Dilson Lages Monteiro Quarta-feira, 08 de fevereiro de 2012
FICÇÕES DA BORRACHA
Lucilene Gomes Lima
Tamanho da letra A +A

A exploração extrativa

A exploração extrativa

A exploração extrativa

 
A espécie que possibilitou a exploração extrativa e o decorrente fastígio econômico na Amazônia já era conhecida pelos povos americanos com os quais os colonizadores europeus tiveram contato. Reis informa que Cristóvão Colombo, na segunda viagem que fez à América, viu a goma sendo utilizada pelos índios do Haiti. Por outro lado, de acordo com Rodrigues, a goma já era conhecida por antigos povos do México – os Mayás e os Nauhás. Além do emprego para necessidade própria, eles estabeleciam o comércio da goma elástica com outros povos, chegando a promover exportação em grande quantidade. Segundo o autor:

[...] As cidades do Golpho do Mexico, pagavam aos Astecas, annualmente, entre outros, um tributo de 16.000 cargas de gomma elastica, segundo os melhores historiadores. Entre outros empregos, que lhes davam, figuravam as bolas para o seu jogo da péla, que se estendeu, entre algumas das nossas tribus indigenas, até ao sul do Brazil .

Ainda segundo Rodrigues , entre os povos que se espalharam pela América do Sul, uma das subdivisões da tribo dos Nauhás que desceu para o rio Amazonas difundiu o uso da goma elástica. Essa subdivisão tornou-se conhecida como a tribo dos Omáguas. A forma como os Omáguas extraíam e preparavam a goma elástica era desconhecida até o século XVI. Quando as missões portuguesas, em fins do século XVII, começaram a ter contato com as tribos amazônicas, obtiveram com essas tribos os produtos que foram enviados para a Europa. Entre esses produtos estavam os objetos feitos de goma.
As denominações seringueira e borracha surgiram por um acaso lingüístico. A primeira deveu-se a uma relação metonímica, uma vez que a seringa sempre aparecia entre os utensílios fabricados com o látex, levando os portugueses a denominarem a árvore que produzia esse leite de seringueira. Quanto à segunda denominação, surgiu da associação que os portugueses fizeram em relação aos vasos feitos de goma elástica pelos índios, os quais lhes pareceram semelhantes aos objetos de couro que utilizavam e denominavam de borracha. Por extensão de significado, borracha passou a denominar a substância de que eram feitos os objetos de látex pelos índios.
Os índios trocavam, com os missionários portugueses, bolas, seringas ou borrachas por bugigangas. Os missionários haviam descoberto que a goma era útil para proteger seus pés da umidade excessiva e cobriam os sapatos com ela. Posteriormente, passaram a confeccionar os próprios sapatos da goma. Já em 1755, os calçados de borracha eram utilizados no Pará e em Lisboa. Aproveitou-se também a capacidade impermeável da borracha para confeccionar mochilas para os soldados portugueses. Após Charles Marie de La Condamine enviar para a França a primeira amostra da goma elástica, em 1735, iniciou-se o emprego industrial da goma na Europa. As exportações de sapatos e seringas pelo Pará datam de 1850. Além de objetos manufaturados, exportava-se também a borracha bruta.

3- A ficção do ciclo das secas estabelece relações com a ficção do “ciclo da borracha”. Num trecho do romance O quinze, de Rachel de Queiroz, a personagem Chico Bento revela o anseio de uma vida melhor que caracterizou a vinda de muitos nordestinos para a Amazônia: “A voz lenta e cansada vibrava, erguia-se, parecia outra, abarcando projetos e ambições. E a imaginação esperançosa aplanava as estradas difíceis, esquecia saudades, fome e angústias, penetrava na sombra verde do Amazonas, vencia a natureza bruta, dominava as feras e as visagens, fazia dele rico e vencedor” (s.d., p. 30).
4- Samuel Benchimol informa que a Amazônia recebeu, no período de 1877 a 1920, 300.000 imigrantes nordestinos (Amazônia: formação social e cultural, 1999, p. 136). Antônio Loureiro, entretanto, observa que esse número poderá ser ultrapassado através de novos estudos (Antônio J. S. LOUREIRO, Amazônia: 10.000 anos, p. 167).
Arthur C. F. REIS, O seringal e o seringueiro, p. 80.
5- João B. RODRIGUES, As heveas ou seringueiras: informações, p. 7-8.
Ibid., p. 7-8.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

09.11.2010 - O fogo da labareda da serpente

02.10.2010 - Lucilene Gomes Lima: Ferreira de Castro

27.06.2010 - O fogo da labareda da serpente

26.06.2010 - O fogo da labareda da serpente

08.05.2010 - Beiradão

07.05.2010 - A decadência

02.05.2010 - O capital extrativista

16.04.2010 - Seringueiro

13.04.2010 - Alvaro Maia

04.04.2010 - Beiradão

02.04.2010 - O extermínio indígena.

31.03.2010 - O amante das amazonas

23.03.2010 - Alvaro Maia

16.03.2010 - Vínculo empregatício

14.03.2010 - A selva

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos

Twitter

Carregando...
Últimas matérias

08.02.2012 - Manual da criança Caiçara

Manual da criança Caiçara

08.02.2012 - Conceitos da Comunicação de Massa (21)

A arte que resiste às estritas separações de gêneros de produtos de cultura: [1] tradicional-popular (folclórico), [2] erudito (erudito-clássico e erudito-vanguardista) e [3] pop (tecnológico)

08.02.2012 - Prêmio Angoulême anuncia seus vencedores

Prêmio Angoulême anuncia seus vencedores

08.02.2012 - Paquistão: Multidão assiste à chegada de um tubarão-baleia morto ao porto de Carachi

O jornal paquistanês The Express Tribune informa que o monstro marinho tem o comprimento de um ônibus escolar

07.02.2012 - A cidade dos contos de fadas

O carnaval de Cerknica, Eslovênia, tem importância mundial equivalente a, por exemplo, o Festival Folclórico de Parintins, Brasil

07.02.2012 - Conceitos da Comunicação de Massa (20)

As 3 revoluções comunicativas, segundo Massimo Baldini, e a quarta revolução, de acordo com, entre outros autores, Massimo Di Felice

06.02.2012 - VARIAÇÕES INTERTEXTUAIS SOBRE A MORTE

..............................................................................................

06.02.2012 - Quem matou o carro elétrico?

Who killed the electric car? é o nome do filme

06.02.2012 - Um poema de Gérard de Nerval (1808-1855)

Je suis le tenebreux

06.02.2012 - NEUZA MACHADO: SOBRE "O AMANTE DAS AMAZONAS"

A “economia política” do Manixi, constituída a partir do momento em que, entre os diversos elementos da riqueza

06.02.2012 - "Bem-te-vi Feiticeiro", libelo ecológico de Thales Andrade

Precisamos iniciar uma campanha para que os valiosos livros de Thales Andrade sejam reeditados

06.02.2012 - Antero de Quental

Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira

06.02.2012 - Borges disponível

Os primeiros títulos sãoO Livro da Areia e História da Eternidade

06.02.2012 - O consumidor insatisfeito queixará para quem?

Estou desde ontem com interrupções constantes na conexão

05.02.2012 - NEUZA MACHADO: SOBRE "O AMANTE DAS AMAZONAS"

O Manixi, o que me acena provocativamente, não é o Manixi real dos manuais geográficos da região amazonense.

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (segundo piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br