Dilson Lages Monteiro Domingo, 23 de abril de 2017
ESTUDOS & LITERATURAS - ANTÔNIO CARLOS ROCHA
Antônio Carlos Rocha
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Texto dedicado à Amithaba, o Buda das Águas

A Vida é uma Correnteza

 

Antonio Carlos Rocha

 

Quando aquele ator global faleceu na correnteza do Rio São Francisco, eu me lembrei das lições que as correntezas da vida me passaram.

 

A primeira lição eu tinha uns quatro anos, ainda estava no Recife, às margens de um caudaloso rio, não sei se Beberibe ou Capibaribe. Contemplei o impressionante volume de águas e desde então passei a respeitar a força das águas. Então ouvi: “Respeite a Correnteza”. Certamente um anjo me soprou o recado nos ouvidos. Pode ter sido gente, mas eu não lembro de ninguém perto ... só eu e o Rio. Aliás, hoje, budisticamente falando, vejo que o Rio também é um Ser Vivo, é uma “pessoa” aquática ...

 

A segunda lição já foi no RJ, em Realengo onde eu morava, perto de nossa casa havia um pequeno rio e nas chuvaradas de verão ele transbordava e muitos iam nadar. Novamente eu contemplava a Energia das águas, algo marcante.

 

A terceira lição já foi na cidade satélite do Gama, DF, perto de nossa casa, no Setor Leste havia um córrego. Se tinha nome eu não sei, todo mundo chamava de córrego. Eu acho esta palavra com uma sonoridade linda ... córrego ... de correr, de passar, a vida correndo, passando e nós devemos acompanha-la.

 

Foi nesse córrego que aprendi a nadar. Adolescente nós víamos as mulheres lavando roupa na beira desse riacho, batendo as peças de roupa nas pedras, após ensaboadas deixando-as quarar ao sol e por fim o enxágue.

 

Novamente me disseram: respeite a correnteza, em tempo de chuvarada não mergulhe, pode ter pedaços de madeira encobertos ou mesmo pedras.

 

Belo dia fui participar de uma Colônia de Férias na Área Alfa, que era uma localidade próxima ao Gama, residências da Marinha e um Clube Campestre, local lindíssimo. Eu não sei se era o mesmo córrego do Gama, mas o riacho que passava na Área Alfa, com uma correnteza bem mais forte fizeram uma bonita piscina de água corrente e claro, lá aprimorei os meus primeiros passos, ou melhor, as minhas primeiras braçadas em uma piscina de respeito com água corrente.

 

A Colônia de Férias era orientada pelos Jesuítas e o coordenador era o padre espanhol Gabriel Galache, anos depois encontrei ele como diretor das Edições Loyola, em SP. Fomos treinados para fazer um trabalho social em uma região carente chamada Vila São João onde estava acontecendo um surto de poliomielite e nós, da Colônia de Férias, íamos de casa em casa, vacinando as crianças.

 

Mas o destaque é que, uma vez fiquei entusiasmado com a piscina citada e na hora do almoço não acompanhei o grupo que já estava no refeitório. Nadando só na piscina, me aventurei na correnteza, na borda só havia uma beldade em minúsculo biquíni da época e um rapaz perto, os dois pegando sol.

 

Não sei como, esqueci todas as lições e comecei a me afogar na correnteza, sentia sendo puxado pela estranha força, gritei “socorro”, mas a mulher ao sol nem ligou para a minha aflição. Só depois de beber bastante água e ser um pouco arrastado pela correnteza é que o rapaz pulou na água e me puxou pelos cabelos, ainda bem que era a moda dos cabelos grandes na época da “jovem guarda”.

 

Aprendi outra lição, para salvar alguém de afogamento, puxe pelos cabelos, pois a tendência do afogado é abraçar o salvador e aí os dois podem, no desespero morrer.

 

Quando saí da piscina, tossindo e vomitando água, a mulher exclamou:

 

- Então era verdade? Eu pensei que você estava fazendo graça para eu te olhar...

 

- Dona, o cara quando está morrendo afogado não vai pensar em paquerar ninguém – disse o rapaz que me salvou.

 

Agradeci e fui almoçar.

 

Por fim, nas minhas experiências com as correntezas foi quando a turma do Gama resolveu fazer uma pescaria em Goiás, no Rio Santo Antonio do Descoberto, que é um grande rio e um município.

 

Os outros pescaram, eu não pesquei nada, limitei-me a contemplar a magnífica correnteza. Também não me atrevi a nadar. Observei que nem os experientes pescadores que estavam comigo banharam-se no rio. Os outros conseguiram pescar. E na volta ganhei um único peixe, como prêmio de consolação, que entreguei para minha mãe preparar. Era um peixe de uns 50 cm, bem encorpado.

 

Quanto ao ator global, na ocasião, fiz as minhas preces budistas para ele, que já estava em outra dimensão da vida e os familiares e amigos que ficaram.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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