitando um título que o escritor dá à quarta parte do livro Banco de canoa, podemos dizer que as narrativas contidas em Beiradão e nas outras obras  são “histórias que se repetem.”

            Contendo crônicas sobre acontecimentos e pessoas ligadas ao desbravamento de regiões às margens dos rios amazônicos[3] e histórias prosaicas sobre situações da vida interiorana e dos seringais, as figuras que aparecem nas narrativas são quase sempre as mesmas: pobres, figurões poderosos, religiosos. A vida no interior é registrada através de manobras políticas, apadrinhamento, vinganças passionais, disputa e abuso de poder. O autor também procura captar aspectos culturais como crenças, seres lendários. Há nas histórias abordando as relações políticas interioranas a preponderância da noção de que a não aderência a um grupo político pode resultar em perseguições e enxovalhamentos. Já as histórias envolvendo religiosos geralmente abordam sua castidade, honestidade ou desonestidade.

            A identificação entre Beiradão e as demais obras dá-se também por intermédio de personagens comuns. Fabrício, velho Unias são os contadores de histórias; velha Romana, Zé dos Espíritos, os curandeiros; Narcisa, a ama de leite índia. Personagens como Fábio, Segadais e padre Silveira constituem uma síntese de personagens de outras obras à medida que representam respectivamente o bom pioneiro, o arrivista e o missionário.

            Álvaro Maia atribui uma autoria coletiva às narrativas contidas em obras como Gente dos seringais, Beiradão, Banco de canoa e Defumadores e porongas. Em Gente dos seringais, informa que reduziu narrativas ouvidas de seringueiros e hinterlandinos a textos escritos que pudessem ser compreendidos pelos próprios narradores. Para tanto, amoldou-as à “[...] tessitura ductil dos narradores, fugindo, quando possível, ao ‘latim do padre e do advogado’[...].”[4] Entretanto, declara ter modificado o “colorido das tragédias passionais” que pudessem se apresentar como obscenas. Eximindo-se da autoria, considera-se um “mero compilador”. Nas demais obras, repetem-se as mesmas justificativas no sentido de atribuir as narrativas à imaginação popular. A veracidade das obras é outro ponto sempre destacado.

            A intenção do autor de atribuir a autoria das narrativas a uma coletividade explicita uma preocupação de não se colocar como criador de acontecimentos que, segundo sua percepção, devem-se ao barbarismo do início do processo de desbravamento:

 

Certas narrações prendem-se aos tormentos sexuais nas selvas, quando povoadas exclusivamente por homens, sem refrigeração de mulheres. Surgiram tremendas crises, - raptos e crimes sangrentos, assunto exaurido pelos estudiosos. Evoquei alguns instantes de intenso realismo, revivescendo, em tintas escassas, e sem colorido descritivo, os dramas e os imprevistos patológicos, raros após a incipiente formação geo-social dêstes últimos tempos, na hiléia fragmentada pelas ânsias de estruturação.[5]

 

            O autor, dessa forma, demonstra uma consciência do impacto do conteúdo da obra e, por isso, torna-se um mediador entre sua produção e o público. Conforme observa Sartre, a mediação reflexiva do autor remonta ao fim da Idade Média e se acentua no romance burguês do século XIX. Anteriormente, o autor limitava-se ao ato de narrar e não procedia uma reflexão sobre a sua função de autor, “[...] os temas de seus relatos eram quase todos de origem folclórica, ou ao menos coletiva, e ele se limitava a utilizá-los [...].[6] Ainda que Maia ponha-se como um mero compilador da imaginação popular, é possível identificar em suas narrativas uma ponderação de autor instruído sobre o conteúdo de cunho não culto que afirma compilar. A inserção de suas convicções políticas em muitas dessas narrativas atesta que procedeu um trabalho de elaboração consciente.



[1] Eloína Monteiro dos SANTOS, Uma liderança política cabocla: Álvaro Maia,  p. 22-3.

[2] A estréia de Álvaro Maia no mundo das letras se deu em 1904, aos onze anos, quando foi publicado num jornal infantil o poema “Cabelos negros”, de sua autoria. Em 1925, foi escolhido príncipe dos poetas amazonenses no concurso promovido pela revista Redenção. Tendo tido seus textos poéticos publicados em jornais, só veio a reuni-los em livro em 1958, sob o título Buzina dos paranás. Durante as décadas de 1950 e 1960, publica os livros contendo narrativas e o romance Beiradão. O autor colaborou com a fundação da Sociedade Amazonense de Letras, posteriormente denominada Academia Amazonense de Letras.

[3] Em Gente dos seringais, Álvaro Maia esclarece que as narrativas que compõem o livro se passam na região do Médio Madeira na confrontação com os rios Maici, Machado e Jamari, à margem direita, e com os rios menores como o Puruzinho e o Mucuim, à margem esquerda. Depreende-se nas demais obras a mesma localização.

[4] Álvaro MAIA. Introdução, In: Gente dos seringais, p. 14.

[5] Ibid.,  p. 15.

[6] Jean-Paul SARTRE, O que é literatura?, p. 104.

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